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Ginecologia e Obstetrícia6 maio 2026

Candidíase intra-abdominal: o impacto da terapia antifúngica precoce nos desfechos

Estudo avaliou os desfechos do tratamento de candidíase intra-abdominal de acordo com a terapia antifúngica inicial
Por Camila Rangel

A candidíase intra-abdominal (CIA) é uma infecção grave e complexa, diagnosticada por meio do isolamento de Candida spp no líquido peritoneal, com morbimortalidade elevada, cujos desafios diagnósticos e terapêuticos permanecem significativos. Embora as diretrizes recomendem equinocandinas como a terapia empírica de primeira linha em quadros graves, a eficácia do tratamento inicial (azólicos versus equinocandinas) em desfechos como mortalidade e persistência de culturas positivas ainda carece de evidências robustas de estudos comparativos, tendo em vista a limitação da penetração das equinocandinas na cavidade abdominal. Este estudo teve como objetivo avaliar esses desfechos e identificar preditores de mortalidade e persistência fúngica.

Metodologia

Trata-se de um estudo de coorte retrospectivo, unicêntrico, realizado entre janeiro de 2020 e fevereiro de 2025, envolvendo 154 pacientes adultos com CIA. Os pacientes foram estratificados de acordo com a terapia antifúngica inicial utilizada (azólicos ou equinocandinas) nos primeiros 5 dias. Foram excluídos os pacientes tratados com anfotericina B lipossomal. Para minimizar o viés de indicação da terapia inicial e realizar uma análise de mortalidade ajustada, os pesquisadores utilizaram regressão logística multivariada e Inverse Probability of Treatment Weighting (IPTW).

As variáveis incluíram sexo idade, local do diagnóstico da CIA (enfermaria ou CTI), presença de sepse ou choque séptico e o tipo de infecção. Os fatores de risco para CIA foram baseados na literatura.

Resultados

Dos 154 pacientes, 102 receberam azólicos e 52 equinocandinas, sendo este último grupo composto por pacientes com maior gravidade clínica (mais admissões em UTI, choque séptico e candidemia concomitante). O isolado mais comum do grupo azólico foi a Candida albicans. A persistência de culturas fúngicas ocorreu em 51,7% dos casos, sem diferença entre os grupos, e foi associada a peritonite, candidemia concomitante e choque séptico. Embora a mortalidade em 30 dias tenha sido numericamente maior no grupo tratado com equinocandinas (38,5% versus 22,8%), após o ajuste estatístico por fatores de confusão, a terapia antifúngica inicial não demonstrou impacto independente na mortalidade. Os preditores independentes de mortalidade em 30 dias foram choque séptico (OR: 2,2) e idade ≥ 60 anos (OR: 2,6).

O estudo apresenta limitações importantes, como o delineamento não randomizado e a realização em um único centro, fatores que restringem a generalização dos resultados e dificultam a interpretação à luz das particularidades epidemiológicas e assistenciais de outros serviços.

Candidíase intra-abdominal: o impacto da terapia antifúngica precoce nos desfechos

Mensagem prática: tratamento candidíase intra-abdominal

Este estudo reforça que, para o tratamento da candidíase intra-abdominal (CIA), o desfecho de mortalidade é impulsionado principalmente pela gravidade da doença do paciente (presença de choque séptico e idade avançada) e não pela escolha inicial entre azólicos ou equinocandinas. A alta taxa de persistência fúngica (51,7%) destaca a necessidade de um controle de foco cirúrgico rigoroso e contínuo. O uso de antifúngicos deve ser guiado pelo quadro clínico, sendo o escalonamento para azólicos uma opção terapêutica após a identificação da espécie e o teste de sensibilidade, dada a melhor penetração tecidual, sempre que o perfil de resistência permitir.

Autoria

Foto de Camila Rangel

Camila Rangel

Médica graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 2018. Infectologista pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais de 2019 a 2022. Mestra pela Faculdade de Medicina da UFMG em 2025. Infectologista do Controle de Infecção Hospitalar do HC-UFMG e Auditora Médica da Unimed Federação Minas.

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Referências bibliográficas

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