A investigação das lesões ovarianas é padronizada por algumas sociedades, entre elas o grupo International Ovarian Tumor Analysis (IOTA), cujos critérios são amplamente utilizados no mundo. Esses critérios são construídos com base em estudos multicêntricos internacionais e auxiliam na classificação das massas anexiais como benignas ou malignas, assim como na estimativa do risco de malignidade.
O comitê do IOTA recomenda o uso dos descritores benignos, do modelo ADNEX e da estratégia em duas etapas para caracterizar massas ovarianas por ultrassonografia. Esses métodos permitem a classificação dos achados do exame no sistema O-RADS.
Dessa forma, a atualização da terminologia é essencial para melhorar a acurácia diagnóstica dos modelos. Com base nessa demanda, foi publicada na Ultrasound in Obstetrics & Gynecology uma atualização sobre os critérios do IOTA.
Metodologia
O documento foi conduzido após uma revisão crítica dos termos previamente definidos, com o objetivo de identificar questões ambíguas ou divergentes. A partir dessa análise, foi proposta uma padronização dos critérios morfológicos e de mensuração das massas anexiais.
Resultados
Principais mudanças nas características ultrassonográficas do ADNEX
- Componentes sólidos só devem ser considerados quando forem superiores a 3 mm em pelo menos um diâmetro.
- Projeções papilares devem ter pelo menos 3 mm de altura. Caso sejam menores que 3 mm, mas existam outras projeções com mais de 3 mm, o achado deve ser considerado componente sólido.
- Se um cisto com um único lóculo contém um componente sólido, e esse componente sólido contém microcistos, a massa deve ser classificada como unilocular-sólida, e não como multilocular-sólida. A Figura 8 do artigo original mostra uma projeção papilar com microcistos.
- Um tumor sólido pode apresentar projeções papilares que se projetam para uma área cística dentro do tumor. Essas projeções devem ser descritas e contadas. Isso é importante ao utilizar modelos do IOTA que incluem a variável “número de projeções papilares”, como o modelo ADNEX, que considera 0, 1, 2, 3 ou ≥ 4 projeções.
- Se a parede externa do cisto for irregular devido à presença de tecido sólido crescendo externamente ao cisto, isso deve ser descrito como parede externa irregular.
- A presença de ângulos agudos, lobulações ou margens espiculadas no contorno externo de um tumor sólido o classifica como irregular. Além disso, se um tumor sólido contiver qualquer cisto com irregularidade na parede interna, como projeções papilares, ou se o contorno de um cisto dentro do tumor for irregular, o tumor sólido também deve ser descrito como irregular, mesmo que seu contorno externo seja liso.
- Se diferentes lóculos de um cisto multilocular apresentarem diferentes ecogenicidades do líquido, por exemplo, um lóculo com líquido anecoico e outros com baixa ecogenicidade, o cisto deve ser descrito como tendo conteúdo variável.
- Sombra acústica de borda (edge shadowing) é um artefato que pode ocorrer em massas com contorno arredondado e não deve ser considerada sombra acústica verdadeira. Atenuação com redução gradual do sinal, sem área definida, também não deve ser classificada como sombra acústica. Já a sombra interna reflete perda real de energia acústica dentro da lesão e deve ser considerada.
- Para diferenciar uma projeção papilar única com múltiplos picos de múltiplas projeções separadas:
- mede-se a altura de cada pico e do vale entre eles a partir da mesma linha de base;
- se a altura do vale for ≥ 50% da altura do menor dos dois picos, conta-se como uma única projeção papilar;
- se for < 50%, conta-se como duas projeções separadas.
Esse processo deve ser repetido para cada par de picos adjacentes.
- Se a massa for classificada como tumor sólido, ou seja, com ≥ 80% de tecido sólido, o número de lóculos não deve ser contado. No modelo ADNEX, a resposta para “mais de 10 lóculos?” será sempre “não” nesses casos.
- Ao atribuir o escore de cor, deve-se considerar o maior grau de vascularização observado, seguindo a “regra do pior cenário”.
- Sobre referência e tipo de centro:
- centro oncológico é definido como centro terciário com unidade especializada em oncologia ginecológica;
- exames realizados fora dessa unidade, mesmo dentro do mesmo hospital, são considerados de centro não oncológico se a paciente não foi encaminhada para cuidado oncológico.
Mensagem prática
A padronização proposta pelo IOTA é essencial para reduzir a subjetividade de termos usados no laudo, como “irregular”, “papilar” ou “conteúdo complexo”. A diferenciação mais precisa dessas classificações favorece menor erro diagnóstico por meio do modelo ADNEX.
Na prática clínica, a classificação IOTA é importante para a tomada de decisão, especialmente para definir quando intervir cirurgicamente e quando encaminhar a paciente para avaliação especializada em oncologia ginecológica.
Autoria
Sérgio Okano
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