O manejo do diabetes busca alcançar controle glicêmico duradouro e prevenir complicações microvasculares e macrovasculares.
A American Diabetes Association enfatiza uma abordagem centrada no paciente, combinando modificação do estilo de vida, terapia farmacológica e controle dos fatores de risco.
O tratamento deve ser individualizado conforme o estado glicêmico, a hemoglobina glicada (HbA1c), a glicemia de jejum, comorbidades, risco cardiovascular e preferências do paciente.
Nesse contexto, estratégias adjuvantes, incluindo suplementação de vitamina D e magnésio, podem oferecer benefícios adicionais modestos.
A deficiência crônica de magnésio compromete o metabolismo energético e pode favorecer hiperinsulinemia e resistência à insulina, aumentando o risco de diabetes mellitus tipo 2 (DM2).
Em indivíduos com diabetes, o magnésio é importante para a sinalização da insulina, o transporte de glicose e a função das células beta pancreáticas. Sua deficiência tem sido associada a controle glicêmico inadequado, dislipidemia e maior risco cardiometabólico.
Como foi conduzido o estudo?
O estudo foi um ensaio clínico prospectivo, randomizado, duplo-cego, controlado por placebo e com grupos paralelos.
A publicação, realizada em julho de 2026 na Frontiers in Endocrinology, avaliou o efeito da suplementação oral de magnésio na HbA1c e em biomarcadores metabólicos em adultos com DM2.
Adultos com 18 anos ou mais e diagnóstico de DM2 foram randomizados na proporção 1:1 para receber:
- óxido de magnésio 500 mg, equivalente a 302 mg de magnésio elementar; ou
- placebo.
Os critérios de elegibilidade incluíram HbA1c ≥ 7,0% e depuração de creatinina > 30 mL/min.
Parâmetros bioquímicos e clínicos foram avaliados no início do estudo e em três visitas de acompanhamento ao longo de 12 meses.
Quais foram os principais resultados?
Um total de 247 participantes foi incluído na análise.
A suplementação com óxido de magnésio reduziu significativamente a glicemia de jejum em um subgrupo da coorte.
Em relação à HbA1c, houve redução modesta, mas sem significância estatística, no grupo magnésio em comparação ao placebo: −0,30% versus −0,05%; p = 0,145.
Apesar disso, uma proporção maior de participantes atingiu a meta de HbA1c < 7% no grupo magnésio em comparação ao placebo: 14,0% versus 6,0%; p = 0,043.
Quem pareceu se beneficiar mais?
As reduções de HbA1c foram mais pronunciadas entre participantes com hipomagnesemia basal ou com duração do diabetes de até 15 anos.
Esse achado sugere que o benefício da suplementação pode depender do perfil basal do paciente, especialmente da presença de deficiência de magnésio.
Assim, o estudo aponta para possível maior utilidade em subgrupos selecionados, e não para suplementação universal de todos os pacientes com DM2.
Houve impacto em outros parâmetros metabólicos?
Não foram observadas diferenças entre os grupos em outros parâmetros metabólicos, desfechos clínicos ou reações adversas a medicamentos.
Esse ponto é importante porque, embora o magnésio tenha plausibilidade biológica no metabolismo glicêmico e cardiometabólico, o ensaio não demonstrou benefício amplo sobre múltiplos parâmetros metabólicos.
Do ponto de vista de segurança, a suplementação com óxido de magnésio não comprometeu a segurança no período avaliado.
Como interpretar os achados?
O estudo sugere que a suplementação oral de magnésio pode ter efeito adjuvante modesto no controle glicêmico de adultos com DM2, especialmente em pacientes com baixos níveis basais de magnésio ou menor tempo de diagnóstico.
No entanto, a redução da HbA1c não atingiu significância estatística no grupo geral, o que limita a força da conclusão.
Portanto, os achados não sustentam a suplementação universal de magnésio como estratégia para controle glicêmico em todos os pacientes com DM2.
A interpretação mais prudente é considerar o rastreamento direcionado e a correção da deficiência de magnésio como medida adjuvante, de baixo custo e potencialmente segura, especialmente em pacientes com hipomagnesemia, glicemia de jejum subótima ou perfil clínico compatível.
Mensagem prática
Em adultos com diabetes tipo 2, a suplementação oral com óxido de magnésio por 12 meses mostrou tendência favorável no controle glicêmico, com maior proporção de pacientes atingindo HbA1c < 7%.
No entanto, a redução média da HbA1c foi modesta e não significativa no grupo geral.
Os maiores sinais de benefício ocorreram em pacientes com hipomagnesemia basal ou menor duração do diabetes.
Na prática, o estudo apoia a correção direcionada da deficiência de magnésio como estratégia adjuvante no DM2, mas não justifica suplementação indiscriminada para todos os pacientes.
A conduta deve considerar níveis séricos de magnésio, função renal, risco de efeitos adversos, tratamento antidiabético em uso e objetivos individualizados de controle glicêmico.
Autoria

Letícia Japiassú
Conteudista médica na Afya. Graduação em medicina Unirio. Pós Graduação em Endocrinnologia PUC-RJ. Especialista em Clínica Médica, Nutrologia e Terapia Nutricional Parenteral e Enteral.
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