GastroenterologiaDEZ 2021

Consenso para prevenção de trombose venosa e arterial em pacientes com DII

A doença de Crohn e retocolite ulcerativa são doenças inflamatórias intestinais associadas ao risco trombose venosa e arterial profunda.

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Por Guilherme Grossi Cançado
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A doença de Crohn e retocolite ulcerativa são doenças inflamatórias intestinais (DII) associadas a aumento do risco trombose venosa e arterial profunda. Recentemente, foi publicado um consenso de especialistas em doença inflamatória intestinal e hematologistas acerca desse tema.

trombose venosa e arterial

Confira os principais pontos trazidos para prevenção de trombose venosa e arterial: 

  1. A doença inflamatória intestinal se associa a risco 2 vezes maior de tromboembolismo venoso. 
  2. Pacientes com doença inflamatória intestinal (DII) devem ser rastreados para fatores de risco relacionados a tromboembolismo venoso. Os pacientes com DII não apresentam risco aumentado de trombofilia hereditária e anormalidades laboratoriais adquiridas. Esses fatores só devem ser pesquisados em pacientes com trombose não provocada em remissão profunda da doença intestinal. História de eventos tromboembólicos, obesidade, idade maior que 65 anos, presença de neoplasia ativa e cirurgia de grande porte recente são fatores de risco a serem considerados logo ao diagnóstico de DII. 
  3. O risco de tromboembolismo está associado a atividade da doença intestinal e  aumenta durante hospitalizações. 
  4. A tromboprofilaxia deve ser instituída em todo paciente com DII hospitalizado por qualquer razão. Heparina de baixo peso molecular ou fondaparinux são recomendados, em relação a heparina não fracionada. A profilaxia deve ser mantida durante toda internação. Profilaxia estendida por 2-8 semanas após a alta pode ser considerada em pacientes com alto risco de tromboembolismo. 
  5. A tromboprofilaxia pode ser considerada em pacientes ambulatoriais com DII ativa e fatores de risco conhecidos para tromboembolismo venoso até a remissão da doença intestinal. Essa recomendação é particularmente importante para pacientes com história de trombose venosa profunda (TVP) prévia durante uma crise da doença. 
  6. A tromboprofilaxia não aumenta o risco de sangramento gastrointestinal associado a DII em pacientes com doença ativa. Em pacientes com alto risco de sangramento por outras causas ou contraindicação a anticoagulação profilática podem receber profilaxia mecânica. 
  7. A DII é associada a um pequeno mais significativo aumento no risco de eventos trombóticos arteriais, especialmente em jovens com doença intestinal ativa. 
  8. O risco de acidente vascular cerebral e doença cardíaca isquêmica parece ser aumentado em mulheres com DII, mas não em homens.
  9. O risco de doença arterial periférica é moderadamente aumentado em pacientes com DII, especialmente jovens com doença de Crohn. 
  10. O risco de isquemia mesentérica é aumentado em pacientes com DII, especialmente jovens com retocolite ulcerativa. 
  11. O controle da atividade de doença é um fator importante para a redução do risco de eventos trombóticos arteriais e venosos. 
  12. Fatores de risco cardiovascular estabelecidos (hipertensão, diabetes, dislipidemia, tabagismo, obesidade) devem ser investigados e controlados ativamente em pacientes com DII. 
  13. As evidências relacionadas aos efeitos de derivados 5-ASA, tiopurinas ou metotrexato no risco de tromboembolismo venoso são limitadas. 
  14. Derivados 5-ASA estão associados a risco reduzido de doença cardíaca isquêmica em pacientes com DII, especialmente se administrados por longo período. 
  15. Corticoesteróides são associados a maior risco de evento trombótico arterial e venoso em pacientes com DII.  
  16. Antagonistas de TNF alfa podem estar associados a redução no risco de eventos trombóticos venosos em pacientes com DII. 
  17. Antagonistas de TNF alfa podem ser associados a redução no risco de eventos trombóticos arteriais em pacientes com DII. 
  18. Tofacitinibe pode ser associado a um aumento dose-dependente no risco de tromboembolismo venoso em pacientes com artrite reumatóide e fatores de risco para TVP. De acordo com as evidências atuais, não se observa aumento do risco de trombose venosa em pacientes com retocolite ulcerativa tratados com tofacitinibe. 
  19. Tofacitinibe não está associado a aumento do risco de eventos cardiovasculares maiores em pacientes com retocolite ulcerativa. 

