A terapia hormonal afirmativa de gênero (THAG) é um dos pilares do cuidado em saúde de pessoas transgênero. Entretanto, seu impacto sobre o risco cardiovascular permanece motivo de debate, sobretudo devido a resultados conflitantes de estudos observacionais prévios, que frequentemente sugeriram aumento do risco de eventos cardiovasculares em mulheres trans.
Uma importante limitação dessas investigações foi a ausência de ajuste para fatores socioeconômicos e de estilo de vida, potenciais fatores de confusão capazes de influenciar significativamente os desfechos cardiovasculares. Nesse contexto, van Zijverden e colaboradores conduziram um amplo estudo de coorte retrospectivo para reavaliar essa associação utilizando dados nacionais da Holanda.
Como o estudo avaliou risco cardiovascular na população transgênero?
O estudo incluiu 4.331 indivíduos trans acompanhados no Amsterdam University Medical Centre, sendo 2.714 mulheres trans e 1.617 homens trans que iniciaram THAG entre 1972 e 2018.
Os eventos cardiovasculares foram identificados por meio do registro nacional holandês entre 2012 e 2022, totalizando 23.907 pessoa-anos de seguimento para mulheres trans e 13.457 pessoa-anos para homens trans.
Os autores avaliaram a incidência de infarto agudo do miocárdio (IAM), acidente vascular cerebral isquêmico (AVC) e tromboembolismo venoso (TEV), comparando-a com a população geral por meio de razões de incidência padronizadas (SIR), ajustadas para idade, sexo, ano-calendário e nível socioeconômico, estimado a partir de escolaridade, renda e histórico de emprego.
Além disso, foram exploradas diferenças em índice de massa corporal, tabagismo e consumo de álcool.
Quais foram os resultados em mulheres trans?
Os resultados mostraram um padrão distinto entre mulheres e homens trans.
Nas mulheres trans, o risco de IAM foi significativamente menor que o observado em homens cisgênero da população geral (SIR ajustada 0,50; IC95% 0,32–0,71), enquanto o risco de AVC foi semelhante (SIR 0,94; IC95% 0,72–1,19).
Em contrapartida, o risco de TEV permaneceu significativamente aumentado (SIR 1,81; IC95% 1,33–2,35).
Quais foram os resultados em homens trans?
Nos homens trans, observou-se aumento expressivo do risco de IAM em comparação às mulheres cisgênero (SIR 4,20; IC95% 2,72–6,01), além de aumento mais discreto do risco de AVC (SIR 1,55; IC95% 1,01–2,20), sem incremento significativo do risco de TEV.
O ajuste para fatores socioeconômicos exerceu impacto mínimo sobre essas estimativas, e as diferenças de estilo de vida em relação à população geral foram pequenas.
Como interpretar os achados?
Os autores destacam que esses achados ajudam a esclarecer um paradoxo observado na literatura. Diferentemente de estudos anteriores, os dados sugerem que a terapia estrogênica em mulheres trans não aumenta o risco de eventos arteriais, sendo compatível com os efeitos favoráveis do estradiol sobre pressão arterial e perfil lipídico.
O aumento persistente do risco de TEV, por outro lado, reforça o conhecido efeito pró-trombótico dos estrogênios.
Nos homens trans, o aumento do risco de IAM e, em menor magnitude, de AVC é consistente com as alterações cardiometabólicas induzidas pela testosterona, incluindo piora do perfil lipídico, aumento da pressão arterial e possível contribuição da eritrocitose induzida pelo tratamento.
O que muda para a prática clínica?
Do ponto de vista clínico, o estudo reforça que a THAG não deve ser considerada uniformemente um fator de risco cardiovascular.
O perfil de risco varia conforme o hormônio utilizado: mulheres trans apresentam maior atenção ao risco tromboembólico, enquanto homens trans necessitam de monitorização mais rigorosa dos fatores de risco cardiovascular tradicionais.
Embora o desenho observacional impeça inferências causais e ainda existam limitações relacionadas à ausência de ajuste para todos os potenciais fatores de confusão, como estresse de minoria e saúde mental, este representa um dos estudos mais robustos já realizados sobre o tema, utilizando uma coorte extensa, seguimento prolongado e dados nacionais padronizados.
Os resultados oferecem evidências importantes para individualizar o aconselhamento e o acompanhamento cardiovascular de pessoas trans em uso de terapia hormonal afirmativa de gênero.
Autoria

Erik Trovão
Redator em Endopapers. Formado em Medicina pela UFCG. Residência em Clínica Médica pelo HBL-SUS/PE. Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo HAM-SUS/PE. Titulo de especialista em Endocrinologia e Metabologia pela SBEM Mestre em neurociências pela UFPE. Preceptor da Residência de Endocrinologia do HC/UFPE.
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