A definição de obesidade tem sido objeto de debate intenso nos últimos anos. A crítica ao uso isolado do índice de massa corporal (IMC) e a proposta de separar obesidade clínica de obesidade pré-clínica, publicada pela Comissão do Lancet em 2025, expuseram a ausência de padronização na prática.
Nesse cenário, a Obesity Association da American Diabetes Association publicou, em 2026, a seção de rastreio, diagnóstico, avaliação e estadiamento da obesidade no adulto dos Standards of Care in Overweight and Obesity.
O documento não aborda o tratamento farmacológico, tratado em uma seção separada, mas oferece critérios diagnósticos e um fluxo de avaliação que podem uniformizar condutas no consultório.
Como deve ser feito o rastreio da obesidade?
O rastreio de excesso de adiposidade deve ser feito ao menos anualmente pelo IMC, com peso e altura medidos e não autorrelatados.
A diretriz acrescenta o monitoramento do ganho ponderal, em que aumento de 1 a 1,5 kg por ano por mais de 3 anos sinaliza risco, independentemente do IMC atual.
Reconhece-se a limitação do IMC como teste, com sensibilidade em torno de 50% e especificidade de cerca de 90% para adiposidade. Por isso, medidas de adiposidade central passam a integrar o diagnóstico em faixas específicas de IMC.
Critérios diagnósticos por ascendência
A classificação, aplicável ao adulto não gestante, usa cortes por ascendência.
Ascendência não asiática
Excesso de adiposidade: IMC ≥ 25 kg/m².
Sobrepeso: IMC entre 25 e 29,9 kg/m² com relação cintura-estatura < 0,5 e circunferência abdominal < 88 cm em mulheres ou < 102 cm em homens.
Obesidade: IMC ≥ 30 kg/m²; ou IMC entre 25 e 29,9 kg/m² com relação cintura-estatura ≥ 0,5; ou IMC entre 25 e 29,9 kg/m² com circunferência abdominal ≥ 88 cm em mulheres ou ≥ 102 cm em homens.
Ascendência asiática
Excesso de adiposidade: IMC ≥ 23 kg/m².
Sobrepeso: IMC entre 23 e 27,4 kg/m² com relação cintura-estatura < 0,5 e circunferência abdominal < 80 cm em mulheres ou < 90 cm em homens.
Obesidade: IMC ≥ 27,5 kg/m²; ou IMC entre 23 e 27,4 kg/m² com relação cintura-estatura ≥ 0,5; ou IMC entre 23 e 27,4 kg/m² com circunferência abdominal ≥ 80 cm em mulheres ou ≥ 90 cm em homens.
Como avaliar adiposidade central?
A relação cintura-estatura é a circunferência abdominal dividida pela altura, ambas em centímetros, com ponto de corte de 0,5.
A circunferência abdominal é a alternativa aceita quando não se utiliza a razão, e sua aferição é mais crítica na faixa de IMC entre 25 e 29,9 kg/m², ou entre 23 e 27,4 kg/m² na ascendência asiática, em que distingue sobrepeso de obesidade.
O que avaliar após confirmar o diagnóstico?
Confirmado o diagnóstico, a avaliação inicial é abrangente e inclui história ponderal, com trajetória e idade de início, tratamentos prévios e resposta, comorbidades, saúde mental e determinantes sociais.
A investigação de causas secundárias, como hipotireoidismo, síndrome dos ovários policísticos e hipercortisolismo, é guiada por sintomas, com TSH, cortisol salivar e testosterona total solicitados apenas quando indicados.
A estratificação de risco combina a distribuição da adiposidade com o Edmonton Obesity Staging System (EOSS, estágios 0 a 4), que prediz mortalidade além das medidas antropométricas e orienta a intensidade do seguimento.
Como estadiar a obesidade pelo EOSS?