Conclusões: 

Pacientes com DII apresentam risco aumentado de trombose venosa e arterial. A tromboprofilaxia deve ser indicada para todos os pacientes com DII hospitalizados, independentemente do motivo da internação. A atividade da doença intestinal é um fator de risco modificável. Dessa maneira, deve-se objetivar a remissão profunda para minimizar o risco de eventos trombóticos. A exposição a corticoesteróides deve ser limitada ao menor tempo possível. Antagonistas de TNF alfa podem estar associados a menor risco de trombose em pacientes com DII.  

Referência bibliográfica: 

  • Olivera PA, Zuily S, Kotze PG, Regnault V, Al Awadhi S, Bossuyt P, Gearry RB, Ghosh S, Kobayashi T, Lacolley P, Louis E, Magro F, Ng SC, Papa A, Raine T, Teixeira FV, Rubin DT, Danese S, Peyrin-Biroulet L. International consensus on the prevention of venous and arterial thrombotic events in patients with inflammatory bowel disease. Nat Rev Gastroenterol Hepatol. 2021 Dec;18(12):857-873. doi: 10.1038/s41575-021-00492-8. 

A doença de Crohn e retocolite ulcerativa são doenças inflamatórias intestinais (DII) associadas a aumento do risco trombose venosa e arterial profunda. Recentemente, foi publicado um consenso de especialistas em doença inflamatória intestinal e hematologistas acerca desse tema.

trombose venosa e arterial

Confira os principais pontos trazidos para prevenção de trombose venosa e arterial: 

