Logotipo Afya
Anúncio
Gastroenterologia15 junho 2026

Câncer colorretal: dilemas no rastreamento em idosos após os 75 anos

Estudo estimou os riscos cumulativos do câncer colorretal, mortalidade por causas não relacionadas e por todas as causas em adultos com 75 anos ou mais

O rastreamento do câncer colorretal (CCR) em idosos representa um desafio cada vez mais comum na prática clínica. Embora a idade seja um fator de risco crescente para o desenvolvimento da doença, a expectativa de vida limitada e a presença de comorbidades frequentemente tornam o benefício do rastreio questionável. Ele está formalmente indicado para adultos entre 50 e 75 anos, podendo ser oferecido para pacientes com idades mais avançadas no contexto clínico apropriado. Daí surge outro dilema, o que fazer com aqueles pacientes que apresentaram adenomas colorretais ao ultrapassarem a idade preconizada de rastreio? Quais os riscos de se interromper o rastreamento nesse grupo?

Um estudo publicado em maio de 2026 no Journal of the American Medical Association (JAMA) oferece dados robustos sobre a incidência de CCR e a mortalidade por outras causas em idosos com e sem histórico de adenoma colorretal, ajudando-nos a responder tais questionamentos.

Câncer colorretal: dilemas no rastreamento em idosos após os 75 anos

Imagem de gpointstudio/freepik

O estudo e a metodologia

Estudo analítico prospectivo de uma coorte com 91.297 pacientes norte-americanos, com idade mediana de 71 anos na última colonoscopia. O objetivo foi avaliar o risco de desenvolvimento de CCR e a mortalidade (específica por câncer e por outras causas) em pacientes com idade ≥ 75 anos, divididos em dois grupos:

  • Grupo com adenoma prévio: pacientes que tiveram adenomas detectados em exames anteriores.
  • Grupo com exame normal: pacientes que tiveram colonoscopia prévia sem achados de adenoma.

O acompanhamento médio foi de 8 anos, com análise estendida até 10 anos, permitindo uma avaliação detalhada da evolução clínica e da mortalidade específica.

Resultados: O peso dos riscos competitivos

Os resultados do estudo destacam a importância de se considerar os riscos competitivos ao decidir pela continuidade do rastreio em idosos:

  1. Incidência de CCR: Grupo com adenoma prévio: 1,1% em 10 anos. Grupo sem adenoma: 0,7% em 10 anos. A diferença absoluta é pequena, sugerindo que o histórico de adenoma perde relevância com o avanço da idade.
  2. Mortalidade específica por CCR: Grupo com adenoma prévio: 0,5% em 10 anos. Grupo sem adenoma: 0,4% em 10 anos. O risco de morte por CCR identificado foi bastante baixo, independentemente do histórico de adenoma.
  3. Mortalidade por outras causas: Aproximadamente 50% dos pacientes faleceram por outras causas (cardiovasculares, infecciosas, neurológicas, entre outras) no mesmo período de 10 anos. Esses dados reforçam que, após os 75 anos, o risco de morte por causas não relacionadas ao CCR supera por ampla margem o risco de desenvolver a doença.

Visão crítica: robustez e fragilidade

A decisão de continuar ou interromper o rastreio de câncer colorretal (CCR) em idosos deve ser baseada em uma avaliação clínica individualizada, e não apenas na idade cronológica. O estudo da JAMA não sugere a interrupção universal do rastreio após os 75 anos, mas sim a estratificação do risco com base no status funcional e na expectativa de vida.

  • Idoso robusto: Pacientes com boa saúde, poucas comorbidades e expectativa de vida superior a 10 anos podem continuar com o rastreio, pois a colonoscopia ainda pode oferecer benefícios reais.
  • Idoso frágil: Em pacientes com múltiplas comorbidades ou sinais de fragilidade, o rastreio torna-se uma intervenção de baixo valor clínico, com riscos de complicações que superam os possíveis benefícios.

A colonoscopia em idosos não é isenta de riscos. Complicações como perfuração, sangramento pós-polipectomia e desequilíbrios hidroeletrolíticos são mais frequentes e graves nessa população, podendo precipitar quadros de descompensação funcional.

Conclusão e mensagem prática

O estudo da JAMA revela a baixa relevância do câncer colorretal em comparação com outras entidades clínicas, como doenças cardiovasculares e neurodegenerativas, como causa de mortalidade em idosos acima de 75 anos. O processo decisório, no entanto, permanece individualizado, baseado em uma avaliação cuidadosa da expectativa de vida, do status funcional e da carga de comorbidades do paciente.

O desafio continua em identificar o subgrupo de pacientes que ainda se beneficia do rastreio após os 75 anos, enquanto se evita a realização de procedimentos invasivos naqueles em quem o envelhecimento já dita outras prioridades. A decisão compartilhada entre médico e paciente é essencial para garantir a segurança e a qualidade da assistência.

Autoria

Foto de Filipe Fernandes Justus

Filipe Fernandes Justus

Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Residências em Clínica Médica, Gastroenterologia e Hepatologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP). Mestrado em Ciências da Saúde pela UEPG. Além da atuação na Afya, trabalha como assistente de Gastroenterologia do Hospital Universitário da UEPG (HU-UEPG) e atende em consultório particular.

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Gastroenterologia