O câncer de colo do útero permanece como a quarta neoplasia mais comum entre mulheres globalmente, com a infecção persistente por tipos de HPV de alto risco (HR-HPV) estabelecida como sua causa primária. Estima-se que o risco de adquirir o vírus ao longo da vida chegue a 90%, embora a vasta maioria das infecções apresente resolução espontânea, sem necessidade de intervenção.
Na prática clínica, o manejo atual foca na observação de lesões de baixo grau e na intervenção ativa apenas quando há confirmação histológica de neoplasia intraepitelial cervical de grau 2 ou superior (NIC II+). No entanto, a ansiedade das pacientes e o desejo por uma “cura” rápida têm impulsionado a investigação de diversos agentes tópicos.
Nesse sentido, o estudo liderado por Pareja e colaboradores, publicado em março de 2026 no periódico International Journal of Gynecological Cancer, conduzido por pesquisadores de diversas instituições, incluindo Estados Unidos e Colômbia, teve por objetivo revisar sistematicamente a literatura sobre a eficácia de tratamentos tópicos cervicais na redução do risco de progressão para lesões NIC II+ em mulheres com HPV de alto risco.

Rigor Metodológico na Filtragem das Evidências
Os autores conduziram uma revisão sistemática seguindo as diretrizes PRISMA, com buscas realizadas em bases de dados robustas, como Ovid MEDLINE, Ovid EMBASE e Cochrane Central, até dezembro de 2024. O protocolo foi rigorosamente desenhado para incluir apenas ensaios clínicos randomizados (ECRs) que avaliassem agentes tópicos isolados em comparação com placebo ou observação ativa.
A população-alvo consistiu em mulheres com HR-HPV confirmado por teste molecular e diagnóstico histológico de, no máximo, NIC I. O desfecho primário definido foi a progressão histológica para NIC II+, critério essencial para validar qualquer mudança de conduta clínica. Estudos que utilizavam apenas citologia ou inspeção visual para acompanhamento, sem testagem molecular, foram excluídos, com o objetivo de garantir maior objetividade aos dados.
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Resultados – A ausência de provas de eficácia
Após a triagem de 305 registros, 16 ensaios clínicos independentes foram avaliados detalhadamente. Surpreendentemente, nenhum desses estudos atendeu a todos os critérios de inclusão. A maioria foi excluída por utilizar populações inadequadas, carecer de confirmação histológica ou não possuir um grupo comparador de observação.
Devido à ausência de estudos qualificados, não foi possível calcular o odds ratio (OR) para o desfecho de progressão para NIC II+. Embora muitos ensaios excluídos tenham relatado o “clareamento” do HPV ou melhora citológica, eles não possuíam poder estatístico ou desenho adequado para avaliar a progressão real da doença.
Exemplos de fragilidade metodológica
Entre os principais problemas identificados nos estudos excluídos estavam a ausência de confirmação histológica, o uso de desfechos substitutos e a falta de comparação com observação clínica adequada. Esses fatores comprometem a aplicabilidade dos achados à prática assistencial.
Reflexões sobre a Prática e Limitações
A principal limitação apontada é a fragilidade metodológica dos estudos existentes, que frequentemente utilizam desfechos substitutos (surrogate endpoints) em vez de resultados oncológicos clinicamente relevantes. Além disso, a taxa de regressão espontânea do HPV é superior a 90% em sete anos, o que exige que qualquer terapia tópica demonstre um benefício muito superior à história natural da infecção para justificar seu uso.
Por que isso importa na prática?
A ausência de evidência robusta impede recomendar essas terapias como estratégia de prevenção da progressão para lesões de maior gravidade. Isso reforça a necessidade de manter o seguimento baseado em critérios histológicos e em condutas já validadas.
Mensagem prática
Sob o olhar técnico, esta revisão reforça que, apesar do apelo comercial de géis e cremes vaginais, não existe evidência de alta qualidade que sustente o uso de terapias tópicas para prevenir o câncer cervical. Prescrever tais agentes sem comprovação pode gerar custos desnecessários e falsas expectativas.
A conduta padrão deve permanecer baseada na observação cuidadosa, no rastreamento adequado e na vacinação, mantendo-se o rigor nos critérios histológicos antes de qualquer intervenção ativa.
Autoria
Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais
Graduação em Medicina pela Faculdade Souza Marques (2006), Residência Médica em Medicina de Família e Comunidade pela UFF (2008), Especialização em Ginecologia e Obstetrícia Pela SOGIMA/RJ (2012), Mestrado em Saúde Materno Infantil pela UFF (2016). Atualmente é Professora de Obstetrícia do Departamento Materno-Infantil da UFF e Doutoranda em Ciências Médicas também na UFF.
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