Pacientes em estado crítico passam por fases metabólicas distintas — catabólica aguda, de estabilização e de recuperação — que exigem estratégias nutricionais diferentes.
A terapia nutricional é fundamental na medicina intensiva; no entanto, estratégias convencionais de oferta de nutrientes aplicadas de forma padronizada a todos os pacientes podem não levar em conta as alterações metabólicas dinâmicas e a variabilidade individual inerentes à doença crítica.
Metodologia
Esta revisão, publicada em 2026 na revista Current Opinion in Clinical Nutrition and Metabolic Care, propõe uma estratégia escalonada e adaptada às fases, visando alinhar a terapia nutricional a um modelo conceitual de três etapas metabólicas: fase catabólica aguda, fase de estabilização e fase de recuperação.
Resultados encontrados e discussão
Ensaios clínicos randomizados demonstraram consistentemente a ausência de benefícios — e o potencial risco de danos — associados à oferta precoce de energia ou proteínas em doses plenas, particularmente em pacientes com falência grave de órgãos.
A fase catabólica aguda caracteriza-se por inflamação sistêmica, picos de hormônios do estresse e resistência à insulina; nessa etapa, a subalimentação permissiva minimiza a sobrecarga metabólica. Na fase de estabilização, a redução dos marcadores inflamatórios e a melhora da função orgânica permitem um aumento cauteloso da oferta nutricional, embora biomarcadores como hiperglicemia e hipofosfatemia possam indicar que o paciente ainda não está apto para receber a meta nutricional completa. Na fase de recuperação, a inflamação cede e a mobilidade melhora, exigindo maior aporte energético e proteico em conjunto com a reabilitação física.
Os pacientes podem regredir para fases anteriores, tornando necessária a redução da oferta nutricional.
Conclusão
A oferta precoce de nutrição em dose plena não melhorou os desfechos e pode ser prejudicial; a subalimentação permissiva é fisiologicamente adequada na fase catabólica aguda.
A estratégia nutricional escalonada e adaptada às fases — iniciar com doses baixas, progredir criteriosamente e individualizar o tratamento ao longo do tempo — oferece uma abordagem de precisão para alinhar a oferta de nutrientes à capacidade metabólica, minimizando os riscos de superalimentação ou subalimentação.
As prioridades futuras incluem a validação de biomarcadores, a identificação de fenótipos metabólicos e o teste de algoritmos de nutrição adaptativa para otimizar a terapia nutricional.
Autoria

Letícia Japiassú
Conteudista médica na Afya. Graduação em medicina Unirio. Pós Graduação em Endocrinnologia PUC-RJ. Especialista em Clínica Médica, Nutrologia e Terapia Nutricional Parenteral e Enteral.
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