A obesidade é uma pandemia e está associada a múltiplas comorbidades graves, tanto físicas quanto psicológicas. Nos últimos anos, observamos um crescimento importante no número de procedimentos bariátricos oferecidos. Sabe-se que toda cirurgia apresenta algum grau de risco, assim, a decisão de operar é tomada somente após uma cuidadosa avaliação de riscos e benefícios. A detecção precoce e o manejo adequado das complicações são cruciais para prevenir a morbimortalidade no pós-operatório imediato e tardio de uma cirurgia bariátrica.
Cuidados com os pacientes após a cirurgia bariátrica
Em pacientes submetidos à cirurgia bariátrica, são necessárias avaliações regulares e cada consulta médica deve incluir:
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- avaliação da tendência / ganho de peso
- nível de atividade física
- avaliação da ingestão de vitaminas e minerais
- presença e controle de comorbidades (diabetes, hipertensão, apneia do sono, doenças reumatológicas, dentre outras)
- avaliar complicações da cirurgia bariátrica
A rotina laboratorial anual deve incluir:
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- hemograma
- vitamina B1 e B12
- hemoglobina glicada
- hormônios tireoidianos
- perfil lipídico
- outras vitaminas, quando houver suspeita de deficiência
Após cirurgias com by-pass gástrico, deve-se também incluir: dosagem de folato, perfil de ferro, 25-OH-vitamina D, e zinco.
A base para a manutenção do novo peso deve ser o aconselhamento para mudança de estilo de vida. Devida à restrição da capacidade gástrica, os pacientes devem fracionar suas refeições, consumindo em média três refeições, e até dois lanches por dia. A dieta deve incluir de 80 a 100 g de proteína, para a prevenção de deficiência.
Casos que evoluam com novo ganho de peso (recuperação de aproximadamente 15% do peso total perdido após a cirurgia), podem necessitar de terapia medicamentosa, cirurgia endoscópica, ou cirurgia bariátrica revisional.
Sem a suplementação adequada, muitos pacientes submetidos a procedimentos bariátricos desenvolvem deficiências vitamínicas, mesmo anos após a realização da cirurgia. As razões para algumas dessas deficiências estão relacionadas à anatomia alterada pelo procedimento, diminuição da ingestão de nutrientes e rápida perda de peso. Por esta razão, todos os pacientes submetidos à cirurgia bariátrica precisam tomar suplementação pelo resto da vida, através de complexos polivitamínicos contendo ferro, ácido fólico, tiamina, cálcio elementar, vitamina D e vitamina B12.
Complicações
Outras complicações associadas à cirurgia bariátrica e seu respectivo manejo, estão especificadas na tabela abaixo:
Tabela 1 – Prevalência, apresentação, diagnóstico e manejo de complicações bariátricas comuns | ||||
Complicação | Prevalência | Apresentação | Diagnóstico |
Manejo |
DRGE | 2% – 30% (maior em pacientes submetidos a SG). | Azia, dor no peito e náusea. | Diagnóstico clínico. EDA somente indicada para sintomas graves. | Terapia com IBP; conversão para BGYR em casos de DRGE severo refratário ao tratamento com IBP. |
Síndrome de Dumping | 40% (primariamente em pacientes submetidos a BGYR). | Dor abdominal com cólica, diarreia, náusea e taquicardia após alimentações. | Diagnóstico clínico; checar hipoglicemia. | Evitar alimentos com alto teor de açúcar simples, e substituir por carboidratos complexos, ricos em fibras; medicamentoso: acarbose. |
Colelitíase | 30% | Dor no quadrante superior direito. | USG abdominal | Colecistectomia para sintomas de colelitíase (aproximadamente 10% dos pacientes podem precisar de colecistectomia após cirurgia bariátrica). |
Úlcera marginal | 1-16% em pacientes submetidos a BGYR | Dor abdominal superior, náusea e vômitos. | EDA | Cessação do tabagismo; evitar AINE; IBP e sucralfato; procedimentos endoscópicos ou cirúrgicos para casos refratários. |
Estenose de Anastomose | 1-10% em pacientes submetidos a BGYR. | Disfagia, náusea e vômitos | EDA | Dilatação endoscópica; revisão cirúrgica. |
Complicações da banda gástrica | 40-50% | Náuseas, vômitos e intolerância alimentar; infecção local; e dor abdominal. | EDA; USG rins e vias urinárias; tomografia de abdome. | Ajuste, se banda apertada; remoção da banda em casos de deslizamento, DRGE grave ou erosão; conversão para BGYR ou SG para prevenir novo ganho de peso. |
Hipoglicemia | Mais de 1/3 dos pacientes submetidos ao BGYR apresentam hipoglicemia (maioria é assintomática). | Confusão, palpitações, tremores e diaforese. | Avaliar glicemia e nível de insulina. | Aconselhamento dietético; alto teor de proteínas, alto teor de fibras, dieta pobre em carboidratos; medicamentoso: acarbose; reversão do bypass gástrico, reservada para pacientes com sintomas refratários. |
Obstrução intestinal / hérnia interna | 1.5-5% em pacientes com BGYR | Náusea, vômitos e dor abdominal | USG de rins e vias urinárias; tomografia de abdome | Baixo limiar para exploração cirúrgica na investigação de dor abdominal inexplicada após BGYR |
Abreviações: DRGE = doença do refluxo gastroesofágico; BGYR = bypass gástrico em Y de Roux; EDA = Endoscopia digestiva alta; IBP = inibidor de bomba de próton; AINE = anti-inflamatório não-esteroidal; SG = Gastrectomia Sleeve
Referências bibliográficas:
- Chen Y, Li Z, Dutson E. Primary Care Treatment of Patients Following Bariatric Surgery in 2020. JAMA. 2020 Sep 1;324(9):888-889.
- Monkhouse SJW, Morgan JDT, Norton SA. Complications of Bariatric Surgery: Presentation and Emergency Management – a Review. Ann R Coll Surg Engl. 2009 May; 91(4): 280–286.
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