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Ginecologia e Obstetrícia4 maio 2026

Obesidade materna e anestesia: como reduzir riscos obstétricos

Em pacientes com IMC elevado, a eficácia da analgesia pode ser reduzida, um desafio direto para a anestesia obstétrica.

A crescente prevalência global da obesidade transformou o manejo anestésico na obstetrícia em um desafio cotidiano. Aproximadamente 40% da população adulta nos Estados Unidos apresenta Índice de Massa Corporal (IMC) superior a 30 kg/m², e as taxas de obesidade pré-gestacional subiram de 26,1% para 29,0% em apenas três anos. Essa condição não é apenas uma questão de peso, mas um estado que impacta diretamente a fisiologia cardiovascular e a permeabilidade das vias aéreas maternas. 

As pacientes obstétricas com obesidade enfrentam riscos elevados de diabetes gestacional, pré-eclâmpsia e complicações cirúrgicas. Além disso, a reserva cardiovascular reduzida e as alterações na anatomia da via aérea exigem que o anestesista antecipe dificuldades técnicas que podem comprometer a segurança do binômio mãe-bebê. Portanto, o planejamento multidisciplinar precoce é essencial para resultados favoráveis. 

Nesse sentido, a revisão sistemática de Pasca e colaboradores, realizada nos Estados Unidos e publicada em 2026 no Journal of Gynecology Obstetrics and Human Reproduction, teve como objetivo descrever as avaliações perioperatórias, os riscos, as complicações e a eficácia das modalidades anestésicas na população obstétrica com IMC elevado na última década.  

A Metodologia do Estudo 

O estudo seguiu as diretrizes PRISMA, com busca sistemática realizada em novembro de 2024 nas bases Medline, Embase e CENTRAL. Foram incluídos artigos em inglês, publicados entre 2014 e 2024, que abordassem técnicas de anestesia obstétrica, avaliações perioperatórias ou identificação de riscos em pacientes com IMC ≥ 30 kg/m². 

A análise resultou na inclusão de 50 manuscritos, sendo 31 estudos observacionais e 19 ensaios clínicos. A qualidade dos estudos foi avaliada pelo checklist de Downs e Black, com o objetivo de fundamentar recomendações clínicas com níveis de evidência e classes de recomendação. 

Resultados 

Desfechos materno-fetais 

A obesidade pré-gestacional demonstrou ser um forte preditor do tipo de parto. Mulheres com obesidade apresentaram maiores chances de cesarianas não indicadas obstetricamente, com OR de 2,00, e de cesarianas indicadas, com OR de 1,95, em comparação ao parto vaginal. 

Quando submetidas ao bloqueio peridural, pacientes com IMC ≥ 40 kg/m² relataram dor severa com maior frequência, com OR de 2,8. Esse achado evidencia que a eficácia da analgesia pode ser reduzida nessa população. 

Em relação às complicações pós-procedimento, o IMC elevado foi associado a um risco 1,80 vez maior de eventos de dessaturação leve após cesariana. No campo fetal, a obesidade materna foi associada à acidose neonatal, com OR de 2,7 para pH de cordão umbilical inferior a 7,1 em cesarianas agendadas sob anestesia neuroaxial. 

Desafios técnicos na anestesia obstétrica 

A técnica de anestesia combinada raqui-peridural mostrou-se superior à raquianestesia de punção única em pacientes com IMC > 35 kg/m², por exigir menos tentativas e oferecer maior confiabilidade. 

Outro ponto relevante é a monitorização. O uso de manguitos de pressão arterial adequados ou cônicos é essencial, já que 33% das falhas de monitorização decorrem de equipamentos mal ajustados à paciente. 

Na prática, o uso do ultrassom para identificar a membrana cricotireóidea e o espaço peridural mostrou-se mais preciso do que a palpação em pacientes com obesidade, embora demande tempo ligeiramente maior. 

Além disso, a administração de magnésio para pré-eclâmpsia pode exigir protocolos de infusão mais elevados, como 2 g/h após dose de ataque de 4 g ou 6 g, para atingir níveis terapêuticos eficazes nessas pacientes. 

Mensagem prática 

O manejo da paciente obstétrica com obesidade exige uma mudança de paradigma. O uso do ultrassom não deve ser visto como luxo, mas como ferramenta de segurança para acessos difíceis. Além disso, o ajuste de doses de uterotônicos e antibióticos deve considerar a farmacocinética alterada. 

Na prática anestésica e obstétrica, a segurança dessa população depende da capacidade da equipe de antecipar dificuldades, individualizar o cuidado e planejar precocemente a assistência multidisciplinar. 

Autoria

Foto de Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais

Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais

Graduação em Medicina pela Faculdade Souza Marques (2006), Residência Médica em Medicina de Família e Comunidade pela UFF (2008), Especialização em Ginecologia e Obstetrícia Pela SOGIMA/RJ (2012), Mestrado em Saúde Materno Infantil pela UFF (2016). Atualmente é Professora de Obstetrícia do Departamento Materno-Infantil da UFF e Doutoranda em Ciências Médicas também na UFF.

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Referências bibliográficas

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