A redução da testosterona em homens submetidos a estresse físico prolongado é um achado muito observado na prática clínica, mas nem sempre representa hipogonadismo verdadeiro.
Situações como treinamento militar intenso, esportes de endurance e de alto rendimento, restrição energética, doenças críticas e períodos prolongados de elevada demanda física e psicológica podem levar à supressão transitória do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, resultando em concentrações séricas reduzidas de testosterona sem que exista uma doença primária do sistema reprodutivo.
O grande desafio é distinguir essa resposta adaptativa de um hipogonadismo que realmente necessite de investigação etiológica e tratamento.
Uma revisão narrativa sintetizou evidências provenientes de estudos militares, protocolos experimentais de treinamento físico, atletas de alto rendimento e modelos de estresse competitivo para compreender os mecanismos fisiológicos envolvidos na supressão da testosterona induzida pelo estresse.
O artigo buscou uma nova forma de interpretar esses pacientes, priorizando a fisiologia do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal em vez da análise isolada dos níveis séricos de testosterona.
Como a revisão avaliou o tema?
Diferentemente de uma revisão sistemática, não houve estratégia formal de busca, critérios explícitos de inclusão ou avaliação estruturada da qualidade metodológica dos estudos. O objetivo principal do artigo foi construir um modelo fisiopatológico capaz de explicar os diferentes padrões de resposta hormonal ao estresse crônico.
Essa abordagem apresenta vantagens e limitações. O principal mérito é reunir evidências provenientes de cenários que dificilmente poderiam ser avaliados em ensaios clínicos tradicionais, permitindo uma interpretação integrada dos mecanismos neuroendócrinos envolvidos.
Por outro lado, a ausência de metodologia sistemática aumenta o risco de viés de seleção dos estudos e impede a quantificação da força das evidências. Assim, as conclusões devem ser entendidas como uma síntese fisiológica consistente, mas não como recomendações baseadas em alto nível de evidência.
O que é a supressão de testosterona associada ao estresse?
O principal conceito desenvolvido pelos autores é que a redução da testosterona durante períodos prolongados de estresse representa, na maioria das vezes, uma adaptação fisiológica reversível, e não um estado patológico de deficiência androgênica.
Em treinamentos militares, competições esportivas de longa duração e períodos de restrição energética importante, a queda da testosterona ocorre de maneira coordenada com alterações de outros eixos hormonais, incluindo aumento do cortisol, redução da leptina e modificações na secreção pulsátil de GnRH, FSH e LH, impactando consequentemente a produção testicular.
Paralelamente, o fígado aumenta a produção da globulina ligadora de hormônios sexuais (SHBG), mediada pela ativação do HNF-4α, reduzindo ainda mais a fração de testosterona livre circulante.
Esse conjunto de respostas parece funcionar como mecanismo de economia energética, priorizando funções essenciais para a sobrevivência em detrimento da reprodução.
Os autores propõem que essa resposta seja interpretada dentro de um espectro denominado stress-associated testosterone suppression (SATS), caracterizado por supressão funcional do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal sem lesão estrutural.
Nessa condição, a redução da testosterona tende a ser proporcional à intensidade e à duração do estresse, podendo normalizar após recuperação nutricional, redução da carga de treinamento ou resolução do fator de estresse desencadeante.
Essa interpretação ajuda a explicar por que muitos indivíduos apresentam testosterona baixa associada a gonadotrofinas normais ou discretamente reduzidas, sem preencher os critérios clássicos de hipogonadismo hipogonadotrófico patológico.
Por que uma dosagem isolada pode levar a erro diagnóstico?
Ainda é muito comum que homens com uma única dosagem reduzida de testosterona recebam diagnóstico de hipogonadismo e iniciem terapia de reposição hormonal sem investigação adequada do contexto clínico.
Este é um erro diagnóstico, e o artigo reforça que a testosterona é um hormônio altamente sensível ao estado metabólico do organismo.
Antes de considerar reposição hormonal, é fundamental avaliar fatores como perda ponderal recente, déficit energético, treinamento físico intenso, doenças sistêmicas, privação de sono e estresse psicológico.
Em muitos casos, corrigir esses fatores pode restaurar espontaneamente a função do eixo gonadal.
Quando suspeitar de hipogonadismo verdadeiro?
A principal mensagem é que nem toda testosterona baixa significa hipogonadismo.
Em homens submetidos a estresse físico ou metabólico prolongado, a redução da testosterona pode representar uma adaptação transitória do organismo, e não uma falência do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal.
Essa distinção evita diagnósticos equivocados, reduz o risco de reposição hormonal desnecessária e reforça um princípio fundamental da Endocrinologia: resultados laboratoriais devem sempre ser interpretados em conjunto com a fisiologia e o contexto clínico do paciente.
O Posicionamento Brasileiro sobre Hipogonadismo Masculino (SBEM) reforça que o diagnóstico exige obrigatoriamente a presença de sinais e sintomas compatíveis, associados à confirmação laboratorial de testosterona total baixa em duas dosagens matinais, entre 7h e 10h, realizadas em jejum e em condições padronizadas.
Valores de testosterona total < 264 ng/dL sustentam o diagnóstico, enquanto níveis > 350 ng/dL praticamente o afastam.
Nos casos com valores intermediários, entre 264 e 350 ng/dL, ou em condições que alteram a SHBG, recomenda-se calcular a testosterona livre, considerando < 6,5 ng/dL como ponto de corte para deficiência androgênica.
Dessa forma, uma dosagem isolada de testosterona reduzida, especialmente em indivíduos submetidos a estresse físico, restrição energética ou doença aguda, não deve ser interpretada automaticamente como hipogonadismo nem motivar o início de terapia de reposição hormonal.
Autoria

Paulo Melo
Conteudista médico na Afya. Formado pela Universidade Federal do Ceará (UFC) com residências em Endocrinologia pela Santa Casa Belo Horizonte. Atualmente, mestrando em Ciências e Saúde (UFPI) e professor do Afya Centro Universitário.
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