Ao final da 26ª Conferência Internacional sobre Aids (AIDS 2026), foram apresentados os principais resultados dos estudos e discussões ocorridos ao longo do evento.
A seguir, confira alguns dos destaques selecionados.
Pesquisa translacional: bNAbs, remissão e vacinas
Anticorpos amplamente neutralizantes (broadly neutralizing antibodies, bNAbs) são seguros e capazes de suprimir a replicação viral, além de estimular o sistema imune.
O controle pós-tratamento foi maior em 20% a 30% dos participantes do estudo avaliado, estando associado a células T CD8 pré-existentes, reservatório menos diverso e anticorpos autólogos pré-existentes.
A vacinação imunogênica pode complementar a terapia com bNAbs para aumentar as respostas de células T e anticorpos autólogos.
Foram discutidos os resultados de 3 ensaios clínicos conduzidos em diferentes populações:
- Tatelo/Tatelo-plus, em Botswana, que avaliou crianças;
- FRESH, na África do Sul, que avaliou mulheres jovens;
- RIO, no Norte global, que avaliou majoritariamente homens cisgênero.
As conclusões foram de que bNAbs são uma alternativa promissora, inclusive na população pediátrica, em que ainda há dúvidas em relação ao perfil de segurança.
Dois novos casos de cura/remissão sustentada foram anunciados após transplante de células hematopoiéticas com doadores homozigotos para CCR5 Δ32: o paciente de Essen, que apresenta remissão sustentada por 60 meses após interrupção de terapia antirretroviral (TARV), apesar de rebote de infecção por HBV, e o paciente do Kansas, que apresenta remissão sustentada por 17 meses após interrupção de TARV.
A administração de um superagonista de IL-15 foi capaz de reduzir o reservatório intacto e induzível, além de aumentar as respostas de células T CD8, favorecendo o controle pós-tratamento com bNAbs.
Estudos com vacinas estão avaliando candidatos que procuram treinar o sistema imune a produzir anticorpos amplamente neutralizantes específicos para prevenir a infecção pelo HIV.
Tratamento do HIV: esquemas longos, semanais e terapia dupla
Um estudo multicêntrico, aberto e randomizado de fase 2 mostrou os resultados da combinação de lenacapavir (LEN), teropavimab (TAB) e zinlirvimab (ZAB) para início ou troca de TARV em pacientes adultos em supressão viral há pelo menos 1 ano.
Com 104 semanas de seguimento, houve elevada proporção de manutenção de supressão viral, de 98%, e não houve relatos preocupantes de eventos adversos.
Outro estudo aberto de fase 2 comparou a administração de islatravir (ISL), um inibidor de transcriptase reversa análogo de nucleosídeos, associado a ulovirina (ULO), um inibidor de transcriptase reversa não análogo de nucleosídeos, 1 vez por semana, com a combinação diária de bictegravir/emtricitabina/tenofovir alafenamida (BIC/FTC/TAF).
A proporção de supressão viral ao fim de 24 semanas foi semelhante entre os grupos: 94,9% versus 97,5%, respectivamente.
O estudo ISLEND-2 é um estudo aberto, de não inferioridade, de fase 3, que comparou a administração de ISL/LEN 1 vez por semana com TARV padrão em adultos com HIV e supressão viral.
Na semana 48, não houve diferença entre os grupos, e a proporção de supressão viral foi de aproximadamente 95% em ambos: 95,2% no grupo ISL/LEN e 95,5% no grupo de terapia padrão.
O estudo BicDol, que utilizou dados de vida real para comparar esquemas de terapia tripla contendo dolutegravir (DTG) com esquemas triplos contendo BIC em pacientes com carga viral elevada na França, não mostrou diferenças entre os grupos em relação à supressão viral.
No entanto, os pacientes em uso de DTG alcançaram carga viral < 50 cópias/mL de forma significativamente mais rápida do que aqueles em uso de BIC.
Em uma subanálise do estudo PASO DOBLE, ensaio clínico randomizado, multicêntrico e aberto de fase 4 que compara DTG/3TC com BIC/FTC/TAF, foi demonstrado que, com 96 semanas, DTG/3TC foi não inferior a BIC/FTC/TAF em manter supressão viral, mas esteve associado a menor ganho de peso e menor chance de ganho ponderal clinicamente significativo, definido como > 5%.
O estudo Opti-Dor avaliou doravirina (DOR)/3TC/TDF versus DTG/FTC/TAF como início de terapia em adultos com alto risco de ganho de peso associado ao tratamento.
Não houve diferença em termos de supressão viral entre os grupos, mas o grupo que recebeu DOR/3TC/TDF apresentou maior risco de desenvolvimento de mutações de resistência em casos de falha.
HIV em crianças, adolescentes e envelhecimento
O subestudo do D3/PENTA-21, conduzido em crianças com HIV, mostrou que, mesmo em pacientes com mutação M184V/I, a terapia com DTG/3TC foi capaz de manter supressão viral de forma comparável ao grupo de crianças sem mutação.
