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Endocrinologia10 julho 2026

Risco cardiovascular na população transgênero em uso de terapia hormonal

Estudo avaliou risco cardiovascular na população transgênero em uso de terapia hormonal afirmativa de gênero na Holanda.
Por Erik Trovão

A terapia hormonal afirmativa de gênero (THAG) é um dos pilares do cuidado em saúde de pessoas transgênero. Entretanto, seu impacto sobre o risco cardiovascular permanece motivo de debate, sobretudo devido a resultados conflitantes de estudos observacionais prévios, que frequentemente sugeriram aumento do risco de eventos cardiovasculares em mulheres trans.

Uma importante limitação dessas investigações foi a ausência de ajuste para fatores socioeconômicos e de estilo de vida, potenciais fatores de confusão capazes de influenciar significativamente os desfechos cardiovasculares. Nesse contexto, van Zijverden e colaboradores conduziram um amplo estudo de coorte retrospectivo para reavaliar essa associação utilizando dados nacionais da Holanda.

Como o estudo avaliou risco cardiovascular na população transgênero?

O estudo incluiu 4.331 indivíduos trans acompanhados no Amsterdam University Medical Centre, sendo 2.714 mulheres trans e 1.617 homens trans que iniciaram THAG entre 1972 e 2018.

Os eventos cardiovasculares foram identificados por meio do registro nacional holandês entre 2012 e 2022, totalizando 23.907 pessoa-anos de seguimento para mulheres trans e 13.457 pessoa-anos para homens trans.

Os autores avaliaram a incidência de infarto agudo do miocárdio (IAM), acidente vascular cerebral isquêmico (AVC) e tromboembolismo venoso (TEV), comparando-a com a população geral por meio de razões de incidência padronizadas (SIR), ajustadas para idade, sexo, ano-calendário e nível socioeconômico, estimado a partir de escolaridade, renda e histórico de emprego.

Além disso, foram exploradas diferenças em índice de massa corporal, tabagismo e consumo de álcool.

Quais foram os resultados em mulheres trans?

Os resultados mostraram um padrão distinto entre mulheres e homens trans.

Nas mulheres trans, o risco de IAM foi significativamente menor que o observado em homens cisgênero da população geral (SIR ajustada 0,50; IC95% 0,32–0,71), enquanto o risco de AVC foi semelhante (SIR 0,94; IC95% 0,72–1,19).

Em contrapartida, o risco de TEV permaneceu significativamente aumentado (SIR 1,81; IC95% 1,33–2,35).

Quais foram os resultados em homens trans?

Nos homens trans, observou-se aumento expressivo do risco de IAM em comparação às mulheres cisgênero (SIR 4,20; IC95% 2,72–6,01), além de aumento mais discreto do risco de AVC (SIR 1,55; IC95% 1,01–2,20), sem incremento significativo do risco de TEV.

O ajuste para fatores socioeconômicos exerceu impacto mínimo sobre essas estimativas, e as diferenças de estilo de vida em relação à população geral foram pequenas.

Como interpretar os achados?

Os autores destacam que esses achados ajudam a esclarecer um paradoxo observado na literatura. Diferentemente de estudos anteriores, os dados sugerem que a terapia estrogênica em mulheres trans não aumenta o risco de eventos arteriais, sendo compatível com os efeitos favoráveis do estradiol sobre pressão arterial e perfil lipídico.

O aumento persistente do risco de TEV, por outro lado, reforça o conhecido efeito pró-trombótico dos estrogênios.

Nos homens trans, o aumento do risco de IAM e, em menor magnitude, de AVC é consistente com as alterações cardiometabólicas induzidas pela testosterona, incluindo piora do perfil lipídico, aumento da pressão arterial e possível contribuição da eritrocitose induzida pelo tratamento.

O que muda para a prática clínica?

Do ponto de vista clínico, o estudo reforça que a THAG não deve ser considerada uniformemente um fator de risco cardiovascular.

O perfil de risco varia conforme o hormônio utilizado: mulheres trans apresentam maior atenção ao risco tromboembólico, enquanto homens trans necessitam de monitorização mais rigorosa dos fatores de risco cardiovascular tradicionais.

Embora o desenho observacional impeça inferências causais e ainda existam limitações relacionadas à ausência de ajuste para todos os potenciais fatores de confusão, como estresse de minoria e saúde mental, este representa um dos estudos mais robustos já realizados sobre o tema, utilizando uma coorte extensa, seguimento prolongado e dados nacionais padronizados.

Os resultados oferecem evidências importantes para individualizar o aconselhamento e o acompanhamento cardiovascular de pessoas trans em uso de terapia hormonal afirmativa de gênero.

Autoria

Foto de Erik Trovão

Erik Trovão

Redator em Endopapers. Formado em Medicina pela UFCG. Residência em Clínica Médica pelo HBL-SUS/PE. Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo HAM-SUS/PE. Titulo de especialista em Endocrinologia e Metabologia pela SBEM Mestre em neurociências pela UFPE. Preceptor da Residência de Endocrinologia do HC/UFPE.

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