O diabetes mellitus gestacional (DMG) é uma condição na qual ocorre aumento da glicemia durante a gestação. Dentre os fatores de risco, encontram-se idade materna avançada, sobrepeso/obesidade, histórico pessoal prévivo de DMG ou em familiares de 1 grau, sedentarismo, dentre outros.
Com o aumento crescente da obesidade e síndrome metabólica, a incidência de DMG vem aumentando exponencialmente, trazendo riscos tanto para a mãe quanto para o feto. No entanto, pouco se fala sobre os desfechos a longo prazo pós DMG.
Recentemente, foi publicado um artigo que visou abordar a saúde de mães com DMG e seus filhos após 4,5 anos de seguimento, comparando pacientes que tiveram controle glicêmico rigoroso versus controle glicêmico mais flexível. Vamos ver o que o artigo nos trouxe de relevante.
Introdução
DMG é um problema de saúde a nível mundial, trazendo grandes riscos materno-fetais a curto e longo prazo. O tratamento visa um melhor controle da glicemia e a maioria dos guidelines e consensos recomendam os seguintes parâmetros de acompanhamento: glicemia de jejum (GJ) < 95 mg/dl; glicemia pós prandial de 1h < 133-141 mg/dl e glicemia pós prandial de 2h < 115-121 mg/dl. O objetivo do presente estudo foi comparar alvos mais rígidos com alvos mais flexíveis de controle glicêmicos em pacientes com DMG e seu impacto tanto nas mães quando nas crianças após 4,5 anos de seguimento.
Metodologia
O estudo TARGET foi um ensaio clínico randomizado (ECR) que ocorreu entre maio de 2015 e novembro de 2017 em 10 hospitais na Nova Zelândia.
Todos os hospitais foram inicialmente orientados a manter níveis mais flexíveis de controle glicêmico ( GJ <99 mg/dl/ Glicemia pós prandial de 1h < 144 mg/dl e glicemia pós prandial de 2h < 126 mg/dl) para as pacientes com diagnóstico de DMG e a cada 4 meses 2 hospitais eram randomizados para adotarem níveis glicêmicos mais rígidos ( GJ < 90 mg/dl, glicemia pós prandial de 1h ≤ 133 mg/dl e pós prandial de 2h ≤ 121 mg/dl).
As análises post-hoc desde estudo de coorte prospectiva ocorreram então entre outubro de 2020 e Junho de 2022. 315 de 427 mães foram selecionadas e 313/427 crianças também foram selecionadas para a análise dos desfechos.
Os desfechos primários foram níveis de hemoglobina glicada (Hba1c) e índice de massa corporal (IMC) z-score para as crianças. Já os desfechos secundários foram: risco cardiometabólico materno e tamanho corporal e , para a criança, tamanho corporal, visão, audição, função motora e desfechos comportamentais.
Resultados
Para a surpresa dos avaliadores do estudo, os resultados mostraram que a Hba1c materna foi similar entre os grupos de controle glicêmico rígido e flexível, bem como o IMC das crianças avaliadas. Os piores desfechos foram em vistos no grupo controle mais rígido em relação à dificuldade de coordenação motora nessas crianças e alterações comportamentais com maior tendência a autismo.
Discussão
As avaliações do presente estudo revelaram resultados bem diferentes do imaginado, com mais risco de espectro autista e dificuldades motoras nas crianças cujas mães tiveram DMG com controle glicêmico mais rigoroso.
O presente estudo contou com pontos de força e limitações. O principal ponte forte do estudo foi tentar demostrar a longo prazo quais são os efeitos de diversos controles glicêmicos tanto nas mães com DMG quanto em seus filhos.
Já a principal limitação foi o fato de que os efeitos adversos motores e de neurodesenvolvimento avaliados levaram em consideração apenas questionários qualificados , faltando um profissional de saúde para afirmar ou excluir as principais hipóteses avaliadas.
Conclusão
Ao se comparar um controle glicêmico mais rigoroso com um controle glicêmico mais flexível em mulheres com DMG, não se observou após 4,5 anos de seguimento uma redução significativa da Hba1c materna ou menores índices de IMC nas crianças filhos das mães avaliadas com DMG.
Sendo assim, mais estudos são necessários para avaliar os diversos parâmetros glicêmicos e seus desfechos materno-fetais a curto e longo prazo.
Autoria

Juliane Braziliano
Médica formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE) Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) Editora Médica de Endocrinologia do Portal Afya e Whitebook
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