O rastreamento do câncer colorretal (CCR) em idosos representa um desafio cada vez mais comum na prática clínica. Embora a idade seja um fator de risco crescente para o desenvolvimento da doença, a expectativa de vida limitada e a presença de comorbidades frequentemente tornam o benefício do rastreio questionável. Ele está formalmente indicado para adultos entre 50 e 75 anos, podendo ser oferecido para pacientes com idades mais avançadas no contexto clínico apropriado. Daí surge outro dilema, o que fazer com aqueles pacientes que apresentaram adenomas colorretais ao ultrapassarem a idade preconizada de rastreio? Quais os riscos de se interromper o rastreamento nesse grupo?
Um estudo publicado em maio de 2026 no Journal of the American Medical Association (JAMA) oferece dados robustos sobre a incidência de CCR e a mortalidade por outras causas em idosos com e sem histórico de adenoma colorretal, ajudando-nos a responder tais questionamentos.

O estudo e a metodologia
Estudo analítico prospectivo de uma coorte com 91.297 pacientes norte-americanos, com idade mediana de 71 anos na última colonoscopia. O objetivo foi avaliar o risco de desenvolvimento de CCR e a mortalidade (específica por câncer e por outras causas) em pacientes com idade ≥ 75 anos, divididos em dois grupos:
- Grupo com adenoma prévio: pacientes que tiveram adenomas detectados em exames anteriores.
- Grupo com exame normal: pacientes que tiveram colonoscopia prévia sem achados de adenoma.
O acompanhamento médio foi de 8 anos, com análise estendida até 10 anos, permitindo uma avaliação detalhada da evolução clínica e da mortalidade específica.
Resultados: O peso dos riscos competitivos
Os resultados do estudo destacam a importância de se considerar os riscos competitivos ao decidir pela continuidade do rastreio em idosos:
- Incidência de CCR: Grupo com adenoma prévio: 1,1% em 10 anos. Grupo sem adenoma: 0,7% em 10 anos. A diferença absoluta é pequena, sugerindo que o histórico de adenoma perde relevância com o avanço da idade.
- Mortalidade específica por CCR: Grupo com adenoma prévio: 0,5% em 10 anos. Grupo sem adenoma: 0,4% em 10 anos. O risco de morte por CCR identificado foi bastante baixo, independentemente do histórico de adenoma.
- Mortalidade por outras causas: Aproximadamente 50% dos pacientes faleceram por outras causas (cardiovasculares, infecciosas, neurológicas, entre outras) no mesmo período de 10 anos. Esses dados reforçam que, após os 75 anos, o risco de morte por causas não relacionadas ao CCR supera por ampla margem o risco de desenvolver a doença.
Visão crítica: robustez e fragilidade
A decisão de continuar ou interromper o rastreio de câncer colorretal (CCR) em idosos deve ser baseada em uma avaliação clínica individualizada, e não apenas na idade cronológica. O estudo da JAMA não sugere a interrupção universal do rastreio após os 75 anos, mas sim a estratificação do risco com base no status funcional e na expectativa de vida.
- Idoso robusto: Pacientes com boa saúde, poucas comorbidades e expectativa de vida superior a 10 anos podem continuar com o rastreio, pois a colonoscopia ainda pode oferecer benefícios reais.
- Idoso frágil: Em pacientes com múltiplas comorbidades ou sinais de fragilidade, o rastreio torna-se uma intervenção de baixo valor clínico, com riscos de complicações que superam os possíveis benefícios.
A colonoscopia em idosos não é isenta de riscos. Complicações como perfuração, sangramento pós-polipectomia e desequilíbrios hidroeletrolíticos são mais frequentes e graves nessa população, podendo precipitar quadros de descompensação funcional.
Conclusão e mensagem prática
O estudo da JAMA revela a baixa relevância do câncer colorretal em comparação com outras entidades clínicas, como doenças cardiovasculares e neurodegenerativas, como causa de mortalidade em idosos acima de 75 anos. O processo decisório, no entanto, permanece individualizado, baseado em uma avaliação cuidadosa da expectativa de vida, do status funcional e da carga de comorbidades do paciente.
O desafio continua em identificar o subgrupo de pacientes que ainda se beneficia do rastreio após os 75 anos, enquanto se evita a realização de procedimentos invasivos naqueles em quem o envelhecimento já dita outras prioridades. A decisão compartilhada entre médico e paciente é essencial para garantir a segurança e a qualidade da assistência.
Autoria

Filipe Fernandes Justus
Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Residências em Clínica Médica, Gastroenterologia e Hepatologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP). Mestrado em Ciências da Saúde pela UEPG. Além da atuação na Afya, trabalha como assistente de Gastroenterologia do Hospital Universitário da UEPG (HU-UEPG) e atende em consultório particular.
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