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Gastroenterologia1 agosto 2026

Retocolite ulcerativa aguda grave: um adeus aos critérios de Truelove-Witts?

Gastroenterologistas participaram de um painel Delphi e de uma reunião de consenso para diagnóstico da retocolite ulcerativa aguda grave
Por Leandro Lima

A retocolite ulcerativa, em sua forma aguda grave, é uma emergência associada a risco elevado de colectomia e mortalidade. Os critérios clássicos de Truelove-Witts, publicados em 1955, precederam importantes avanços terapêuticos dedicados à condição, a exemplo dos corticosteroides e terapias avançadas. Diante desse cenário, o grupo REFINED-ASUC propôs critérios diagnósticos contemporâneos por meio de um consenso Delphi modificado.

Retocolite ulcerativa aguda grave: um adeus aos critérios de Truelove-Witts?

Metodologia

Participaram gastroenterologistas da Europa, América do Norte e Ásia-Pacífico em quatro rodadas Delphi entre 2024 e 2025, adotando consenso diante de concordância de pelo menos 70% em determinada afirmação.

Os novos critérios diagnósticos propostos

O ponto-chave do consenso foi a proposição de um modelo baseado em critérios maiores e menores.

Para pacientes já em uso de terapia avançada ou corticosteroides, o diagnóstico passa a ser sustentado pela combinação de:

Critérios maiores (≥2)Critérios menores (≥2)
  1. PCR ≥2x LSN;
  2. Frequência evacuatória diária ≥6;
  3. Sangue visível em ≥50% das evacuações.
  1. Hipoalbuminemia;
  2. Taquicardia;
  3. Evacuações noturnas;
  4. Anemia;
  5. Febre;
  6. Leucocitose.

PCR: Proteína C reativa; LSN: Limite superior da normalidade.

Na vigência de corticosteroides em altas doses, os limiares são reduzidos (PCR ≥ 1x LSN e sangue visível em ≥ 33% das evacuações), pois o tratamento prévio pode mascarar a atividade inflamatória. Para pacientes sem tratamento prévio, não houve consenso suficiente para definir uma combinação diagnóstica definitiva.

Investigações recomendadas

A retossigmoidoscopia flexível é útil para confirmar o diagnóstico e excluir infecção por citomegalovírus, devendo ser realizada idealmente nas primeiras 24 horas da internação, sem atrasar o início da corticoterapia intravenosa.

A imagem abdominal mantém-se importante principalmente para afastar o megacólon tóxico.

Marcadores tradicionalmente utilizados, como VHS, relação PCR/albumina, calprotectina fecal e lactoferrina, não foram incorporados como critérios diagnósticos pela ausência de consenso ou aplicabilidade prática suficiente.

O que podemos levar para a prática?

A proposição de novas definições para a retocolite ulcerativa aguda grave provavelmente representa a atualização mais relevante das últimas décadas. Reconheceu-se que pacientes previamente tratados podem apresentar inflamação grave mesmo sem preencher os limiares clássicos de Truelove-Witts. Entretanto, até que se tenha validação por estudos prospectivos, os novos critérios devem ser interpretados apenas como um instrumento de apoio ao julgamento clínico na decisão de internação e escalonamento terapêutico.

Autoria

Foto de Leandro Lima

Leandro Lima

Editor médico na Afya. Médico pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Residência em Clínica Médica e Gastroenterologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG - 2018). Endoscopia digestiva pela UFJF (2019). Preceptor do Serviço de Medicina Interna do Hospital Universitário da UFJF (HU-UFJF) e membro do corpo clínico do Hospital Monte Sinai desde 2019.

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