O tratamento da hiperglicemia induzida por glicocorticoides (GCIH) em pacientes com câncer, conforme revisado em recente artigo publicado na revista Endocrine Practice, baseia-se principalmente em estratégias individualizadas que consideram o tipo de glicocorticoide, sua dose, duração de ação e o perfil glicêmico do paciente. O objetivo terapêutico é prevenir complicações metabólicas que possam interferir no tratamento oncológico, como infecções, atraso na quimioterapia ou prolongamento da hospitalização. Em geral, a terapia farmacológica é indicada quando a glicemia ultrapassa aproximadamente 200–250 mg/dL ou quando há hiperglicemia persistente em pacientes com maior risco clínico.
A insulina constitui o pilar do tratamento para hiperglicemia moderada a grave, especialmente em pacientes hospitalizados ou com doença aguda. Em pacientes criticamente enfermos, como aqueles internados em unidade de terapia intensiva ou com crises hiperglicêmicas, recomenda-se o uso de infusão intravenosa de insulina, que permite ajustes rápidos e maior controle glicêmico em contextos de instabilidade clínica. Já em pacientes hospitalizados não críticos, a terapia subcutânea com esquemas basal-bolus é a estratégia preferencial, sendo ajustada de acordo com o padrão de hiperglicemia induzido pelos glicocorticoides.
Um aspecto central da abordagem terapêutica é a adequação do regime de insulina à farmacocinética do glicocorticoide utilizado. Para pacientes que recebem prednisona ou prednisolona em dose única diária, a insulina NPH administrada concomitantemente ao corticosteroide, geralmente pela manhã, é considerada a estratégia mais adequada, pois acompanha o pico de resistência insulínica e hiperglicemia vespertina característico desse regime. Sugere-se a dose de 0,1U/Kg/dia a cada 10mg de prednisolona ou equivalente, até um máximo de 0,4 U/Kg/dia. Por outro lado, em situações de exposição prolongada a glicocorticoides de longa duração, como dexametasona ou regimes com múltiplas doses diárias, análogos basais de longa ação, como glargina ou degludeca, podem proporcionar melhor controle glicêmico sustentado.
Além da insulina basal, pode ser necessário o uso de insulina prandial ou de correção para controlar elevações pós-prandiais da glicemia. Um esquema inicial frequentemente sugerido consiste em aproximadamente 0,1 U/kg de insulina rápida por refeição, com titulação baseada na monitorização pós-prandial. Em pacientes com ingestão alimentar reduzida — situação comum durante quimioterapia, devido a náuseas, mucosite ou anorexia — a insulina prandial programada pode ser temporariamente suspensa para evitar hipoglicemia, mantendo-se apenas insulina basal e doses de correção conforme necessário.
Em contextos ambulatoriais ou em casos de hiperglicemia leve, agentes não insulínicos podem ser considerados em situações selecionadas. Fármacos como metformina ou inibidores da DPP-4 podem ser utilizados com cautela, especialmente em pacientes clinicamente estáveis. Entretanto, o uso de agonistas do receptor de GLP-1 ou agonistas duplos GLP-1/GIP deve ser evitado em pacientes oncológicos com caquexia ou desnutrição, devido ao potencial de reduzir o apetite e agravar a perda ponderal.
O ajuste terapêutico também deve acompanhar as modificações do regime de glicocorticoides. Durante a redução progressiva da dose do corticosteroide, recomenda-se diminuir proporcionalmente as doses de insulina para reduzir o risco de hipoglicemia; por exemplo, reduções de cerca de 50% na dose do glicocorticoide podem justificar diminuições de aproximadamente 20–25% na dose de insulina. Esse processo requer monitorização glicêmica frequente, uma vez que a resposta metabólica pode variar substancialmente entre os pacientes.
Em pacientes com doença oncológica avançada ou em cuidados paliativos, o foco da terapia passa a ser o controle sintomático da hiperglicemia e a redução do ônus terapêutico, permitindo metas glicêmicas mais permissivas e esquemas simplificados. Dessa forma, estratégias personalizadas que integrem características do paciente, regime oncológico e perfil farmacológico dos glicocorticoides são fundamentais para otimizar os desfechos clínicos nessa população.
Autoria

Erik Trovão
Formado em Medicina pela UFCG •Residência em Clínica Médica pelo HBLSUS/PE •Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo HAM-SUS/PE •Titulo de especialista em Endocrinologia e Metabologia pela SBEM •Mestre em neurociências pela UFPE •Preceptor da Residência de Endocrinologia do HC/UFPE
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