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Endocrinologia11 agosto 2026

Setmelanotida para tratamento de obesidade hipotalâmica adquirida

Estudo de fase 3 mostra que a setmelanotida reduz IMC e fome em crianças e adultos com obesidade hipotalâmica adquirida.

Você já ouviu falar em Obesidade Hipotalâmica Adquirda? Acha que o tratamento igual aos demais casos de Obesidade? 

Recentemente, a famosa revista The New England Journal of Medicine, lançou um artigo sobre a Setmelanotida – medicação com papel promissor no tratamento desse tipo mais raro de obesidade: a obesidade hipotalâmica adquirida. Vamos ver o que temos de informações interessantes. 

setmelanotida na obesidade hipotalâmica adquirida

Introdução: 

Obesidade hipotalâmica adquirida é caracterizada por um ganho de peso acelerado e sustentado no contexto de um dano hipotalâmico decorrente de lesão, tumores supraselares ou a ressecção cirúrgica dos mesmos, trauma ou processos inflamatórios/infecciosos. 

Os sintomas mais comumente apresentados são: hiperfagia, deficiência hormonal pituitária, fadiga, distúrbios do sono, desregulação do termostato, redução do gasto energético com consequente desbalança de energia corporal. 

Infelizmente, ainda há lacunas na literatura sobre o tratamento dessa condição. Os famosos análogos de GLP-1 e seus derivados já foram tentados como forma de tratamento, porém não agem diretamente no local do problema hipotalâmico. 

A rota do receptor melanocortina-4 (MC4R) se origina no hipotálamo e se extende para o sistema nervoso central e medula espinhal, desenvolvendo papel importante no controle do peso corporal pela regulação da fome e saciedade, consumo de alimentos e gasto energético. Qualquer dano nessa rota, pode afetar a expressão do hormônio estimulante alfa-melanócito (α-MSH), o que acaba aumentando a fome. 

A setmelanotida entra nesse cenário por ser um análogo do ligante endógeno do α-MSH que é aprovada para o tratamento de doenças relacionadas ao distúrbio da rota do receptor melanocortina-4 (MC4R). 

O presente estudo então, visa averiguar a eficácia e segurança da setmelanotida na população adulta e pediátrica com diagnóstico de obesidade hipotalâmica adquirida. 

Metodologia: 

Foi conduzido um estudo de fase 3, randomizado, duplo-cego, placebo-controlado que ocorreu em 29 locais no Canadá, Alemanha, Japão, Holanda, Reino Unido e Estados Unidos.  

Pacientes elegíveis deveriam ter: pelo menos 4 anos de idade, com obesidade hipotalâmica adquirida – definida por índice de massa corporal (IMC) maior ou igual a 95 percentil para sexo e idade para aqueles com idade inferior a 18 anos ou pelo menos > 30 kg/m² para aqueles com idade ≥ a 18 anos e histórico de lesão ou tumor hipotalâmico. 

Os critérios de exclusão foram: perda de peso > 2% para pacientes com idade ≥18 anos ou redução de IMC maior que 2% naqueles entre 4 e 18 anos de idade pelo menos 3 meses antes da randomização. 

Nesse estudo, os participantes foram randomizados em 2:1 para receber setmelanotida na dose de 1,5 a 3,0mg ou placebo subcutâneo 1x ao dia por 52 semanas depois de um período de escalonamento de dose, com duração total de aproximadamente 60 semanas. 

O desfecho primário analisado foi a mudança percentual do IMC do início do estudo até a semana 52 após o período de escalonamento de doses. Os desfechos secundários foram:  redução do IMC em pelo menos 5% entre os participantes com idade ≥ 18 anos ou uma redução do escore z do IMC de pelo menos 0,2 pontos entre os participantes com menos de 18 anos e variação na média semanal do escore de fome diária máxima (indo de 0 a 10), feito em participantes com pelo menos 12 anos de idade. 

Resultados: 

De 26 de abril de 2023 a 18 de março de 2025, um total de 120 participantes foram selecionados para receber setmelanotida ( n=81)ou placebo (n=39). A média de idade foi de 19,9 +- 13,8 anos e dentre os participantes com idade ≥ a 18 anos, a média de IMC foi de 41kg/m² e para aqueles com menos de 18 anos, o Z escore de IMC foi de 3,61 +-1,66. 

Após 52 semanas do período de escalonamento de doses, o tratamento com setmelanotida associou-se a uma alteração média de mínimos quadrados no IMC de -19,8 pontos percentuais após ajuste pelo placebo. A alteração média de mínimos quadrados no IMC na semana 52 foi de -16,5% com setmelanotida e 3,3% com placebo, bem comoa mudança no escore de fome máxima foi de -2,73 no grupo setmelanotida de -1,45 no grupo placebo. 

Eventos adversos foram reportados em 100% dos participantes do grupo setmelanotida  e 90% do grupo placebo, sendo os principais: hiperpigmentação cutânea, náuseas, vômitos, dor de cabeça. 

Discussão: 

Nesse estudo promissor para  análise da setmelanotida no tratamento da obesidade hipotalâmica adquirida, foi suportada a hipótese de que tal medicação pode ser uma ferramenta crucial no manejo terapêutico dessa condição mais específica de obesidade. 

Como qualquer estudo, esse contou com pontos de força e limitação. Como principal ponto limitante, pode-se dizer a duração do estudo que foi pequena (aproximadamente 1 ano), para uma doença na qual um tratamento de lonzo prazo é requerido. Além disso, apesar de ter sido mostrado redução da fome, não foi possível realizar a análise do gasto energético, contando como outro ponto limitante. 

Conclusão e Mensagem prática: 

Setmelanotida tende a proporcionar grandes reduções no IMC e nos níveis de fome de forma mais significativa que o placebo ao longo das 52 semanas de seguimento em pacientes entre 4-66 anos e com obesidade hipotalâmica adquirida. 

Autoria

Foto de Juliane Braziliano

Juliane Braziliano

Editora médica na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE). Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atuação na Afya e em consultório particular, além de telemedicina.

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