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Endocrinologia13 julho 2026

TRANSCEND-T2D-1: Efeitos da retatrutida em pacientes com diabetes tipo 2

Estudo avaliou efeitos da retatrutida, um triplo agonista de GIP/GLP-1 e glucagon, que está em fase de desenvolvimento.

Os análogos de GLP-1 e seus derivados vêm sendo alvos de diversos estudos acerca dos mecanismos de ação, efeitos benéficos e possíveis desvantagens. Atualmente, um medicamento chamado Retratutida – um triplo agonista de GIP/GLP-1 e glucagon, encontra-se em desenvolvimento para o tratamento de diabetes mellitus tipo 2 (DM2) e obesidade. Nesse sentindo, a renomada revista The Lancet publicou um artigo que visou avaliar a segurança e eficácia dessa medicação em pacientes com DM2 e controle glicêmico inadequado com dieta e atividade física. Vamos ver o que temos de informações interessantes.

Introdução

O DM2 é uma doença crônica caracterizada por hiperglicemia causada por uma resistência insulínica decorrente de um declínio da função das células β pancreáticas. O progredir da doença cursa com uma série de complicações macro e microvasculares, incluindo as doenças cardiovasculares. 

Como o excesso de peso também está conectado à resistência insulínica, a perda ponderal vem sendo encorajada como forma de tratamento do DM2. 

Nesse sentido, as medicações baseadas nos análogos de GLP-1 e seus derivados apresentam grande potencial por aliar o tratamento das duas condições, promovendo melhora glicêmica e redução do peso corporal. 

A retratutida é uma medicação que vem sendo desenvolvida para esse fim por ser um triplo agonista (de GIP, GLP-1 e Glucagon) e o presente estudo (TRANSCEND-T2D-1), visou avaliar a eficácica e segurança terapêutica dela em monoterapia para pacientes com DM2 e controle glicêmico inadequado apenas com mudança de estilo de vida. 

Woman drawing blood with lancet at home closeup. Blood glucose control in diabetes mellitus concept

Metodologia

O estudo foi um ensaio clínico randomizado, duplo-cego, placebo controlado, de fase 3, que durou por 40 semanas de seguimento e ocorreu em 48 locais nos Estados Unidos, México e Índia. Foram recrutados adultos com idade ≥18 anos, com DM2 mal controlado com dieta e atividade física, Hba1c entre 7.0 e 9.5% e índice de massa corporal (IMC) de pelo menos 23 kg/m². 

Critérios de exclusão foram: pacientes com DM1, hipoglicemia severa, presença de retinopatia diabética ou edema macular, histórico de pancreatite, doenças psiquiátricas severas ou taxa de filtração glomerular < 15mL/min per 1,73  m². 

Os participantes foram então randomizados em 1:1:1:1 para receberem placebo ou retratutida nas doses de 4mg, 9mg ou 12mg sucbcutânea (SC) 1x por semana. O desfecho primário analisado foi a mudança da Hba1c comparando o início do estudo com a semana 40, enquanto desfechos secundários foram: a mudança de peso corporal, mudança da glicemia capilar na monitorização contínua, circunferência abdominal (CA), IMC, pressão arterial, perfil lipídico. 

Resultados

Entre 10 de abril de 2024 e 20 de fevereiro de 2026, 930 pacientes foram selecionados e 537 foram escolhidos para o estudo (296 do sexo feminino e 241 do sexo masculino), sendo randomizados em 1:1:1:1 para receber placebo (134), retratutida 4mg (134) , retratutida 9mg (133)  e retratutida 12mg (136). 

A média de idade dos participantes foi de 48,8 anos, com tempo médio de DM2 de 2,5 anos; Hba1c média no início do estudo de 7,9%; IMC médio de 35,8 kg/m²e peso corporal médio de 96,9kg. 

As mudanças na Hba1c foram: -1,69% no grupo retratutida 4mg/semana,  -1,86% no grupo retratutida 9mg/semana;  – 1,94% no grupo retratutida 12 mg/semana e – 0,81% no grupo placebo. Em relação à mudança de glicemia de jejum, ela foi de: 30,1 mg/dl no grupo retratutida 4mg/semana,   – 31,9 mg/dl  no grupo retratutida 9mg/semana;  – 30,8mg/dl  no grupo retratutida 12 mg/semana e -1,0mg/dl no grupo placebo.

A média percentual de mudança de peso foi de:  – 11,5% com retratutida 4mg,  – 13,9% com retratutida 9mg; – 15,3% com retratutida 12mg e -2,6% com placebo. 

Quanto ao perfil lipídico a redução foi de:  -26,3% de Triglicerídeos e –  15,6% de colesterol não-HDL no grupo retratutida 4mg,  – 34,1 % de Triglicerídeos e –  17 % de colesterol não-HDL no grupo retratutida 9 mg; – 27% de Triglicerídeos e –  15,5% de colesterol não-HDL no grupo retratutida 12 mg versus  – 3,4% de Triglicerídeos e –  3,8% de colesterol não-HDL no grupo placebo.  

Por fim, quanto pressão arterial sistólica o declínio foi de:  – 5 mmHg no grupo retratutida 4mg,  – 4,7 mmHg no grupo retratutida 9mg e  – 5,4 mmHg no grupo retratutida 12mg quando comparados a  – 1,5 mmHg no grupo placebo. 

Os efeitos colaterais sinalizados foram do trato gastrointestinal, em sua maioria, sendo de leves a moderados. 

Discussão

O presente estudo mostrou a eficácia e segurança da Retratutida, o triplo agonista de GIP/GLP-1 e glucagon em todas as doses avaliadas quando comparado com placebo no controle glicêmico de pacientes diabéticos com mal controle apenas com dieta e atividade física. 

Como qualquer estudo, esse também contou com pontos de força e limitação. Como pontos fortes, pode-se citar o fato de ter sido duplo-cego, randomizado e placebo-controlado, bem como uma baixa taxa de desistência do estudo por parte dos participantes, garantindo uma boa tolerabilidade da medicação. Já como pontos limitantes, podemos citar que foi feito em participantes que não usavam nenhum tipo de medicação para controle glicêmico, bem como ter sido realizado apenas em três países e com tempo de seguimento ainda curto de 40 semanas. 

Conclusão e mensagem prática

A retratutida mostrou melhoras significativas no controle glicêmico e na redução de peso corporal quando usada em monoterapia, em pacientes com DM2 e controle glicêmico inadequado apenas com dieta e atividade física, mostrando que pode ser um tratamento interessante para pacientes com DM2 e excesso de peso. 

Além disso, apresentou outras claras vantagens metabólicas com efeitos colaterais manejáveis que sustentam os potenciais benefícios dessa classe medicamentosa tão promissora. 

 

Autoria

Foto de Juliane Braziliano

Juliane Braziliano

Editora médica na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE). Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atuação na Afya e em consultório particular, além de telemedicina.

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