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Endocrinologia8 julho 2026

Survodutida semanal para obesidade em adultos sem diabetes

Survodutida semanal foi associada à perda de peso significativa em adultos com obesidade sem diabetes no estudo SYNCHRONIZE-1.

Muito em alta no mundo científico da Endocrinologia, estão os análogos de incretinas e os agonistas duplos com ação em receptores metabólicos. Além de terem revolucionado o tratamento do diabetes mellitus tipo 2 e do sobrepeso/obesidade, ainda há muitos estudos sobre os demais benefícios cardiometabólicos dessa classe medicamentosa. Recentemente, foi publicado um artigo no The New England Journal of Medicine sobre a survodutida semanal e seu papel no tratamento de adultos com obesidade e sem diabetes mellitus tipo 2. A seguir, veja as principais informações do estudo.

Por que estudar novas terapias para obesidade?

A obesidade afeta aproximadamente 1 bilhão de adultos em nível global, sendo caracterizada por excesso de tecido adiposo e associada a diversas complicações de saúde, com redução da qualidade de vida e aumento do risco de morte. Nesse cenário, torna-se crucial que novas medicações sejam estudadas e avaliadas para aprimorar o tratamento dessa condição e de suas complicações.

Os análogos de GLP-1 e agonistas relacionados emergem como medicamentos promissores no tratamento do excesso de peso, sendo um dos alvos terapêuticos mais estudados nos últimos tempos.

Em um estudo de fase 2 envolvendo pessoas com IMC > 27 kg/m² e sem diabetes, a survodutida levou a uma perda de peso substancial ao longo de 76 semanas de acompanhamento. Dados os resultados iniciais, um programa internacional de fase 3, chamado SYNCHRONIZE, está avaliando essa medicação como potencial tratamento para obesidade.

No presente artigo, será avaliado o SYNCHRONIZE-1, um ensaio clínico de fase 3 que visou avaliar a eficácia e a segurança da survodutida, aliada a déficit calórico e aumento da prática de atividade física, como alvo terapêutico para adultos com obesidade e sem diabetes.

Como foi conduzido o estudo SYNCHRONIZE-1?

Foi conduzido um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e placebo-controlado em 116 clínicas de 14 países durante 76 semanas de seguimento.

Os participantes elegíveis deveriam ter idade igual ou superior a 18 anos, IMC > 30 kg/m² ou IMC > 27 kg/m² com pelo menos uma condição associada ao excesso de peso, como hipertensão, dislipidemia, apneia obstrutiva do sono, doença cardiovascular ou doença esteatótica hepática metabólica. Também era necessário ter pelo menos uma tentativa malsucedida de perda de peso.

Como critérios de exclusão, estavam: pacientes com perda de peso > 5% ou uso de medicações antiobesidade nos últimos 3 meses, histórico de cirurgia bariátrica, HbA1c > 6,5%, histórico de diabetes mellitus tipo 1 ou tipo 2, tratamento com drogas antidiabéticas nos últimos 3 meses, obesidade de causa endócrina, hipertensão mal controlada, distúrbios do humor mal controlados, eventos cardiovasculares nos últimos 3 meses e histórico de pancreatite, carcinoma medular de tireoide ou neoplasia endócrina múltipla tipo 2.

Os participantes foram randomizados em proporção 1:1:1 para receber survodutida 3,6 mg, survodutida 6,0 mg ou placebo por via subcutânea, uma vez por semana. Além disso, foram encorajados a realizar déficit calórico de 500 kcal por dia e atividade física de intensidade moderada por 150 minutos semanais.

Os desfechos primários analisados foram a mudança percentual do peso corporal desde o início até a semana 76 e a proporção de participantes com perda de pelo menos 5% do peso corporal. Os desfechos secundários incluíram perdas de pelo menos 10%, 15% e 20%, além de mudança na circunferência abdominal, pressão arterial e escores de comportamento alimentar.

Quais foram os principais resultados?

O estudo foi conduzido no período de novembro de 2023 a fevereiro de 2026. Contou com 725 participantes, alocados da seguinte forma: 241 para receber survodutida 3,6 mg, 242 para receber survodutida 6,0 mg e 242 no grupo placebo.

A média de idade dos participantes foi de 47,1 anos, sendo 40,6% do sexo masculino e 67,6% brancos. O IMC médio foi de 37,9 kg/m², com peso médio de 108,8 kg, circunferência abdominal média de 115 cm e 94,9% dos participantes com IMC maior ou igual a 30 kg/m².

A mudança de peso ao final da semana 76 foi de -12,2%, ou -13,1 kg, no grupo survodutida 3,6 mg/semana; -13%, ou -14,1 kg, no grupo survodutida 6,0 mg/semana; e -5,4%, ou -5,9 kg, no grupo placebo.

A dose de 6,0 mg de survodutida também reduziu 27,8% da gordura corporal total, 34% da gordura visceral, 63,1% da gordura hepática e 9,8% da massa magra. Também foram observadas reduções em circunferência abdominal, HbA1c, glicemia de jejum e fatores de risco cardiovascular, além de melhora em padrões de comportamento alimentar.

Segurança e eventos adversos

Quanto aos efeitos colaterais, a maioria foi de leve a moderada intensidade, sendo os principais relacionados ao trato gastrointestinal, como náuseas, vômitos, diarreia e constipação. Além disso, a maioria dos eventos esteve associada ao escalonamento de doses.

O que os achados indicam para a prática clínica?

Nesse ensaio clínico randomizado de fase 3, a survodutida foi associada à perda de peso significativa quando comparada ao placebo em pacientes com obesidade e sem diabetes.

Como qualquer estudo, esse também contou com pontos fortes e limitações. Entre os pontos fortes, destaca-se a inclusão de participantes de diversas regiões do mundo, com grande variedade étnica. Além disso, 40,6% dos participantes eram homens, grupo que geralmente apresenta menor perda de peso do que as mulheres quando em uso de análogos de GLP-1.

Como limitações, a comparação foi feita apenas com placebo, ocorreu uma quantidade importante de desistências ao longo do estudo e foram excluídos participantes com hipertensão e distúrbios do humor mal controlados, bem como aqueles que já haviam apresentado eventos cardiovasculares.

Mensagem prática

A survodutida é um potencial alvo terapêutico capaz de promover perda ponderal significativa em adultos com obesidade e sem diabetes.

Ainda assim, são necessários mais estudos para elucidar todos os mecanismos de ação, vantagens e desvantagens da medicação em curto e longo prazo.

Autoria

Foto de Juliane Braziliano

Juliane Braziliano

Editora médica na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE). Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atuação na Afya e em consultório particular, além de telemedicina.

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