O EOSS estratifica a gravidade em cinco estágios, conforme a repercussão médica, física, psicológica e funcional da obesidade, independentemente do grau de adiposidade.
Estágio 0
Ausência de doença relacionada à obesidade e de sintomas. HbA1c < 5,7%, PA < 130/80 mmHg, triglicerídeos < 150 mg/dL, HDL > 60 mg/dL, ALT < 36 e AST < 33 UI/L. Sem dispneia aos esforços e sem dor. PHQ-9 e GAD-7 < 5. Sem limitação funcional.
Estágio 1
Alterações subclínicas. Pré-diabetes, com HbA1c entre 5,7 e 6,4%; PA entre 130 e 139/80 e 89 mmHg; triglicerídeos entre 150 e 199 mg/dL; HDL entre 40 e 60 mg/dL; ALT ≥ 36 ou AST ≥ 33 UI/L com FIB-4 < 1,3.
Inclui sintomas leves, como dispneia a esforço moderado e dores ocasionais; PHQ-9 ou GAD-7 entre 5 e 9; e limitação funcional discreta, sem impacto na qualidade de vida.
Estágio 2
Doença estabelecida. Inclui diabetes tipo 2, com HbA1c ≥ 6,5% ou uso de hipoglicemiante; hipertensão, com PA ≥ 140/90 mmHg ou uso de anti-hipertensivo; dislipidemia, com triglicerídeos ≥ 200 mg/dL ou HDL < 40 mg/dL, ou uso de hipolipemiante; MASLD; apneia obstrutiva do sono; ou outra doença relacionada à obesidade.
Também inclui sintomas moderados, como dispneia a esforço leve, dor articular e osteoartrite moderada de joelho; depressão ou ansiedade diagnosticadas, PHQ-9/GAD-7 > 9 ou transtorno alimentar; e limitação funcional moderada, com impacto na qualidade de vida.
Estágio 3
Doença grave. Inclui diabetes com complicações, doença cardiovascular aterosclerótica, insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida, FIB-4 > 2,67 ou MASH, e síndrome de hipoventilação da obesidade.
Também inclui sintomas graves, como dispneia em repouso, angina e mobilidade reduzida; depressão maior ou ideação suicida; e limitação funcional grave, com incapacidade laboral.
Estágio 4
Doença terminal. Inclui doença renal em estágio terminal, insuficiência cardíaca terminal, cirrose ou insuficiência respiratória. Também inclui dispneia contínua, letargia grave, anedonia total e restrição ao leito.
Pontos críticos da diretriz
Alguns pontos merecem atenção crítica. A baixa sensibilidade do IMC justifica a incorporação das medidas de cintura, mas a circunferência abdominal ainda é aferida de forma inconsistente na prática, e a padronização da técnica é condição para reprodutibilidade no seguimento longitudinal.
A operacionalização do EOSS proposta no documento não foi validada clinicamente, e o estágio 4 apoia-se em consenso de especialistas.
Por fim, a razão cintura-estatura amplia a detecção de adiposidade central na faixa de IMC entre 25 e 30 kg/m², justamente onde o subdiagnóstico é maior, estimado em cerca de 25% dos homens e 48% das mulheres quando se usa apenas o IMC.
Mensagem prática
O valor da diretriz está na consolidação de critérios operacionais e de um fluxo de rastreio, diagnóstico e estadiamento que pode ser reproduzido no consultório.
Para o endocrinologista, o efeito prático mais imediato é apresentar limiares definidos para incorporar a adiposidade central ao diagnóstico e um sistema de estadiamento que muda o seguimento, o que pode reduzir a variabilidade entre serviços.
Autoria

Ícaro Sampaio
Redator em Endopapers. Formado em Medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UFCG). Residência em Clínica Médica pelo Hospital Regional de Juazeiro - BA. Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital das Clínicas da UFPE. Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Médico Assistente e Preceptor no Serviço de Endocrinologia do Hospital das Clínicas da UFPE.
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