O pré-diabetes (pré-DM) e o diabetes mellitus (DM) são condições fortemente associadas a aumento do risco cardiovascular. Baseado nessa relevância, dado que tais comorbidades estão em ascensão, recentemente a revista The Lancet publicou uma revisão de análise post-hoc de dois grandes estudos renomados sobre pré-DM visando investigar se a remissão do pré-DM é associada com menor incidência de morte cardiovascular ou hospitalização por insuficiência cardíaca (IC). Vamos ver o que o artigo nos trouxe de informações.
Introdução:
Pré-diabetes é uma condição clínica associada a doença aterosclerótica cardiovascular, insuficiência cardíaca e morte prematura. A sua prevenção requer abordagem multidisciplinar envolvendo mudança dietética, prática regular de atividade física e medicação quando houver indicação médica. Tais medidas melhoram não só o perfil glicêmico, como também condições associadas como hipertensão arterial e dislipidemia.
O Estudo de Resultados de Prevenção de Diabetes de DaQing na China (DaQingDOPS), teve início em 1986 e mostrou que 6 anos de mudança de estilo de vida em pacientes com pré-dm em remissão foram capazes de reduzir mortalidade cardiovascular em 33% e outras causas de morte em 26% após 3 décadas de seguimento.
Já o Estudo de Resultados do Programa de Prevenção de Diabetes dos EUA (DPPOS) viu que perda de peso superior a 7% e prática de atividade física de moderada intensidade em pelo menos 150 minutos semanais não demonstrou redução significativa de eventos cardiovasculares.
O presente estudo então visou fazer uma análise desses grandes estudos supracitados na associação entre remissão do pré-dm e redução de risco cardiovascular.
Metodologia:
Foram realizadas análises post-hoc de dois estudos marcantes na prevenção do diabetes: Estudo de Resultados do Programa de Prevenção de Diabetes dos EUA (DPPOS) e Estudo de Resultados de Prevenção de Diabetes de DaQing na China (DaQingDOPS).
Os critérios de avaliação para remissão foram baseados na American Diabetes Association (ADA), com glicemia de jejum < 100mg/dl ou TTGO 2h < 140 mg/dl ou Hba1c <5,7%, sendo de 1 ano para o DPPOS e 6 anos para o DaQingDOPS.
O desfecho primário foi morte cardiovascular e hospitalização por IC ao longo de 20 e 30 anos também para cada estudo, respectivamente.
Resultados:
O tempo de seguimento para o DPPOS foi do início do mesmo em 31 de julho de 1996 até a fase 3 do estudo em 23 de fevereiro de 2020. No total, 2402 participantes foram incluídos no DPPOS enquanto 540 no DaQingDOPS.
No DPPOS, 275 (11,5%) dos 2402 participantes atingiram remissão após 1 ano de intervenção, enquanto 2127 (88,5%) dos 2402 não atingiram. Nesse mesmo estudo, depois de uma média de seguimento de 20 anos, a taxa de mortalidade cardiovascular e hospitalização por IC foi de 1,74 para cada 1000 pessoas-ano para os que atingiram remissão, enquanto que para os que não atingiram foi de 4,17 para cada 1000 pessoas-ano. Tais achados também foram corroborados no estudo DaQingDOPS que teve tempo de seguimento maior (30 anos).
Discussão:
O presente artigo mostra que a remissão do pré-dm em dois grandes estudos independentes, randomizados e controlados, incluindo participantes de diversas origens culturais e ancestrais foi associada a um risco substancialmente menor de morbi-mortalidade cardiovascular. Essa associação surgiu durante o acompanhamento de décadas após a conclusão da intervenção ativa, sugerindo forte efeito residual da remissão.
Tais achados reforçam o conceito de que conquistar e manter a normoglicemia através de diversas modalidades de mudança de estilo de vida podem conferir benefício metabólico significativo aos pacientes.
Como qualquer estudo, esse também contou com limitações tais como: análise post-hoc, características basais diferiram entre os pacientes que atingiram a remissão e os que não atingiram e a remissão foi mais provável em pacientes com valores glicêmicos mais próximos da normalidade.
Conclusão e mensagem prática:
A remissão do pré-DM é associada a benefícios a longo prazo para a saúde cardiovascular, com redução de mortalidade e de hopistalização por IC. A busca pela remissão de tal condição pode ser um alvo para uma nova abordagem de prevenção de doenças cardiovasculares.
Autoria

Juliane Braziliano
Médica formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE) Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) Editora Médica de Endocrinologia do Portal Afya e Whitebook
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