Um estudo recente intitulado Effectiveness and safety of assisted vaginal birth and second-stage cesarean section: a systematic review and meta-analysis of real-world contemporary data, publicado no American Journal of Obstetrics & Gynecology, avaliou a efetividade e segurança do parto vaginal assistido (PVA) e da cesárea no segundo estágio do trabalho de parto (expulsivo). O objetivo foi comparar desfechos maternos e neonatais associados às diferentes modalidades de parto operatório durante o período expulsivo.
O segundo estágio do trabalho de parto, iniciado após dilatação completa, pode evoluir com complicações que aumentam a morbimortalidade materna e perinatal. Nesses casos, o profissional deve decidir entre aguardar evolução espontânea, realizar parto vaginal assistido ou indicar cesárea de segundo estágio, ponderando riscos e benefícios de cada intervenção.

Metodologia
Trata-se de uma revisão sistemática e metanálise que incluiu ensaios clínicos randomizados e estudos observacionais publicados entre 2001 e 2023. Foram pesquisadas as bases Cochrane, Embase e MEDLINE, contemplando estudos com mais de 30 participantes submetidas a parto operatório no segundo estágio do trabalho de parto.
No total, 241 estudos envolvendo 751.242 participantes foram incluídos. A seleção, extração de dados e avaliação de qualidade metodológica foram realizadas por revisores independentes. As análises utilizaram modelos de efeitos aleatórios para estimar prevalências de falha do parto vaginal assistido e eventos adversos maternos e neonatais.
Resultados
A taxa global de falha do parto vaginal assistido foi de 5,37%, variando conforme o instrumento: 7,6% com vácuo e 3,26% com fórceps. O uso de fórceps esteve associado a maior incidência de laceração esfincteriana anal de terceiro e quarto graus (7,99%), em comparação ao vácuo (4,73%).
Entre os desfechos neonatais, a cesárea no segundo estágio apresentou maior morbidade quando comparada ao parto vaginal assistido. A admissão em UTI neonatal ocorreu em 17,18% dos recém-nascidos submetidos à cesárea no período expulsivo, contra cerca de 6% após parto vaginal assistido. O Apgar baixo (<7 no 5º minuto) foi observado em 6,01% após cesárea no segundo estágio, versus aproximadamente 2% nos partos vaginais assistidos.
A mortalidade neonatal foi maior após cesárea no segundo estágio (1,95%) quando comparada ao parto vaginal assistido (0,31%). A ocorrência de fratura de crânio neonatal foi de 1,54% na cesárea no segundo estágio, comparada a 0,27% nos partos vaginais assistidos.
Quanto aos desfechos maternos, a hemorragia pós-parto apresentou incidência de 10,77% com uso de espátula, 9,19% após cesárea no segundo estágio e 5,46% com vácuo. Observou-se também maior taxa de infecção e maior tempo de internação nas pacientes submetidas à cesárea no período expulsivo.
Conclusão
Os dados contemporâneos demonstram ampla variabilidade nos desfechos associados ao parto operatório no segundo estágio. Embora o parto vaginal assistido apresente riscos específicos, pode oferecer vantagens importantes em relação à cesárea no período expulsivo, especialmente quanto aos desfechos neonatais. Esses achados reforçam a necessidade de treinamento adequado em parto vaginal operatório e de tomada de decisão individualizada.
Autoria

Ênio Luis Damaso
Doutor em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Universidade Nove de Julho de Bauru (UNINOVE).
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