Um estudo recém publicado na BJOG, com título em inglês Universal Cytomegalovirus Screening in the First Trimester of Pregnancy: The Multicentre Observational Cohort Study in the Area of Barcelona (CITEMB Study), teve como objetivos determinar a soroprevalência de citomegalovírus (CMV) em gestantes, estimar a taxa de infecção primária no primeiro trimestre e avaliar a viabilidade do rastreamento universal nessa fase da gestação.
A infecção congênita por citomegalovírus é reconhecida como a principal causa não genética de perda auditiva neurossensorial e importante fator de comprometimento do neurodesenvolvimento infantil. Apesar de sua relevância clínica, o rastreamento sorológico para CMV não integra rotineiramente os programas de pré-natal em muitos países, sendo frequentemente realizado apenas de forma oportunística ou após achados ultrassonográficos sugestivos de infecção fetal. O rastreamento universal no primeiro trimestre tem sido proposto como estratégia para identificar precocemente gestantes suscetíveis e permitir intervenções preventivas e terapêuticas mais oportunas.

Metodologia
Trata-se de estudo observacional prospectivo multicêntrico, realizado entre outubro de 2022 e setembro de 2024 em quatro centros de atenção primária e dois hospitais terciários da região metropolitana de Barcelona. Gestantes no primeiro trimestre (<14 semanas) foram submetidas à sorologia para CMV (IgG e IgM) na primeira consulta pré-natal. Nos casos suspeitos de infecção primária, realizaram-se testes de avidez de IgG e seguimento especializado, incluindo tratamento com valaciclovir e monitorização fetal. Os desfechos avaliados incluíram taxa de aceitação do rastreamento, soroprevalência, incidência de infecção primária, infecção fetal e desfechos neonatais até um ano de vida.
Resultados
Foram avaliadas 3.357 gestantes. A adesão ao rastreamento foi elevada, com aceitação superior a 95%. A soroprevalência de IgG para CMV foi de 77,7%, enquanto 22,1% das gestantes apresentavam sorologia negativa, sendo consideradas suscetíveis à infecção primária. Entre todas as participantes, apenas cinco casos de infecção primária foram identificados, correspondendo a uma incidência de aproximadamente 0,15% no primeiro trimestre. Todas essas gestantes foram tratadas com valaciclovir e submetidas à avaliação fetal. Nenhum caso apresentou evidência de infecção fetal por amniocentese.
No período neonatal, um recém-nascido apresentou PCR positivo para CMV em amostra urinária ao nascimento, embora tenha permanecido assintomático durante o acompanhamento até um ano de vida, sem alterações auditivas ou neurológicas. Não foram observados casos de infecção congênita sintomática ou de sequelas associadas entre os recém-nascidos acompanhados. O estudo também demonstrou elevada adesão das gestantes às medidas preventivas após aconselhamento, especialmente entre aquelas suscetíveis à infecção.
Conclusão
Os autores concluem que o rastreamento universal no primeiro trimestre é factível e bem aceito em sistemas públicos de saúde, e que a identificação precoce de gestantes suscetíveis permite aconselhamento preventivo e acompanhamento direcionado, ainda que a taxa de infecção primária seja baixa. Estudos maiores são necessários para avaliar impacto em transmissão vertical e custo-efetividade.
Autoria

Ênio Luis Damaso
Doutor em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Universidade Nove de Julho de Bauru (UNINOVE).
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