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Ginecologia e Obstetrícia31 março 2026

Estudo alerta sobre ganho de peso gestacional e o risco de diabetes gestacional

Ganho de peso gestacional excessivo, segundo novas curvas brasileiras, aumenta risco de diabetes gestacional e reforça importância do pré-natal.

Um estudo recentemente publicado na Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (RBGO), com o título em inglês “Pre-pregnancy body mass index classification and weight gain according to new Brazilian protocols and their association with gestational diabetes mellitus”, teve como objetivo investigar a associação entre o ganho de peso gestacional, segundo a nova curva adotada pelo Ministério da Saúde do Brasil, e o risco de desenvolvimento de diabetes mellitus gestacional (DMG)  

Health. Medicine. Gestational diabetes mellitus. Disease. A pregnant woman does a blood test from a finger for glucose. White background. Space for text. High quality photo

Introdução 

O ganho de peso gestacional (GPG) é um dos pilares do acompanhamento pré-natal, pois reflete o estado nutricional materno e influencia diretamente desfechos maternos e perinatais. A obesidade e o sobrepeso antes da gestação, assim como o ganho de peso excessivo durante a gravidez, estão associados a maior risco de complicações, incluindo hipertensão gestacional, macrossomia fetal e DMG. 

Até recentemente, o Brasil utilizava referências internacionais para classificar o ganho de peso na gestação. A partir de 2022, o Ministério da Saúde passou a recomendar curvas específicas para a população brasileira, desenvolvidas a partir do Consórcio Brasileiro de Nutrição Materno-Infantil. Nesse contexto, tornou-se fundamental avaliar se essa nova classificação se correlaciona com desfechos clínicos relevantes, como o diabetes gestacional. 

Metodologia 

Trata-se de um estudo transversal realizado com 104 gestantes acompanhadas em serviços públicos de saúde em São Luís (MA), entre dezembro de 2023 e junho de 2024. Foram incluídas 52 mulheres com diagnóstico de DMG e 52 sem o diagnóstico, pareadas por idade, cor da pele autorreferida, hipertensão prévia e história familiar de diabetes tipo 2. 

O diagnóstico de DMG seguiu os critérios da Organização Mundial da Saúde, com glicemia de jejum entre 92 e 125 mg/dL, glicemia de 1 hora ≥ 180 mg/dL ou glicemia de 2 horas entre 153 e 199 mg/dL no TOTG com 75 g. 

O índice de massa corporal (IMC) pré-gestacional foi calculado com base no peso autorreferido antes da gravidez e classificado conforme critérios tradicionais. O ganho de peso gestacional foi obtido pela diferença entre o peso atual e o peso pré-gestacional, sendo posteriormente padronizado segundo as novas curvas brasileiras. 

Foram realizados modelos de regressão logística para avaliar a associação entre IMC, ganho de peso e risco de DMG, com ajustes para idade, cor da pele, renda, escolaridade e história familiar de diabetes. Valores de p < 0,05 foram considerados estatisticamente significativos. 

Resultados 

As gestantes com DMG relataram menor prática de atividade física antes da gestação (26,9% versus 46,2%; p = 0,042) e durante a gravidez (17,3% versus 40,4%; p = 0,009). 

Em relação ao estado nutricional pré-gestacional, o sobrepeso foi mais frequente no grupo com DMG (53,9% versus 30,8%), enquanto a obesidade foi mais prevalente entre as mulheres sem DMG (40,4% versus 26,9%), embora essa diferença não tenha atingido significância estatística (p = 0,059). 

O ganho de peso gestacional mediano foi significativamente menor no grupo com DMG (4,5 kg) em comparação ao grupo sem DMG (8,0 kg; p < 0,001). No entanto, ao analisar a adequação segundo as curvas brasileiras, 84,6% das mulheres com DMG apresentaram ganho acima do recomendado, contra 40,4% no grupo controle. 

Na análise de regressão logística ajustada, cada quilograma adicional de ganho de peso durante a gestação aumentou em 28% a chance de desenvolver DMG (aOR 1,28; IC95% 1,12–1,47; p < 0,001). O IMC pré-gestacional, por sua vez, não apresentou associação estatisticamente significativa após ajuste. 

Conclusão 

O estudo demonstra que o ganho de peso gestacional excessivo, quando avaliado pelas novas curvas brasileiras, está significativamente associado ao risco de diabetes gestacional. Embora o IMC pré-gestacional seja tradicionalmente reconhecido como fator de risco, neste trabalho o ganho ponderal ao longo da gravidez mostrou-se um marcador mais fortemente associado ao desfecho. 

Os resultados reforçam a importância do monitoramento sistemático do ganho de peso no pré-natal, utilizando as ferramentas atualizadas do Ministério da Saúde, e destacam o papel da orientação nutricional e do estímulo à atividade física como estratégias potencialmente modificáveis para reduzir o risco de DMG. 

Autoria

Foto de Ênio Luis Damaso

Ênio Luis Damaso

Doutor em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Universidade Nove de Julho de Bauru (UNINOVE).

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