A tirzepatida é um medicamento revolucionário no tratamento de Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2) e Obesidade, sendo alvo de muitos estudos para análise de outros potenciais nichos de atuação da medicação.
Recentemente, foi publicado o estudo SURPASS-PED, um ensaio clínico duplo-cego, randomizado, placebo-controlado e de fase 3 que visou avaliar a eficácia e segurança da tirzepatida no tratamento de crianças e adolescentes com DM2.
Vamos avaliar o que o estudo nos trouxe de informações importantes.

Introdução:
A prevalência de DM2 que surge no início da juventude vem crescendo de forma alarmante ao redor do mundo, tendo sua incidência dobrada nas últimas 2 décadas nos Estados Unidos (EUA). O DM2 que surge no início da juventude é um tipo mais agressivo quando comparado com o DM2 que surge na fase adulta, sendo caracterizado por maior resistência insulínica, rápido declínio da função das células β e maior chance de complicações micro e macrovasculares do DM. Atualmente, as opções disponíveis para tratamento são: metformina, insulina, análogos de GLP-1 e inibidores de SGLT-2. Até o momento, nenhuma medicação para tratamento de DM2 de início na juventude também demonstrou efeitos benéficos em parâmetros relacionados ao peso.
A Tirzepatida é um inibidor duplo de longa duração dependente ( do polipeptídeo insulinotrópico – GIP e do receptor de GLP-1) aprovado para tratamento de Dm2 em adultos com doses semanais que variam de 2,5mg a 15mg. Para adultos, o estudo SURPASS 3 mostrou uma redução de Hba1c de até 2,6% e de até 14% de peso corporal em pacientes adultos com DM2.
O presente estudo SURPASS-PEDS é o primeiro estudo que visa então abordar a eficácia e segurança da Tirzepatida em crianças e adolescentes com DM2 de início na juventude com controle inadequado da metformina e/ou insulina basal.
Metodologia:
Foi conduzido um ensaio clínico randomizado de fase 3, duplo-cego, placebo-controlado, multicêntrico ( 39 locais de avaliação), multinacional ( envolvendo 8 países) por 30 semanas, seguido por uma extensão aberta de 22 semanas, nas quais todos os participantes receberam Tirzepatida (essas 22 semanas a mais foram para explorar os efeitos a longo prazo da Tirzepatida).
Foram selecionados participantes entre 10 e 18 anos, com peso mínimo de 50 kg e IMC acima do percentil 85 para sexo e idade; com DM2 de surgimento no início da juventude e de controle inadequado com metformina e/ou insulina basal, apresentando Hba1c >6,5% a ≤11 % no início do estudo.
Critérios de exclusão foram: Diabetes mellitus tipo 1, presença de autoanticorpos , histórico de pancreatite ou histórico pessoal/familiar de carcinoma medular de tireoide ou NEM2.
Os participantes então foram randomizados em 1:1:1 para receber Tirzepatida 5mg/semana ou Tirzepatida 10mg/semana ou placebo.
A randomização foi estratificada por faixa etária (≤14 anos ou > 14 anos) e uso de medicação anti-hiperglicêmica ( metformina, insulina ou ambas). Todos os participantes, examinadores e patrocinadores permaneceram “cegos” quanto à alocação do tratamento durante as 30 semanas.
O desfecho primário analisado foi a mudança de Hemoglobina glicada (Hba1c) do início à semana 30 do estudo. Demais desfechos foram: alterações na glicemia de jejum e IMC, parâmetros pressóricos, lipídicos e de qualidade de vida.
Os dados de todos os participantes que receberam pelo menos 1 dose de Tirzepatida foram usados para análise de segurança e eficácia da medicação.
Resultados:
Dos 146 participantes selecionados entre 12 de abril de 2022 a 27 de dezembro de 2023, 99 foram randomizados para receber Tirzepatida 5mg (32), Tirzepatida 10mg (33) ou placebo (34). Dos 99 selecionados, 91% concluíram o estudo. O perfil dos selecionados era: 61% composto de mulheres, com idade média de 14, 7 anos, tempo de duração do DM2 de 2,4 anos, Hba1c média de 8,04%, peso médio de 96,6 Kg e IMC médio de 35,4 kg/m2 no início do estudo. A maioria deles (69%) estava em uso de metformina sozinha, 23% usavam metformina com insulina e apenas 8% usavam apenas insulina como forma de tratamento de DM2.
Na semana 30,a Tirzepatida foi superior na redução da Hba1c em 2,23% quando comparada ao placebo que demonstrou aumento em 0,05%. A eficácia foi sustentada ao longo das 52 semanas de tratamento. Além disso, Tirzepatida também demonstrou efeito benéfico na redução de índice de massa corporal (IMC), com redução de 7,4% na dose de 5mg e 11,2% na dose de 10mg, quando comparado com 0,4% do grupo placebo no final das 30 semanas.
Além da melhora do IMC, os grupos Tirzepatida também apresentaram melhores parâmetros de peso corporal, redução de glicemia de jejum, de circunferência abdominal, de níveis pressóricos,de níveis lipídicos (Triglicerídeos, Colesterol total, LDL, e VLDL), bem como melhora na qualidade de vida.
Os efeitos colaterais mais comuns foram os gastrointestinais , sendo eles de leve a moderada severidade e com redução gradual ao longo do tempo. A eficácia da medicação foi a mesma quando comparada com adultos e não houve mortes durante o período analisado.
Discussão:
O estudo SURPASS-Ped foi o primeiro estudo randomizado, duplo-cego, placebo-controlado de fase 3 a avaliar a eficácia e segurança da Tirzepatida em crianças e adolescentes com DM2 de surgimento no início da juventude.
Os resultados citados acima comprovaram que a Tirzepatida foi superior ao placebo em redução da Hba1c na semana 30 de acompanhamento. No grupo da tirzepatida, 86% chegaram a uma Hba1c < 6,5% enquanto 60% chegaram a uma Hba1c <5,7% ao fim da semana 30. Além disso, a medicação demonstrou melhora em outros parâmetros metabólicos como já citamos, o que potencializa o efeito dela em poder reduzir complicações micro a macrovasculares associadas ao DM2.
As principais limitações do estudo foram: ter sido feito com uma amostra populacional pequena, com pouco tempo de seguimento e restrita aos EUA, mas não invalidaram os achados do ensaio.
Conclusão e mensagem prática:
A tirzepatida em dose semanal de 5 a 10mg demonstrou benefícios glicêmicos e de IMC superiores ao placebo na população de crianças e adolescentes com DM2 de início na juventude tendo seus efeitos sustentados por 1 ano de seguimento.
Tais achados suportam a tirzepatida como medicação potencialmente segura e eficaz como ferramenta terapêutica na população estudada.
Autoria

Juliane Braziliano
Médica formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE) Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) Editora Médica de Endocrinologia do Portal Afya e Whitebook
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