Um estudo recentemente publicado na Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (RBGO), com o título “Diagnosis and management of mirror syndrome: a case series with emphasis on the potential role of the sFlt-1/PlGF ratio in clinical practice”, teve como objetivo caracterizar os parâmetros clínicos, laboratoriais e ultrassonográficos maternos, além dos desfechos maternos e perinatais na síndrome do espelho, discutindo o potencial papel da razão sFlt-1/PlGF na prática clínica.
A síndrome do espelho, também conhecida como síndrome de Ballantyne, é uma condição rara caracterizada pela tríade composta por hidropisia fetal, placentomegalia e edema materno. Do ponto de vista clínico, pode mimetizar a pré-eclâmpsia, cursando com hipertensão arterial e proteinúria, o que frequentemente gera dúvida diagnóstica. Entretanto, há diferenças fisiopatológicas importantes, especialmente a presença de hemodiluição, com anemia materna, em contraste com a hemoconcentração típica da pré-eclâmpsia.
Nos últimos anos, o desequilíbrio entre fatores angiogênicos, como o PlGF, e antiangiogênicos, como o sFlt-1, consolidou-se como peça-chave na fisiopatologia da pré-eclâmpsia. A aplicação desses biomarcadores na síndrome do espelho, contudo, ainda é pouco explorada, sobretudo quanto ao seu papel na diferenciação diagnóstica e na predição de desfechos adversos.

Metodologia
Trata-se de uma série de casos que incluiu todas as gestantes com diagnóstico de síndrome do espelho atendidas em um centro terciário brasileiro entre novembro de 2020 e outubro de 2023. Foram coletadas variáveis sociodemográficas, clínicas, ultrassonográficas e laboratoriais, incluindo níveis de hemoglobina, hematócrito, contagem de plaquetas, creatinina, ácido úrico, transaminases, proteinúria de 24 horas e relação proteína/creatinina urinária. Quando disponível, foi realizada a dosagem da razão sFlt-1/PlGF.
Para a interpretação dessa razão, foram utilizados os pontos de corte já estabelecidos para pré-eclâmpsia, considerando valores inferiores a 38 como baixo risco, entre 38 e 84 como risco aumentado e valores iguais ou superiores a 85 como compatíveis com pré-eclâmpsia ou risco iminente de desfecho adverso. O diagnóstico de síndrome do espelho foi definido pela presença de hidropisia fetal associada a edema materno, hipertensão arterial ou proteinúria.
Resultados
Foram identificados nove casos de síndrome do espelho, com idade gestacional média ao diagnóstico de 27 semanas e 6 dias, variando entre 23 semanas e 1 dia e 32 semanas e 3 dias.
Do ponto de vista clínico materno, edema de membros inferiores esteve presente em sete dos nove casos, hipertensão arterial em oito e proteinúria também em oito pacientes.
À avaliação ultrassonográfica, hidropisia fetal foi observada em sete casos, polidrâmnio em seis e placentomegalia em sete. Entre as alterações laboratoriais, destacaram-se relação proteína/creatinina urinária alterada em cinco das oito mulheres testadas, proteinúria de 24 horas elevada em todas as cinco avaliadas, anemia em sete pacientes, trombocitopenia em três, ácido úrico elevado em cinco das oito avaliadas e elevação da creatinina em um caso.
A razão sFlt-1/PlGF foi mensurada em cinco mulheres. Destas, quatro apresentaram valores alterados, sendo que três exibiram razão superior a 85. Todas as pacientes com razão acima de 85 evoluíram com desfechos desfavoráveis, incluindo complicações maternas graves, como síndrome nefrótica e insuficiência renal aguda, além de óbitos fetais. Em contraste, as pacientes com razão normal ou apenas discretamente elevada não apresentaram complicações maternas graves nem óbito fetal.
O intervalo médio entre o diagnóstico e a resolução da síndrome foi de 3,4 dias, com desvio padrão de 3,6 dias. A resolução ocorreu após parto em cinco casos, óbito fetal em três e cirurgia fetal em um.
A mortalidade perinatal foi elevada: apenas um caso resultou em pelo menos um feto vivo ao final do acompanhamento, um caso evoluiu com óbito fetal intrauterino e sete casos apresentaram óbito neonatal, principalmente relacionados à prematuridade extrema ou à condição fetal de base.
Em um caso específico de gestação gemelar monocoriônica complicada por sequência anemia–policitemia (TAPS), a normalização da razão sFlt-1/PlGF após o óbito intrauterino do feto hidrópico permitiu diferenciar síndrome do espelho de pré-eclâmpsia verdadeira, possibilitando a condução expectante da gestação até o termo, com bom desfecho para o outro gemelar.
Conclusão
A síndrome do espelho deve ser fortemente considerada em gestantes que apresentam quadro semelhante à pré-eclâmpsia na presença de hidropisia fetal ou polidrâmnio. Os achados desta série sugerem que a razão sFlt-1/PlGF pode auxiliar tanto na diferenciação diagnóstica em relação à pré-eclâmpsia quanto na estratificação de risco materno-fetal, uma vez que valores superiores a 85 estiveram associados a maior incidência de complicações graves e desfechos adversos.
Apesar das limitações inerentes ao desenho em série de casos, o estudo reforça que a incorporação de biomarcadores angiogênicos à avaliação clínica, ultrassonográfica e laboratorial pode contribuir para decisões mais seguras e individualizadas, especialmente em cenários de incerteza diagnóstica e alto risco.
Autoria

Ênio Luis Damaso
Doutor em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Universidade Nove de Julho de Bauru (UNINOVE).
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