Um recente estudo foi publicado na revista American Journal of Obstetrics and Gynecology, com o título “Prevention of Recurrent Spontaneous Preterm Delivery Using Probiotics: Results from a Prospective, Single-Arm, Multicenter Trial”, com o objetivo de investigar se a administração oral de probióticos contendo Clostridium butyricum poderia reduzir a taxa de recorrência de parto prematuro espontâneo em gestantes com histórico prévio dessa complicação.

Introdução
O parto prematuro espontâneo permanece como um dos principais desafios da obstetrícia contemporânea, sendo responsável por elevada taxa de morbimortalidade neonatal. Mulheres com antecedente de prematuridade espontânea apresentam risco substancialmente aumentado de recorrência em gestações subsequentes, com taxas globais estimadas em torno de 30%, e aproximadamente 22,3% no Japão, segundo banco de dados nacional utilizado como referência neste estudo.
Evidências recentes apontam que a interação entre microbiota intestinal materna e sistema imune pode desempenhar papel relevante na manutenção da tolerância imunológica gestacional. Espécies do gênero Clostridium, particularmente aquelas produtoras de butirato, são capazes de induzir células T reguladoras, fundamentais para a homeostase imunológica na interface materno-fetal. A menor abundância dessas bactérias em mulheres que evoluem com parto prematuro espontâneo fundamentou a hipótese testada no presente ensaio clínico.
Metodologia
Trata-se de um ensaio clínico prospectivo, multicêntrico, não randomizado e de braço único, conduzido em 31 hospitais japoneses entre maio de 2021 e outubro de 2024. Foram elegíveis gestantes entre 18 e 43 anos com história documentada de parto prematuro espontâneo anterior, com idade gestacional inferior a 15 semanas no momento da inclusão.
Após confirmação dos critérios de elegibilidade e assinatura do consentimento informado, as participantes iniciaram a administração oral de probióticos entre 10 e 14 semanas de gestação. A formulação continha Clostridium butyricum (10 mg por comprimido), Enterococcus faecium (2 mg) e Bacillus subtilis (10 mg), administrados três vezes ao dia até 36 semanas e 6 dias ou até a ocorrência de parto prematuro.
O desfecho primário foi a taxa de recorrência de parto prematuro espontâneo antes de 37 semanas, comparada à taxa histórica nacional japonesa de 22,3%.
Principais achados
Entre 345 gestantes inicialmente incluídas, 315 compuseram a população final de análise primária. A taxa de recorrência de parto prematuro espontâneo antes de 37 semanas foi de 14,9% (47 casos), valor significativamente inferior à taxa histórica de 22,3%, com p=0,0013. O risco relativo foi de 0,67, com intervalo de confiança de 95% entre 0,50 e 0,87, sugerindo redução de aproximadamente 33% no risco de recorrência.
Quando analisados desfechos mais precoces, considerados clinicamente mais graves, a taxa de parto prematuro antes de 34 semanas foi de 3,5%, enquanto a recorrência antes de 28 semanas entre mulheres com histórico de prematuridade extrema foi de 1,5%. Esses números são particularmente relevantes, pois partos em idades gestacionais mais precoces estão associados a maior risco de complicações neurológicas, respiratórias e infecciosas neonatais.
Não foram registrados natimortos após 22 semanas de gestação. Também não houve relato de eventos adversos graves relacionados ao uso dos probióticos. A taxa de adesão foi elevada, com 97,5% das participantes ingerindo ao menos 80% das doses prescritas, reforçando a viabilidade prática da intervenção.
Do ponto de vista microbiológico, observou-se que, nas mulheres que evoluíram para parto a termo, a proporção intestinal de Clostridium spp. aumentou aproximadamente cinco vezes entre o início do estudo e 22 semanas de gestação. Em contraste, esse aumento não foi observado nas mulheres que apresentaram recorrência de parto prematuro, sugerindo possível relação entre resposta microbiológica e eficácia clínica.
Conclusão
Os resultados deste ensaio clínico multicêntrico sugerem que a administração precoce de probióticos contendo Clostridium butyricum pode reduzir de forma significativa a recorrência de parto prematuro espontâneo em gestantes de alto risco. A intervenção mostrou perfil de segurança favorável, elevada adesão e potencial aplicabilidade em larga escala.
Autoria

Ênio Luis Damaso
Doutor em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Universidade Nove de Julho de Bauru (UNINOVE).
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