A 26ª Conferência Internacional sobre Aids (AIDS 2026) abordou, em um de seus simpósios, as evidências mais recentes em relação aos cuidados de pessoas vivendo com HIV (PVHIV) durante a gestação e a amamentação. A seguir, confira os principais pontos abordados.
Como mudou o risco de transmissão vertical do HIV?
Sem nenhuma intervenção, o risco de transmissão vertical do HIV é de 15% a 45%. Contudo, com a adoção de terapia antirretroviral de alta potência, esse risco caiu para < 2% e, mais recentemente, para < 1%.
Com isso, o paradigma do cuidado com gestantes com HIV passou a ser remover estratégias anteriores para redução de transmissão vertical que não são mais necessárias.
Carga viral materna é o principal preditor de transmissão
O maior preditor de transmissão vertical do HIV é a carga viral materna próxima do parto.
Uma revisão sistemática com metarregressão publicada em 2025 no The Lancet por Dugdale et al. mostrou que, com carga viral indetectável, o risco de transmissão vertical é < 0,2%, aumentando para 5,1% quando a carga viral é maior ou igual a 1.000 cópias/mm³, o que representa aumento de risco relativo de 22,5 vezes.
Supressão viral precoce e sustentada importa
Contudo, o tempo em que a gestante se mantém com carga viral indetectável também apresenta papel importante no risco de transmissão vertical.
Walters et al., em publicação no The Lancet HIV também em 2025, mostraram que, quando a carga viral materna se torna indetectável menos de 4 semanas antes do parto, o risco de transmissão para o feto é de 5,6%. Já nas gestantes com carga viral indetectável desde o período pré-concepção, esse risco é de 0,33%.
Portanto, para redução eficaz da transmissão vertical, é essencial não apenas atingir supressão viral, mas que ela aconteça de forma precoce e sustentada.
Em dois grandes estudos, com aproximadamente 5.000 gestantes cada, na presença de terapia antirretroviral (TARV) antes da concepção e com carga viral indetectável de forma sustentada, não houve nenhum caso de transmissão vertical de HIV.
Amamentação em mulheres com HIV ainda é tema em debate
Entretanto, ainda permanece incerto se o conceito de I = I para amamentação já pode ser considerado uma realidade.
Nos últimos anos, diversas evidências têm demonstrado de forma consistente que, quando a mãe se mantém indetectável no período pós-natal, o risco de transmissão vertical permanece significativamente baixo, com os estudos mais recentes, a partir de 2023, sem nenhum relato de transmissão.
Contudo, os dados com gestantes na América Latina ainda são muito escassos, e muitas diretrizes recomendam contra a amamentação por todas as gestantes vivendo com HIV.
Dados iniciais da experiência argentina
Foram apresentados os resultados iniciais de um programa institucional realizado na Argentina apoiando amamentação em gestantes com HIV.
O programa teve início em 2023, sendo conduzido atualmente em 11 centros em 3 províncias. Ele é baseado em 3 pilares:
- supressão viral sustentada antes da concepção;
- monitoramento materno-infantil regular;
- apoio multidisciplinar, favorecendo e permitindo decisão compartilhada.
No total, 25 mulheres apresentavam as condições citadas, e 22 iniciaram amamentação. Destas, 15 já completaram o período de amamentação e 7 ainda estão amamentando.
Dentre essas 25 mulheres, a mediana de idade foi de 32 anos, a mediana de CD4 foi de 868 células/mm³ e a mediana de tempo em supressão viral foi de 6 anos. Todas permaneceram com carga viral indetectável ao longo da gestação e da amamentação.
Entre as 22 mulheres que amamentaram, a mediana de tempo de amamentação foi de 7 meses, variando de 2 dias a 20 meses. Todos os recém-nascidos receberam zidovudina profilática. Em 45%, houve aleitamento misto.
Em seguimento de 18 meses, não houve nenhum caso de transmissão pós-natal, o que também está sendo observado nas 7 mulheres ainda em seguimento.
Esses resultados de vida real sugerem que a amamentação, sob condições específicas, pode ser segura e viável em gestantes com HIV.
Mensagem prática
As evidências discutidas na IAS 2026 reforçam que a carga viral materna próxima ao parto segue como principal preditor de transmissão vertical do HIV. No entanto, o tempo de supressão viral também importa: quanto mais precoce e sustentada a indetectabilidade, menor o risco.
No campo da amamentação em mulheres com HIV, os dados mais recentes apontam risco muito baixo quando há supressão viral sustentada e monitoramento regular. Ainda assim, a decisão exige cautela, contexto local, apoio multidisciplinar e decisão compartilhada, especialmente em regiões onde os dados ainda são escassos.
Autoria

Isabel Melo
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com residência médica em Infectologia pela mesma instituição (2020). Além da atuação na Afya, é médica no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) e no Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria, na Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz.
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