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Ginecologia e Obstetrícia15 abril 2026

Riscos do uso de terapia hormonal em pessoas trans: evidências atuais

Terapia hormonal em pessoas trans: riscos, rastreamento de câncer e recomendações clínicas baseadas em revisão recente.
Por Sérgio Okano

Embora essencial para a aquisição de características, a terapia hormonal pode se associar a eventos e desfechos adversos, o que gera preocupação para usuários e familiares. Diante desse cenário, foi publicada na Pharmacotherapy: The Journal of Human Pharmacology and Drug Therapy uma revisão da literatura sobre o tema.

Metodologia

Foi conduzida uma revisão narrativa por meio de uma busca não sistemática em bancos de dados como o PubMed. Os autores incluíram estudos observacionais, revisões sistemáticas, diretrizes clínicas e consensos de especialistas.

As evidências disponíveis foram integradas a diretrizes existentes e à interpretação clínica dos autores, permitindo a elaboração de recomendações práticas, ainda que com limitações inerentes a esse tipo de revisão, como maior suscetibilidade a vieses e menor reprodutibilidade.

Principais resultados e recomendações

Avaliação pré-terapia hormonal

  • Antes de iniciar a THAG, recomenda-se realizar uma revisão completa da história familiar de câncer. Em mulheres trans, deve-se discutir riscos de desenvolvimento de câncer de mama em terapia hormonal.
  • Se indicado com base na história familiar, deve-se considerar a realização de testes genéticos para a mutação BRCA2 antes do início da THAG.
  • Considerar o rastreamento radiológico para câncer de mama antes da mastectomia em homens trans e o rastreamento histológico do tecido mamário após a mastectomia.
  • Realizar um inventário de órgãos em todos os indivíduos para identificar oportunidades de rastreamento de câncer.

Rastreamento e prevenção

  • Orientar a vacinação contra o HPV.
  • Em indivíduos trans com colo do útero, deve-se recomendar o rastreio de câncer de colo uterino caso o indivíduo ainda possua o órgão.
  • Em caso de câncer de ovário, o tecido tumoral deve ser testado para receptores androgênicos. Se positivo, a THAG deve ser mantida caso a caso e por decisão compartilhada com o paciente.

Monitorização e avaliação de risco

  • Mulheres trans devem ser orientadas a continuar o autoexame testicular e relatar quaisquer alterações à equipe de saúde.
  • A falha da supressão de testosterona com bloqueadores hormonais deve motivar investigação adicional para possível malignidade testicular.
  • Após orquiectomia, o tecido testicular deve ser avaliado quanto a sinais de malignidade.
  • Considerar o limite superior do PSA em 1 ng/ml em pessoas submetidas à orquiectomia bilateral em THAG.
  • Estabelecer um valor basal de PSA antes de iniciar a THAG ou realizar cirurgias de afirmação de gênero.
  • Pacientes com próstata e com mais de 50 anos devem realizar exame retal digital anual e dosagem de PSA.

Ajustes clínicos e laboratoriais

  • Em pacientes com mais de 6 meses de THAG, deve-se utilizar a identidade de gênero ao calcular o clearance de creatinina e o peso corporal ideal. Em pacientes que não utilizam THAG ou que a utilizam há menos de 6 meses, deve-se utilizar o sexo atribuído ao nascimento para esses cálculos.

Implicações clínicas

Por se tratar de uma revisão narrativa, não há registro do protocolo nem avaliação formal do risco de viés ou da metodologia da síntese, o que limita e pode enviesar a análise obtida.

A revisão reforça cuidados importantes, como oferecer rastreamento conforme os órgãos presentes, além da necessidade de estratificação de risco baseada em testes histológicos, imuno-histoquímicos e genéticos quando necessários.

Conclusão

Os estudos nessa população ainda são incipientes, mas os dados disponíveis reforçam que pessoas trans em terapia hormonal requerem atenção específica e abordagens individualizadas em suas indicações clínicas.

Autoria

Foto de Sérgio Okano

Sérgio Okano

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Referências bibliográficas

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