A incontinência urinária de esforço (IUE) é uma das complicações mais prevalentes no período pós-parto, afetando a qualidade de vida e o bem-estar emocional de milhares de mulheres. A gestação e o parto exercem pressões mecânicas e hormonais que enfraquecem o assoalho pélvico, tornando a prevenção um pilar essencial, porém ainda carente de protocolos padronizados.
Na prática clínica, observa-se que apenas orientar a contração muscular muitas vezes é insuficiente, devido à baixa adesão e à execução incorreta. A busca por métodos que integrem a musculatura pélvica ao contexto postural global surge como uma evolução necessária para garantir resultados sustentáveis e funcionais.
Nesse sentido, o estudo realizado na China e publicado em 2026 na revista JAMA Network Open teve por objetivo avaliar a eficácia do programa PEFLOW (Pelvic Floor Workout) na prevenção da IUE em mulheres primíparas, utilizando uma abordagem baseada em aplicativo para aumentar a fidelidade ao treinamento.
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Metodologia
Este ensaio clínico randomizado multicêntrico envolveu 764 mulheres primíparas, com idades entre 20 e 40 anos. O recrutamento ocorreu em nove hospitais de cuidados materno-infantis, incluindo gestantes com feto único e idade gestacional inferior a 16 semanas.
Foram excluídas participantes que apresentassem complicações graves que a intervenção pudesse exacerbar, histórico de IUE ou prolapso de órgãos pélvicos e/ou histórico de insuficiência cervical, aborto espontâneo recorrente ou parto induzido.
As voluntárias foram divididas entre grupo de exercícios (n=382) e grupo controle (n=382). O grupo intervenção praticou o método PEFLOW de maneira remota, com auxílio de aplicativo para celular que fornecia vídeos e lembretes, da 28ª semana de gestação até o parto.
O treinamento consistia em exercícios diários de fortalecimento pélvico e duas sessões semanais de exercícios posturais globais de 30 minutos. O desfecho principal foi a incidência de IUE na 6ª semana pós-parto.
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Resultados do estudo
A análise por intenção de tratar revelou que a incidência de IUE na 6ª semana pós-parto foi significativamente menor no grupo que realizou o PEFLOW em comparação ao grupo controle: 8,7% versus 13,9%, com diferença de risco de 5,17 pontos percentuais (p=0,03).
Além disso, a força muscular pélvica, medida pela Escala de Oxford Modificada (MOS), mostrou-se superior no grupo intervenção: 17,8% das mulheres apresentaram contrações fortes (MOS ≥4), contra 7,9% no controle (p<0,001).
A adesão ao programa foi um fator determinante: participantes que mantiveram intensidade de treino superior a 80% tiveram taxas de incontinência ainda menores a longo prazo.
Inovação e obstáculos
A grande inovação do PEFLOW reside na combinação do fortalecimento local com a reeducação postural global, tratando o assoalho pélvico como parte de uma cadeia muscular estabilizadora.
O uso da tecnologia facilitou o acompanhamento, demonstrando que o suporte remoto é viável e seguro, sem eventos adversos materno-fetais relatados.
Entretanto, o estudo apresenta limitações, como a impossibilidade de cegamento total das participantes do grupo controle e a interrupção do protocolo imediatamente após o parto. Observou-se um “efeito rebote” na incidência de IUE após 12 meses, sugerindo que a manutenção dos exercícios no puerpério é crucial para a proteção duradoura.
Mensagem prática e visão clínica
O método PEFLOW demonstra que a prevenção da incontinência urinária não deve se limitar a exercícios isolados, mas integrar o fortalecimento pélvico à estabilidade postural.
Para o profissional de saúde, a utilização de ferramentas digitais e aplicativos de suporte é uma estratégia poderosa para garantir que a paciente execute o treino com a frequência e a intensidade necessárias.
A inclusão dessa rotina a partir do terceiro trimestre reduz a morbidade urinária imediata e melhora a percepção de força da paciente, sendo uma recomendação de baixo custo e alto impacto para o pré-natal moderno.
Autoria
Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais
Graduação em Medicina pela Faculdade Souza Marques (2006), Residência Médica em Medicina de Família e Comunidade pela UFF (2008), Especialização em Ginecologia e Obstetrícia Pela SOGIMA/RJ (2012), Mestrado em Saúde Materno Infantil pela UFF (2016). Atualmente é Professora de Obstetrícia do Departamento Materno-Infantil da UFF e Doutoranda em Ciências Médicas também na UFF.
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