Outro estudo em crianças e adolescentes de 2 a < 18 anos, conduzido em 25 centros localizados nos Estados Unidos, África do Sul, Tailândia e Uganda, mostrou eficácia e segurança de BIC/FTC/TAF nessa população em um seguimento prolongado de 5 anos.
Estudos brasileiros mostraram prevalência de aproximadamente 50% de comprometimento cognitivo em pessoas vivendo com HIV (PVHIV).
Além da replicação viral, outros fatores implicados foram nadir de CD4 mais baixo, exposição a alguns antirretrovirais, sexo, depressão, comorbidades relacionadas à idade e vulnerabilidade social.
O estudo LATA, que avaliou TARV de longa duração em adolescentes vivendo com HIV na África subsaariana, mostrou que a administração de cabotegravir (CAB) e rilpivirina (RPV) a cada 8 semanas foi superior a DTG/3TC/TDF, com 0,9% versus 6,4% de rebote viral, respectivamente.
Outro achado foi que 94% dos participantes consideraram as injeções de CAB/RPV mais fáceis de manter do que a ingestão diária de DTG/3TC/TDF.
Aids avançada e mortalidade
Em relação à Aids avançada, as principais mensagens da Conferência foram que, para reduzir a mortalidade relacionada a essa condição, são essenciais:
- diagnóstico precoce;
- vinculação rápida a unidades de saúde;
- implementação dos pacotes da Organização Mundial da Saúde (OMS) para Aids avançada;
- vigilância de resistência a DTG.
Um estudo multicêntrico de fase 3 comparando monoterapia com fluconazol versus fluconazol e flucitosina para tratamento de antigenemia criptocócica em PVHIV não mostrou diferença entre as terapias na mortalidade em 6 meses.
Prevenção do HIV: PrEP injetável e novas tecnologias
Os estudos de extensão com LEN subcutâneo semestral mostraram manutenção de alta proporção de adesão com 52 semanas.
No estudo PURPOSE 1, não houve nenhum caso de infecção pelo HIV no período de extensão. No PURPOSE 2, a eficácia foi de 96%.
Dados de vida real da coorte OPERA também mostraram nenhuma aquisição de HIV nas mulheres recebendo profilaxia pré-exposição (PrEP) com CAB injetável a cada 8 semanas, mesmo com atrasos curtos nas injeções.
Contudo, descontinuação precoce e atrasos são desafios importantes para implementação dessa modalidade preventiva.
Os dados iniciais de anel vaginal com dapivirina/levonorgestrel, ainda em desenvolvimento, mostraram que, com adesão adequada, essa tecnologia foi capaz de manter níveis séricos dos fármacos no alvo e suprimir a função ovariana de forma consistente, sendo uma possível alternativa para prevenção combinada, com efeito anticoncepcional e como PrEP para HIV.
DoxiPEP, serviços comunitários e determinantes sociais
Dados populacionais australianos mostraram reduções significativas na incidência de sífilis e clamídia com a incorporação de recomendações para profilaxia com doxiciclina (doxiPEP).
Uma modelagem com dados brasileiros mostrou que a prescrição baseada em eventos, isto é, início após um teste positivo para qualquer infecção sexualmente transmissível (IST), poderia evitar 44% das ISTs, enquanto reduziria o consumo de antibióticos em 58%, sendo uma estratégia que equilibra prevenção e uso racional de antimicrobianos.
Diversos estudos têm demonstrado que modalidades de prevenção funcionam melhor quando os serviços são levados às comunidades. O uso de serviços baseados em farmácias, redes sociais e aplicativos de encontros mostrou-se eficiente em aumentar o uso de PrEP e PEP para HIV e o número de testagens, respectivamente.
Outras estratégias importantes são aquelas que combinam serviços, como testagens combinadas de HIV, sífilis e hepatites virais e integração com cuidados de saúde da mulher.
Os desfechos da infecção pelo HIV dependem não apenas de tecnologias biomédicas, mas também de determinantes sociais.
Insegurança alimentar e de água e violência por parceria íntima estão associadas a piores desfechos e precisam ser abordadas para melhorar os resultados em saúde.
Mensagem prática
Os destaques do AIDS 2026 reforçam um cenário de rápida evolução no cuidado em HIV, com avanços em pesquisa translacional, terapias de longa duração, esquemas semanais, PrEP injetável, novas estratégias de prevenção combinada e abordagens voltadas a Aids avançada.
Para a prática clínica, a mensagem central é que o cuidado em HIV deve integrar inovação biomédica, vigilância de resistência, diagnóstico precoce, adesão, acesso às tecnologias preventivas e enfrentamento dos determinantes sociais que impactam os desfechos.
Autoria

Isabel Melo
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com residência médica em Infectologia pela mesma instituição (2020). Além da atuação na Afya, é médica no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) e no Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria, na Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz.
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