  1. A doença inflamatória intestinal se associa a risco 2 vezes maior de tromboembolismo venoso. 
  2. Pacientes com doença inflamatória intestinal (DII) devem ser rastreados para fatores de risco relacionados a tromboembolismo venoso. Os pacientes com DII não apresentam risco aumentado de trombofilia hereditária e anormalidades laboratoriais adquiridas. Esses fatores só devem ser pesquisados em pacientes com trombose não provocada em remissão profunda da doença intestinal. História de eventos tromboembólicos, obesidade, idade maior que 65 anos, presença de neoplasia ativa e cirurgia de grande porte recente são fatores de risco a serem considerados logo ao diagnóstico de DII. 
  3. O risco de tromboembolismo está associado a atividade da doença intestinal e  aumenta durante hospitalizações. 
  4. A tromboprofilaxia deve ser instituída em todo paciente com DII hospitalizado por qualquer razão. Heparina de baixo peso molecular ou fondaparinux são recomendados, em relação a heparina não fracionada. A profilaxia deve ser mantida durante toda internação. Profilaxia estendida por 2-8 semanas após a alta pode ser considerada em pacientes com alto risco de tromboembolismo. 
  5. A tromboprofilaxia pode ser considerada em pacientes ambulatoriais com DII ativa e fatores de risco conhecidos para tromboembolismo venoso até a remissão da doença intestinal. Essa recomendação é particularmente importante para pacientes com história de trombose venosa profunda (TVP) prévia durante uma crise da doença. 
  6. A tromboprofilaxia não aumenta o risco de sangramento gastrointestinal associado a DII em pacientes com doença ativa. Em pacientes com alto risco de sangramento por outras causas ou contraindicação a anticoagulação profilática podem receber profilaxia mecânica. 
  7. A DII é associada a um pequeno mais significativo aumento no risco de eventos trombóticos arteriais, especialmente em jovens com doença intestinal ativa. 
  8. O risco de acidente vascular cerebral e doença cardíaca isquêmica parece ser aumentado em mulheres com DII, mas não em homens.
  9. O risco de doença arterial periférica é moderadamente aumentado em pacientes com DII, especialmente jovens com doença de Crohn. 
  10. O risco de isquemia mesentérica é aumentado em pacientes com DII, especialmente jovens com retocolite ulcerativa. 
  11. O controle da atividade de doença é um fator importante para a redução do risco de eventos trombóticos arteriais e venosos. 
  12. Fatores de risco cardiovascular estabelecidos (hipertensão, diabetes, dislipidemia, tabagismo, obesidade) devem ser investigados e controlados ativamente em pacientes com DII. 
  13. As evidências relacionadas aos efeitos de derivados 5-ASA, tiopurinas ou metotrexato no risco de tromboembolismo venoso são limitadas. 
  14. Derivados 5-ASA estão associados a risco reduzido de doença cardíaca isquêmica em pacientes com DII, especialmente se administrados por longo período. 
  15. Corticoesteróides são associados a maior risco de evento trombótico arterial e venoso em pacientes com DII.  
  16. Antagonistas de TNF alfa podem estar associados a redução no risco de eventos trombóticos venosos em pacientes com DII. 
  17. Antagonistas de TNF alfa podem ser associados a redução no risco de eventos trombóticos arteriais em pacientes com DII. 
  18. Tofacitinibe pode ser associado a um aumento dose-dependente no risco de tromboembolismo venoso em pacientes com artrite reumatóide e fatores de risco para TVP. De acordo com as evidências atuais, não se observa aumento do risco de trombose venosa em pacientes com retocolite ulcerativa tratados com tofacitinibe. 
  19. Tofacitinibe não está associado a aumento do risco de eventos cardiovasculares maiores em pacientes com retocolite ulcerativa. 

Conclusões: 

Pacientes com DII apresentam risco aumentado de trombose venosa e arterial. A tromboprofilaxia deve ser indicada para todos os pacientes com DII hospitalizados, independentemente do motivo da internação. A atividade da doença intestinal é um fator de risco modificável. Dessa maneira, deve-se objetivar a remissão profunda para minimizar o risco de eventos trombóticos. A exposição a corticoesteróides deve ser limitada ao menor tempo possível. Antagonistas de TNF alfa podem estar associados a menor risco de trombose em pacientes com DII.  

Referência bibliográfica: 

  • Olivera PA, Zuily S, Kotze PG, Regnault V, Al Awadhi S, Bossuyt P, Gearry RB, Ghosh S, Kobayashi T, Lacolley P, Louis E, Magro F, Ng SC, Papa A, Raine T, Teixeira FV, Rubin DT, Danese S, Peyrin-Biroulet L. International consensus on the prevention of venous and arterial thrombotic events in patients with inflammatory bowel disease. Nat Rev Gastroenterol Hepatol. 2021 Dec;18(12):857-873. doi: 10.1038/s41575-021-00492-8. 

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Guilherme Grossi CançadoGuilherme Grossi Cançado
Editor médico da Afya ⦁ Pós-Doutorado em Hepatologia Avançada e Doenças Autoimunes do Trato Gastrointestinal pela Universidade de Toronto, Canadá ⦁ Doutorado em saúde do adulto com ênfase em Hepatologia pela UFMG ⦁ Mestrado em saúde do adulto com ênfase em Gastroenterologia pela UFMG ⦁ Residência em Clínica Médica e Gastroenterologia pelo HC-UFMG ⦁ Chefe da Gastrohepatologia do Hospital da Polícia Militar de Minas Gerais ⦁ Preceptor de hepatologia e clínica médica do HC-UFMG ⦁ Membro da AASLD, ALEH, SBH, GEDIIB ⦁ Coordenador de Jovens Investigadores da ALEH ⦁ Professor convidado da UFMG