Um artigo recém publicado na revista International Journal of Gynecology & Obstetrics, com o título em inglês Obstetrical outcomes in pregnant patients following a gluten-free diet: A prospective cohort study, teve como objetivo avaliar a associação entre dieta livre de glúten durante a gestação e desfechos obstétricos e neonatais, incluindo análise específica em gestantes sem doença celíaca.
A adoção de dieta livre de glúten tem aumentado globalmente, inclusive entre gestantes sem doença celíaca, muitas vezes por percepção de benefícios à saúde. Entretanto, há preocupação quanto à adequação nutricional desse padrão alimentar durante a gestação, uma vez que dietas sem glúten podem apresentar menor teor de ferro, folato, cálcio e vitaminas do complexo B, nutrientes essenciais para o desenvolvimento fetal e para a saúde materna. Apesar dessas preocupações, há escassez de estudos que avaliem os efeitos dessa dieta sobre os desfechos obstétricos, especialmente em mulheres sem indicação clínica formal para restrição de glúten.

Metodologia
Trata-se de estudo de coorte prospectivo baseado em dados da coorte P3 (Prediction, Prevention and Interventions for Preterm Birth), conduzido no Canadá. Foram incluídas gestantes com gravidez única que responderam questionários durante a gestação e no período pós-parto. A exposição principal foi a adesão autorreferida à dieta sem glúten durante a gestação. Os desfechos analisados incluíram peso ao nascer, idade gestacional ao parto, recém-nascido pequeno para idade gestacional (PIG), admissão em UTI neonatal e via de parto. Modelos de regressão ajustados por idade materna, raça, paridade e renda foram utilizados para comparação entre gestantes com e sem dieta livre de glúten, incluindo análise de sensibilidade excluindo pacientes com doença celíaca.
Resultados
Foram analisadas 2359 gestantes, das quais 108 (4,6%) relataram seguir dieta sem glúten durante a gestação; entre estas, 68 (63%) não possuíam diagnóstico de doença celíaca. As gestantes em dieta sem glúten eram, em média, mais velhas e mais frequentemente de raça branca, além de apresentarem maior uso de suplementação de vitamina B (18,5% vs. 7,9%). Não houve diferenças significativas entre os grupos quanto aos principais desfechos obstétricos e neonatais. A proporção de recém-nascidos pequenos para idade gestacional foi semelhante (11,3% no grupo sem glúten vs. 10,5% no grupo controle), assim como o peso médio ao nascer (3321 g vs. 3293 g) e a idade gestacional média ao parto (39 semanas em ambos os grupos). As taxas de admissão em UTI neonatal (9,3% vs. 11,0%) e de cesariana (27,8% vs. 31,5%) também não diferiram significativamente. Análises multivariadas ajustadas confirmaram ausência de associação entre dieta sem glúten e desfechos adversos, inclusive quando excluídas as pacientes com doença celíaca.
Conclusão
A adoção de dieta livre de glúten durante a gestação, inclusive entre mulheres sem doença celíaca, não se associou a piores desfechos obstétricos ou neonatais no curto prazo. Esses achados oferecem evidências iniciais de segurança dessa prática durante a gravidez; contudo, ressaltam a necessidade de estudos adicionais, com maior diversidade populacional e avaliação nutricional detalhada, para confirmar a segurança a longo prazo e orientar recomendações clínicas.
Autoria

Ênio Luis Damaso
Doutor em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Universidade Nove de Julho de Bauru (UNINOVE).
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.