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Ginecologia e Obstetrícia18 março 2026

Estudo analisa se início precoce da TH na IOP reduz risco de doenças crônicas

Estudo mostra que início precoce da terapia hormonal em insuficiência ovariana primária reduz risco de doenças cardiometabólicas.

Um artigo foi recentemente publicado na revista BJOG: An International Journal of Obstetrics & Gynaecology com o título em inglês “Hormone Therapy Timing and Chronic Disease Incidence in Primary Ovarian Insufficiency: A National Cohort Study”. O objetivo central do estudo foi estimar o uso de terapia hormonal (TH) em mulheres com insuficiência ovariana primária (IOP) e avaliar se o momento de início do tratamento está associado a diferentes desfechos de saúde a longo prazo, especialmente doenças cardiometabólicas e ósseas

A insuficiência ovariana primária é caracterizada pela perda da função ovariana antes dos 40 anos, com hipoestrogenismo persistente e repercussões que ultrapassam o âmbito reprodutivo. Além de sintomas vasomotores e alterações menstruais, a IOP está associada a maior risco de doenças cardiovasculares, distúrbios metabólicos, osteoporose e impacto significativo na qualidade de vida. Embora diretrizes internacionais recomendem a terapia hormonal até a idade média da menopausa natural, ainda há incertezas quanto ao impacto do tempo de início do tratamento nos desfechos de longo prazo, conceito conhecido como “hipótese da janela de oportunidade”.

Metodologia

Trata-se de um estudo de coorte retrospectivo, de base populacional, utilizando dados do National Health Insurance Service da Coreia do Sul. Foram incluídas 21.166 mulheres com diagnóstico de IOP (código CID-10 E28.3) e 84.664 mulheres controles, pareadas por escore de propensão na proporção 1:4. Foram excluídas mulheres com uso prévio de terapia hormonal ou com doenças crônicas prévias ao período de observação. O desfecho principal foi a incidência de doenças crônicas maiores, incluindo doença tireoidiana, diabetes mellitus tipo 2 (DM2), dislipidemia, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares e osteoporose, e avaliadas por meio de razões de incidência (IRR) com intervalos de confiança de 95%, ajustadas por variáveis clínicas e sociodemográficas. Para analisar o impacto do tempo de início da terapia, foi aplicada uma análise landmark de 365 dias, comparando início “no tempo adequado” (<1 ano após diagnóstico) versus início tardio (≥1 ano).

Resultados

Na análise primária, mulheres com IOP apresentaram risco significativamente maior de múltiplas doenças crônicas quando comparadas aos controles. O risco de doença tireoidiana foi 63% maior (IRR 1,63; IC95% 1,59–1,67), o de DM2 38% maior (IRR 1,38; IC95% 1,33–1,43), o de dislipidemia 48% maior (IRR 1,48; IC95% 1,45–1,51) e o de doença cardiovascular 61% maior (IRR 1,61; IC95% 1,51–1,72). A osteoporose também apresentou risco substancialmente elevado (IRR 2,13; IC95% 2,08–2,19)

Quando analisado apenas o grupo com IOP, o uso de terapia hormonal associou-se a menor risco de alguns desfechos cardiometabólicos. Usuárias de TH apresentaram redução de 18% no risco de DM2 (IRR 0,82; IC95% 0,76–0,88), redução de 13% no risco de dislipidemia (IRR 0,87; IC95% 0,84–0,91) e redução de 8% no risco de hipertensão (IRR 0,92; IC95% 0,86–0,98). Na análise de tempo de início, mulheres que iniciaram a TH dentro do primeiro ano após o diagnóstico apresentaram riscos ainda menores: doença tireoidiana (IRR 0,69; IC95% 0,62–0,76), DM2 (IRR 0,77; IC95% 0,64–0,93) e dislipidemia (IRR 0,71; IC95% 0,65–0,78), em comparação com aquelas que iniciaram tardiamente

Conclusão

Em conclusão, este grande estudo reforça que a insuficiência ovariana primária deve ser compreendida como uma condição de risco cardiometabólico a longo prazo. Além disso, sugere que o início precoce da terapia hormonal, idealmente dentro do primeiro ano após o diagnóstico, está associado a melhores desfechos metabólicos e possivelmente cardiovasculares, apoiando a relevância clínica da “janela de oportunidade” no manejo dessas pacientes. Os achados reforçam a importância do diagnóstico oportuno, da orientação adequada e do seguimento longitudinal estruturado das mulheres com IOP.

Autoria

Foto de Ênio Luis Damaso

Ênio Luis Damaso

Doutor em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Universidade Nove de Julho de Bauru (UNINOVE).

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