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Endocrinologia26 março 2026

Risco de demência em pacientes com DM2 é maior com inibidores de SGLT2 ou DPP-4?

Inibidores de SGLT-2 em DM2 associam-se a menor risco de demência em comparação aos de DPP-4, com possível efeito neuroprotetor.

O diabetes mellitus tipo 2 (DM2) é um fator de risco conhecido para o desenvolvimento de demência, porém ainda não sabemos ao certo quais são os benefícios de determinadas terapias anti-diabéticas na função cognitiva. 

Dados recentes sugerem que os inibidores de SGLT-2 podem conferir efeito neuroprotetor nos pacientes com DM2 quando comparados com pacientes em uso de inibidores de DDP-4. Recentemente, foi publicada uma revisão sistemática/meta-análise sobre esse tema.  

Vamos conferir o que temos de informações interessantes sobre esse artigo. 

Unrecognizable female nurse measuring blood sugar during home visit. Healthcare professional using glucose meter device to check patient's blood sugar.

Introdução: 

Demência é uma desordem neurodegenerativa caracterizada por declínio cognitivo e perda de independência funcional que vem se tornando um grande problema de saúde pública a nível global. 

Sendo assim, estratégias para prevenção de demência devem ser colocadas em prática com mais urgência. Dentre os fatores de risco modificáveis, o diabetes mellitus tipo 2 (DM2) é sabidamente associado ao aumento do risco de Doença de Alzheimer e Demência vascular. A fisiopatologia em comum envolve resistência insulínica, estresse oxidativo, inflamação crônica e disfunção microvascular. 

Os inibidores de SGLT-2 são medicações com proteção cardiovascular e renal e que em alguns estudos vêm comprovando impacto benéfico na saúde neurológica por mecanismos relacionados à melhora do metabolismo cerebral, estabilização da barreira hemato-encefálica e atenuação da neuroinflamação. Em contrapartida, os inibidores de DDP-4, vêm mostrando efeito neutro em desfechos cognitivos. 

O presente estudo é uma revisão sistemática e meta-análise que visa avaliar o risco de demência em pacientes com Dm2 em uso de inibidores de SGLT-2 versus inibidores de DDP-4, além de explorar tais associações para os diferentes tipos de demência (ex: doença de Alzheimer e demência vascular), bem como características demográficas dos pacientes ( ex: idade, sexo) e tipos específicos de inibidores de SGLT-2.  

Metodologia: 

Em base de dados eletrônicos, foram pesquisados estudos até a data de 01 de Junho de 2025. 

Os critérios de inclusão foram: Ensaios clínicos randomizados (ECRS) e estudos de coorte prospectivos/retrospectivos envolvendo adultos com idade igual ou superior a 18 anos, com DM2 e tratamento iniciado com inibidores de SGLT-2 e comparados com o grupo que iniciou o tratamento com os inibidores de DDP-4. 

O desfecho primário analisado foi o desenvolvimento de demência por todas as causas diagnosticada durante o período de seguimento. Desfechos secundários foram: incidência de Doença de Alzheimer e demência vascular, bem como análise de subgrupos: idade > 65 anos versus idade < 65 anos, sexo masculino versus sexo feminino; e medicamentos específicos da classe dos inibidores de SGLT-2 (dapaglifozina, canaglifozina e empaglifozina). 

Os critérios de exclusão foram: estudos que não envolviam humanos, estudos de seção transversal ou em braço único, revisões e relatos de casos. 

Resultados: 

Foram selecionados 9 estudos que preencheram todos os critérios de inclusão. Os estudos eram de coorte observacionais retrospectivos publicados entre 2021 e 2025. 

No total, apresentaram 2.433.086 participantes, sendo 601.692 tratados no grupo de inibidores de SGLT-2 e 1.831.394 tratados no grupo inibidores de DDP-4. 

Os estudos ocorreram em diversos locais tais como: Canadá, Hong-Kong, Coréia do Sul, China, Taiwan e Reino Unido. Os pacientes que iniciaram o tratamento com inibidores de SGLT-2 eram um pouco mais jovens do que os pacientes do grupo inibidores de DDP4 ( 56,8-72,4 anos versus 61,8-72,4 anos). Além disso, no grupo dos inibidores de SGLT-2, a proporção de mulheres foi menor quando comparada ao grupo de inibidores da DDP-4. 

Os inibidores de SGLT-2 foram associados a menor risco de demência quando comparados aos inibidores de DDP-4. Quando a análise foi feita por tipo de demência,  eles também demonstraram menor risco para Doença de Alzheimer e Demência Vascular. 

Quanto à análise de subgrupos, o risco de demência foi menor nos pacientes em uso de inibidores de SGLT-2 e idade < 65 anos, não sendo significativo a redução do risco em pacientes > 65 anos. Quanto ao sexo, a classe medicamentosa apresentou redução do risco tanto em homens quanto em mulheres. E, por fim, a dapaglifozina e a empaglifozina foram as medicações mais associadas à redução do risco de demência, enquanto a canaglifozina não demonstrou tal associação. 

Discussão: 

A presente meta-análise mostrou que os inibidores de SGLT-2 estão fortemente associados a um menor risco de demência quando comparados com os inibidores de DDP-4. 

Tais achados são muito valiosos para a prática clínica, visto que traz luz para a necessidade de priorizar o uso dos inibidores de SGLT-2 em pacientes com maior risco para desenvolver demência, bem como para os pacientes nos quais também se deseja proteção cardiovascular e renal. 

No entanto, como qualquer estudo, esse também contou com algumas limitações tais como: caráter observacional e pouco tempo de seguimento. 

Conclusão e Mensagem Prática: 

A presente meta-análise demostrou uma associação significativa entre os pacientes com DM2 em uso de inibidores de SGLT-2 e a redução do risco de desenvolvimento de demência, incluindo Doença de Alzheimer e Demência Vascular quando comparados a pacientes com DM2 e em uso de Inibidores de DDP-4. Os benefícios foram observados em ambos os sexos e mesmo em populações de áreas demográficas diferentes, sendo mais significativos em pacientes em uso de dapaglifozina ou empaglifozina. 

Tais achados suportam o potencial papel dos inibidores de SGLT2- na preservação da função cognitiva em pacientes com DM2. No entanto, mais estudos são necessários para validar os mecanismos dessa associação de forma a melhorar o manejo do DM2 e prevenir o risco de demência nesse perfil de pacientes. 

 

Autoria

Foto de Juliane Braziliano

Juliane Braziliano

Médica formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE) Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) Editora Médica de Endocrinologia do Portal Afya e Whitebook

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