A atenção à mulher na menopausa tangencia inúmeras esferas de cuidado, sobretudo relacionadas aos impactos biológicos do hipoestrogenismo secundário à falência ovariana. Aproximadamente 30% da vida das mulheres será vivenciada na menopausa. A oscilação hormonal pode impactar a saúde mental das mulheres nessa fase, embora, até o momento, não existam recomendações padronizadas para o manejo da saúde mental.
Pensando nisso, a Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO) publicou, em fevereiro de 2026, um guia prático de recomendações para a saúde mental em mulheres na menopausa.

Metodologia
Trata-se de uma revisão narrativa, com construção de recomendações por consenso entre especialistas. A revisão baseou-se em 13 perguntas-chave, e a força da recomendação foi definida com base em uma escala Likert entre os especialistas. Mais de 70% deles concordaram com um nível forte de recomendação (pontuação 5) para oito das questões, enquanto cinco receberam níveis de recomendação alto e moderado.
Principais apontamentos e recomendações do documento
Sintomas mentais são comuns nessa fase; mulheres na perimenopausa tendem a apresentar maior risco do que aquelas na pré-menopausa. Sintomas ansiosos, labilidade emocional e depressão são mais frequentes em pacientes com sintomas vasomotores e história prévia de depressão.
Tendências suicidas requerem atenção imediata de profissionais de saúde mental.
A prevalência de transtornos mentais durante a menopausa em países de baixa e média renda varia devido à escassez de dados, influências culturais e heterogeneidade dos estudos. Dados nacionais são limitados nesses contextos.
Profissionais de saúde devem utilizar ferramentas de rastreamento validadas para identificar mulheres em risco. A utilização de questionários, como o PHQ-9, deve fazer parte da rotina.
Os clínicos devem utilizar a história clínica, os sintomas, dosagens hormonais e o julgamento clínico para diferenciar condições e evitar o uso excessivo de antidepressivos.
O tratamento deve incluir modificações no estilo de vida, terapia cognitivo-comportamental e terapia hormonal, quando indicada.
Uma abordagem holística, incluindo dieta, atividade física, práticas mente-corpo e suporte psicológico, pode auxiliar no manejo da saúde mental durante a menopausa.
O aconselhamento deve incluir cônjuges e familiares.
Os países devem implementar legislações que enfatizem dignidade, autonomia e acesso à saúde mental para mulheres, a fim de prevenir discriminação de gênero.
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Na prática clínica
De maneira objetiva, o documento endossa a necessidade de discutir e investigar sintomas depressivos, ansiosos e oscilações de humor em mulheres na perimenopausa, sobretudo no início dessa fase. A triagem pode ser sistematizada por meio de questionários estruturados, além do diagnóstico diferencial com exames laboratoriais e avaliação clínica.
O tratamento hormonal deve ser considerado em mulheres com indicação, uma vez que a melhora da oscilação hormonal é essencial para a estabilização dos quadros de saúde mental; contudo, deve-se considerar avaliação especializada quando necessário.
Por fim, recomenda-se uma abordagem holística no cuidado, com orientações comportamentais, sociais e psicológicas.
Autoria
Sérgio Okano
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