Inicialmente reconhecida por seu papel no metabolismo ósseo, a vitamina D passou a ser investigada em praticamente todas as áreas da medicina, incluindo reprodução humana, infertilidade e função ovariana. A presença de receptores de vitamina D nas células da granulosa e em outros tecidos ovarianos trouxe um racional teórico plausível de que seria possível melhorar a reserva ovariana através da suplementação de vitamina D.
Essa possibilidade despertou grande interesse, especialmente em mulheres com infertilidade, baixa reserva ovariana e síndrome dos ovários policísticos (SOP), cenários nos quais frequentemente se observa deficiência concomitante de vitamina D.
Uma atual metanálise buscou responder essa questão por meio da análise de estudos clínicos randomizados disponíveis na literatura. Os resultados ajudam a colocar o tema em perspectiva e reforçam que a deficiência de vitamina D e reserva ovariana reduzida não são necessariamente causa e consequência.
Metodologia
Os autores realizaram uma revisão sistemática com metanálise incluindo apenas ensaios clínicos randomizados, o desenho metodológico mais robusto para avaliação de intervenções terapêuticas.
Foram incluídos 11 estudos randomizados, totalizando 992 mulheres em idade reprodutiva, abrangendo diferentes cenários clínicos, incluindo mulheres saudáveis, mulheres com infertilidade, pacientes com síndrome dos ovários policísticos, mulheres com baixa reserva ovariana e pacientes submetidas a tratamentos oncológicos.
O principal desfecho analisado foi a variação dos níveis séricos do hormônio anti-mülleriano (AMH), atualmente considerado um dos principais marcadores laboratoriais de reserva ovariana.
Resultados e Discussão
De forma geral, a suplementação de vitamina D não promoveu aumento significativo dos níveis séricos de AMH quando comparada ao placebo ou à ausência de intervenção. O efeito combinado foi pequeno e estatisticamente não significativo (SMD -0,20; IC95% -0,48 a 0,08). Ou seja, as evidências atualmente disponíveis não demonstram benefício consistente da suplementação de vitamina D sobre a reserva ovariana medida pelo AMH.
Os autores também realizaram diversas análises de subgrupos avaliando possíveis fatores modificadores de resposta, incluindo idade, níveis basais de vitamina D, dose utilizada e método laboratorial de dosagem do AMH, porém nenhum desses fatores demonstrou influência significativa sobre os resultados.
A plausibilidade biológica continua existindo. A vitamina D continua apresentando potencial participação na fisiologia ovariana, no entanto, essa correlação não se traduz em benefício clínico mensurável.
Embora diversos estudos observacionais demonstraram associação entre baixos níveis de vitamina D e piores indicadores reprodutivos, essa associação não implica causalidade. Uma das possíveis explicações é que mulheres com infertilidade, obesidade, SOP ou outras condições metabólicas frequentemente apresentam níveis reduzidos de vitamina D. Isso não significa necessariamente que a deficiência vitamínica seja responsável pela redução da reserva ovariana.
A melhor forma de testar essa hipótese é justamente através de ensaios clínicos randomizados e foi exatamente nesse cenário que o benefício esperado não se confirmou. Dessa forma, a vitamina D continua sendo um nutriente importante e sua deficiência deve ser diagnosticada e tratada quando presente. No entanto, os resultados desta metanálise reforçam que não existe evidência atual para recomendar suplementação rotineira com o objetivo de aumentar AMH e reverter baixa reserva ovariana.
Conclusão
Esta revisão sistemática com metanálise de 11 ensaios clínicos randomizados e quase mil participantes demonstrou que a suplementação de vitamina D não promove aumento significativo dos níveis de hormônio anti-mülleriano em mulheres em idade reprodutiva.
Na prática clínica, a suplementação de vitamina D deve continuar sendo indicada nos casos de deficiência comprovada, pelos benefícios já estabelecidos sobre saúde óssea, metabolismo mineral e outros desfechos clínicos relevantes.
Entretanto, não há evidência atual que justifique sua prescrição com o objetivo específico de aumentar AMH, restaurar reserva ovariana ou melhorar de forma significativa o prognóstico reprodutivo das pacientes.
Autoria

Paulo Melo
Conteudista médico na Afya. Formado pela Universidade Federal do Ceará (UFC) com residências em Endocrinologia pela Santa Casa Belo Horizonte. Atualmente, mestrando em Ciências e Saúde (UFPI) e professor do Afya Centro Universitário.
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