Um artigo recente intitulado Early risk assessment and aspirin prophylaxis did not reduce preterm preeclampsia in Sweden: a population-based study, publicado no American Journal of Obstetrics & Gynecology, teve como objetivo avaliar se a implementação do rastreamento precoce de risco para pré-eclâmpsia associado à profilaxia com aspirina reduziria a incidência de pré-eclâmpsia pré-termo em uma população obstétrica não selecionada na Suécia.
A pré-eclâmpsia é uma das principais causas de morbimortalidade materna e perinatal no mundo. Estratégias de rastreamento no primeiro trimestre, baseadas em fatores maternos, pressão arterial, Doppler de artérias uterinas e biomarcadores, têm sido propostas para identificar gestantes de alto risco e permitir intervenção precoce com aspirina em baixa dose. Ensaios clínicos randomizados demonstraram redução significativa de pré-eclâmpsia pré-termo com essa abordagem, porém os resultados em cenários de vida real e em populações gerais ainda são limitados. Dessa forma, avaliar a efetividade dessas estratégias em programas populacionais tornou-se fundamental.

Metodologia
Trata-se de um estudo populacional retrospectivo realizado na Suécia, incluindo mais de 120 mil gestações acompanhadas em serviços obstétricos antes e após a implementação de um programa de rastreamento universal baseado no algoritmo da Fetal Medicine Foundation. Gestantes classificadas como de alto risco foram orientadas a iniciar aspirina em baixa dose até 36 semanas ou até o diagnóstico de pré-eclâmpsia. Os períodos pré-implementação e pós-implementação foram comparados quanto à incidência de pré-eclâmpsia pré-termo e outros desfechos maternos e neonatais.
O desfecho primário foi a ocorrência de pré-eclâmpsia pré-termo (<37 semanas). Também foram avaliadas adesão ao rastreamento, prevalência global de pré-eclâmpsia e desfechos obstétricos e neonatais associados.
Resultados
A adesão ao programa foi elevada, com o rastreamento realizado em mais de 85% das gestantes, demonstrando boa factibilidade e implementação em larga escala.
Não foi observada redução significativa na prevalência de pré-eclâmpsia pré-termo após a introdução do rastreamento associado à profilaxia com aspirina (odds ratio ajustado: 1,13; IC 95%: 0,9–1,5). Por outro lado, observou-se uma tendência ao aumento das taxas de pré-eclâmpsia a termo (odds ratio ajustado: 1,14; IC 95%: 1,00–1,30), embora sem impacto clínico relevante nos desfechos perinatais globais.
A incidência global de pré-eclâmpsia manteve-se estável ao longo do período estudado e não houve diferenças estatisticamente significativas entre os grupos quanto aos principais desfechos obstétricos e neonatais, incluindo parto prematuro, complicações maternas e morbidade neonatal (p não significativo para todos os desfechos avaliados).
Conclusão
A implementação populacional do rastreamento precoce para pré-eclâmpsia associado à profilaxia com aspirina não reduziu a incidência de pré-eclâmpsia pré-termo em uma população sueca de baixo risco. Os achados sugerem que a efetividade observada em ensaios clínicos pode não se reproduzir integralmente em cenários de prática real. Apesar disso, o rastreamento mostrou-se factível e útil para estratificação de risco e organização do cuidado pré-natal. Estudos adicionais são necessários para melhor definir o impacto dessa estratégia em diferentes populações.
Autoria

Ênio Luis Damaso
Doutor em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Universidade Nove de Julho de Bauru (UNINOVE).
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