A constipação refratária é definida como a persistência de sintomas de evacuação inadequada, mesmo após a adesão a estratégias terapêuticas padrão, incluindo aumento de ingestão de fibras, hidratação adequada e uso de laxativos. Esse subtipo de constipação crônica afeta significativamente a qualidade de vida dos pacientes, com impacto psicossocial e funcional importantes.

Avaliação diagnóstica: além da fibra e da água
A investigação diagnóstica da constipação refratária vai além de simples testes terapêuticos. O exame físico anorretal, complementado pela manometria anorretal (MAR), são essenciais para avaliar a motilidade do reto e ânus, identificando dissinergias evacuatórias e outros transtornos anorretais funcionais. Dentro da MAR, o teste de expulsão do balão é particularmente útil para detectar padrões de resposta anormal ao estímulo evacuatório. Paralelamente, o estudo de trânsito colônico com marcadores radio-opacos é uma ferramenta útil para identificar a constipação de trânsito lento, embora sua disponibilidade seja inconsistente em diferentes regiões pelo Brasil.
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Distúrbios da defecação: O papel do biofeedback
A fisioterapia pélvica com biofeedback anorretal é considerada o método padrão-ouro no tratamento da defecação dissinérgica, um distúrbio comum em pacientes com constipação refratária. Esse tratamento almeja reeducar os músculos do assoalho pélvico e a coordenação da evacuação, promovendo uma melhora significativa nos sintomas. Estudos recentes demonstram que a terapia com biofeedback resulta em resposta clínica em mais de 70% dos casos, com efeitos duradouros. No Brasil, apesar da eficácia comprovada, a adesão a esse tipo de terapia ainda é limitada pela falta de profissionais capacitados e pela ausência de cobertura por planos de saúde em muitos casos.
Manejo farmacológico: O que temos no brasil?
No Brasil, a farmacoterapia para constipação refratária abrange opções como lubiprostona (ativador do receptor EP4, ainda enfrentando períodos de escassez no mercado nacional) e prucaloprida (agonista seletivo do 5-HT4, mais disponível), que são comercializadas e têm demonstrado eficácia em casos selecionados. A lubiprostona é especialmente útil em casos de constipação com distúrbio de trânsito lento, enquanto a prucaloprida é eficaz em pacientes com constipação com motilidade colônica reduzida. No entanto, medicamentos como plecanatida e tenapanor, agentes já utilizados em outros países, ainda não foram aprovados pela ANVISA e, portanto, não estão disponíveis no mercado brasileiro.
Laxativos: mitos e verdades sobre a segurança a longo prazo
O uso crônico de laxativos, sobretudo de laxativos estimulantes, como bisacodil, picossulfato de sódio e sene, é frequentemente questionada devido a preocupações com segurança a longo prazo. No entanto, mesmo estudos mais recentes, como este posicionamento da ACG, reafirmam que, quando usados com doses e indicações apropriadas, esses medicamentos são seguros e não estão associados a dependência ou dano ao plexo mioentérico. A constipação refratária muitas vezes requer o uso contínuo de laxativos, e a escolha do tipo correto, associada a uma avaliação regular do paciente, é essencial para evitar complicações.
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Opções avançadas e cirurgia
Em casos excepcionais, onde as opções farmacológicas e terapias não farmacológicas falham, opções avançadas, como a cápsula vibrante, a irrigação transanal, a colectomia subtotal com anastomose íleorretal ou mesmo a ileostomia podem ser consideradas, sempre tendo em vista o grau de impacto dos sintomas na qualidade de vida do paciente. A irrigação transanal é uma técnica não cirúrgica que permite a evacuação programada e é especialmente útil em pacientes com constipação neurogênica. Já a colectomia subtotal é uma intervenção cirúrgica de último recurso, indicada apenas após falência de todas as outras terapias e com clara indicação clínica. No Brasil, a indicação cirúrgica deve ser realizada por um coloproctologista especializado, com avaliação multidisciplinar prévia.
Resumindo
- A constipação refratária é definida como persistência de sintomas mesmo após terapias padrão com medidas dietéticas, comportamentais e laxativos osmóticos.
- A avaliação diagnóstica inclui o exame físico anorretal, a manometria anorretal e o estudo de tempo de trânsito colônico.
- O biofeedback anorretal é o padrão-ouro no tratamento da defecação dissinérgica.
- Laxativos estimulantes como bisacodil e sene são ferramentas auxiliares importantes e seguras no longo prazo, desde que usados sob supervisão médica.
- No Brasil, lubiprostona e prucaloprida são opções farmacológicas aprovadas e eficazes.
- Em casos extremos, procedimentos invasivos, até mesmo cirúrgicos, podem ser considerados.
Autoria

Filipe Fernandes Justus
Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Residências em Clínica Médica, Gastroenterologia e Hepatologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP). Mestrado em Ciências da Saúde pela UEPG. Além da atuação na Afya, trabalha como assistente de Gastroenterologia do Hospital Universitário da UEPG (HU-UEPG) e atende em consultório particular.
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