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Infectologia31 julho 2026

AIDS 2026: HIV e envelhecimento: cognição, sarcopenia e depressão

AIDS 2026 discutiu HIV e envelhecimento, com dados sobre cognição, sarcopenia, sintomas depressivos e vulnerabilidade em PVHIV.
Por Isabel Melo

Com o aumento da expectativa de vida das pessoas vivendo com HIV (PVHIV), questões relacionadas ao envelhecimento tornam-se uma preocupação cada vez mais presente na rotina dos profissionais envolvidos no cuidado desses pacientes.

A 26ª Conferência Internacional sobre Aids (AIDS 2026) contou com uma sessão de apresentações sobre aspectos do envelhecimento em PVHIV. Dentre os trabalhos apresentados, destacam-se aqueles conduzidos no Brasil e que, portanto, representam melhor a nossa população.

A seguir, confira os principais destaques.

Comprometimento cognitivo em PVHIV mais velhos

A presença de comprometimento cognitivo é comum em PVHIV mais velhos, mesmo naqueles com carga viral indetectável. Entretanto, os fatores associados a essa condição em populações de renda intermediária ainda são escassos.

O estudo ELEA-Brasil é um estudo seccional que recrutou PVHIV ≥ 50 anos em uso de terapia antirretroviral (TARV) e em supressão viral em quatro unidades de saúde brasileiras, nos anos de 2022 e 2023.

Todos os participantes foram submetidos a avaliação geriátrica ampla, incluindo avaliação cognitiva por meio da ferramenta MOCA e avaliação de sintomas depressivos pelo PHQ-9.

Participantes com demência, doença neurológica crônica e deficiência visual foram excluídos.

Dos 624 participantes incluídos, 50,5% tinham performance cognitiva classificada como ruim, definida por MOCA ≤ 23.

Na análise multivariada, idade mais avançada, sexo feminino, raça preta/parda, menor escolaridade, maiores escores na escala PHQ-9 de sintomas depressivos, menor nadir de CD4 e exposição cumulativa mais prolongada a efavirenz foram fatores associados de forma independente à pior performance cognitiva.

Outros fatores, como exposição a dolutegravir, número de comorbidades, histórico de infecções oportunistas e tempo desde o diagnóstico de HIV, não apresentaram associação com comprometimento cognitivo.

A conclusão da análise foi de que, entre PVHIV brasileiros mais velhos, o comprometimento cognitivo foi frequente, estando associado, de forma independente, a fatores ligados à vulnerabilidade, como raça e nível de escolaridade, depressão e menor nadir de CD4.

A exposição a efavirenz também foi fator relacionado a comprometimento cognitivo.

Os autores destacam que rastreio cognitivo de rotina e integração com serviços de cuidado em saúde mental devem ser priorizados para PVHIV vulneráveis, com o objetivo de alcançar um envelhecimento mais saudável.

Sarcopenia e avaliação muscular por imagem

PVHIV apresentam perda muscular acelerada, desenvolvendo sarcopenia e estando sob maior risco de comprometimento da função física.

A maior parte das avaliações de sarcopenia baseia-se em fraqueza muscular e massa muscular reduzida para o diagnóstico, mas não considera a qualidade muscular, que é avaliada por meio de infiltração muscular e declínio funcional.

Uma análise seccional usou dados do estudo HEALTH, que incluiu PVHIV ≥ 50 anos, em uso de TARV há pelo menos um ano e com carga viral < 200 cópias/mL.

Os participantes eram sedentários, tinham queixa de fadiga e não estavam em uso de antirretrovirais com toxicidade mitocondrial.

O estudo apresentado avaliou tanto a quantidade quanto a qualidade muscular, utilizando uma estratégia multimodal de exames de imagem: densitometria por dupla emissão de raios-X (DEXA), ressonância magnética (RNM) e ultrassonografia (USG).

Os autores buscaram correlacionar os achados com avaliações de performance física, incluindo bateria curta de performance física modificada (mSPPB), velocidade de marcha, teste de caminhada, teste de sentar e levantar e avaliação de força muscular.

Dos participantes incluídos, 52 foram submetidos à DEXA e a uma modalidade de imagem adicional.

A mediana de idade foi de 58 anos (IQR = 54–62), 8,0% eram mulheres e a mediana de duração da infecção pelo HIV foi de 24 anos (IQR = 18–30).

A quantidade de massa muscular esteve positivamente correlacionada à força muscular.

A qualidade muscular mensurada por RNM, por sua vez, não apresentou correlação com força muscular, mas esteve negativamente correlacionada, de forma moderada, com pior performance no mSPPB.

Portanto, em PVHIV mais velhos, a quantidade de massa muscular esteve associada a avaliações de força muscular, enquanto a qualidade muscular avaliada por RNM esteve correlacionada de forma mais próxima com a performance física geral.

O uso concomitante dessas avaliações radiológicas complementares pode ajudar a identificar melhor vulnerabilidade funcional na população de PVHIV durante o processo de envelhecimento.

Sintomas depressivos e seus preditores

Depressão também é uma condição clínica comum em PVHIV. Um trabalho procurou avaliar fatores preditores de sintomas depressivos em uma base de dados longitudinal de PVHIV de cinco países.

Os dados analisados referem-se a duas coortes: RV254, da Tailândia, e AFRICOS, que recruta PVHIV e pessoas sem HIV da Tanzânia, Nigéria, Uganda e Quênia.

Em ambas as coortes, são aplicados questionários que avaliam sintomas depressivos, PHQ-9 na RV254 e CESD-R na AFRICOS. Os resultados foram harmonizados para permitir análise conjunta e comparações.

Dentre os 3.848 participantes incluídos, a mediana de seguimento foi de 9,5 anos (IQR = 6,5–13,8), a maioria era do sexo masculino (51,5%) e a mediana de idade foi de 34 anos (IQR = 26–43).

Quando comparados com os participantes da Tanzânia, os participantes do Quênia e da Tanzânia apresentaram maior gravidade dos sintomas depressivos.

Sexo feminino, ser viúvo, uso de substâncias ilícitas e ter parcerias sexuais casuais foram outros fatores relacionados a sintomas mais graves.

De forma interessante, em todos os países, a gravidade dos sintomas depressivos diminuiu de acordo com o tempo desde o diagnóstico, sendo menor nos participantes com mais anos desde o diagnóstico da infecção pelo HIV.

Mensagem prática

Os dados apresentados na AIDS 2026 reforçam que o envelhecimento em pessoas vivendo com HIV deve ser acompanhado de forma multidimensional, incluindo cognição, saúde mental, composição corporal, força muscular e funcionalidade.

No contexto brasileiro, o estudo ELEA-Brasil destaca que comprometimento cognitivo em PVHIV mais velhos é frequente e se associa a vulnerabilidade social, sintomas depressivos, menor nadir de CD4 e maior exposição cumulativa a efavirenz.

Para a prática clínica, a mensagem central é que o cuidado longitudinal em PVHIV deve ir além da supressão viral, incorporando rastreio cognitivo, avaliação funcional, identificação de sarcopenia e integração com saúde mental.

Autoria

Foto de Isabel Melo

Isabel Melo

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com residência médica em Infectologia pela mesma instituição (2020). Além da atuação na Afya, é médica no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) e no Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria, na Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz.

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