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Endocrinologia28 julho 2026

Rastreio, diagnóstico e estadiamento da obesidade no adulto: nova diretriz ADA

Diretriz da ADA orienta rastreio, diagnóstico e estadiamento da obesidade no adulto com IMC, cintura e EOSS.
Por Ícaro Sampaio

A definição de obesidade tem sido objeto de debate intenso nos últimos anos. A crítica ao uso isolado do índice de massa corporal (IMC) e a proposta de separar obesidade clínica de obesidade pré-clínica, publicada pela Comissão do Lancet em 2025, expuseram a ausência de padronização na prática.

Nesse cenário, a Obesity Association da American Diabetes Association publicou, em 2026, a seção de rastreio, diagnóstico, avaliação e estadiamento da obesidade no adulto dos Standards of Care in Overweight and Obesity.

O documento não aborda o tratamento farmacológico, tratado em uma seção separada, mas oferece critérios diagnósticos e um fluxo de avaliação que podem uniformizar condutas no consultório.

Como deve ser feito o rastreio da obesidade?

O rastreio de excesso de adiposidade deve ser feito ao menos anualmente pelo IMC, com peso e altura medidos e não autorrelatados.

A diretriz acrescenta o monitoramento do ganho ponderal, em que aumento de 1 a 1,5 kg por ano por mais de 3 anos sinaliza risco, independentemente do IMC atual.

Reconhece-se a limitação do IMC como teste, com sensibilidade em torno de 50% e especificidade de cerca de 90% para adiposidade. Por isso, medidas de adiposidade central passam a integrar o diagnóstico em faixas específicas de IMC.

Critérios diagnósticos por ascendência

A classificação, aplicável ao adulto não gestante, usa cortes por ascendência.

Ascendência não asiática

Excesso de adiposidade: IMC ≥ 25 kg/m².

Sobrepeso: IMC entre 25 e 29,9 kg/m² com relação cintura-estatura < 0,5 e circunferência abdominal < 88 cm em mulheres ou < 102 cm em homens.

Obesidade: IMC ≥ 30 kg/m²; ou IMC entre 25 e 29,9 kg/m² com relação cintura-estatura ≥ 0,5; ou IMC entre 25 e 29,9 kg/m² com circunferência abdominal ≥ 88 cm em mulheres ou ≥ 102 cm em homens.

Ascendência asiática

Excesso de adiposidade: IMC ≥ 23 kg/m².

Sobrepeso: IMC entre 23 e 27,4 kg/m² com relação cintura-estatura < 0,5 e circunferência abdominal < 80 cm em mulheres ou < 90 cm em homens.

Obesidade: IMC ≥ 27,5 kg/m²; ou IMC entre 23 e 27,4 kg/m² com relação cintura-estatura ≥ 0,5; ou IMC entre 23 e 27,4 kg/m² com circunferência abdominal ≥ 80 cm em mulheres ou ≥ 90 cm em homens.

Como avaliar adiposidade central?

A relação cintura-estatura é a circunferência abdominal dividida pela altura, ambas em centímetros, com ponto de corte de 0,5.

A circunferência abdominal é a alternativa aceita quando não se utiliza a razão, e sua aferição é mais crítica na faixa de IMC entre 25 e 29,9 kg/m², ou entre 23 e 27,4 kg/m² na ascendência asiática, em que distingue sobrepeso de obesidade.

O que avaliar após confirmar o diagnóstico?

Confirmado o diagnóstico, a avaliação inicial é abrangente e inclui história ponderal, com trajetória e idade de início, tratamentos prévios e resposta, comorbidades, saúde mental e determinantes sociais.

A investigação de causas secundárias, como hipotireoidismo, síndrome dos ovários policísticos e hipercortisolismo, é guiada por sintomas, com TSH, cortisol salivar e testosterona total solicitados apenas quando indicados.

A estratificação de risco combina a distribuição da adiposidade com o Edmonton Obesity Staging System (EOSS, estágios 0 a 4), que prediz mortalidade além das medidas antropométricas e orienta a intensidade do seguimento.

Como estadiar a obesidade pelo EOSS?

O EOSS estratifica a gravidade em cinco estágios, conforme a repercussão médica, física, psicológica e funcional da obesidade, independentemente do grau de adiposidade.

Estágio 0

Ausência de doença relacionada à obesidade e de sintomas. HbA1c < 5,7%, PA < 130/80 mmHg, triglicerídeos < 150 mg/dL, HDL > 60 mg/dL, ALT < 36 e AST < 33 UI/L. Sem dispneia aos esforços e sem dor. PHQ-9 e GAD-7 < 5. Sem limitação funcional.

Estágio 1

Alterações subclínicas. Pré-diabetes, com HbA1c entre 5,7 e 6,4%; PA entre 130 e 139/80 e 89 mmHg; triglicerídeos entre 150 e 199 mg/dL; HDL entre 40 e 60 mg/dL; ALT ≥ 36 ou AST ≥ 33 UI/L com FIB-4 < 1,3.

Inclui sintomas leves, como dispneia a esforço moderado e dores ocasionais; PHQ-9 ou GAD-7 entre 5 e 9; e limitação funcional discreta, sem impacto na qualidade de vida.

Estágio 2

Doença estabelecida. Inclui diabetes tipo 2, com HbA1c ≥ 6,5% ou uso de hipoglicemiante; hipertensão, com PA ≥ 140/90 mmHg ou uso de anti-hipertensivo; dislipidemia, com triglicerídeos ≥ 200 mg/dL ou HDL < 40 mg/dL, ou uso de hipolipemiante; MASLD; apneia obstrutiva do sono; ou outra doença relacionada à obesidade.

Também inclui sintomas moderados, como dispneia a esforço leve, dor articular e osteoartrite moderada de joelho; depressão ou ansiedade diagnosticadas, PHQ-9/GAD-7 > 9 ou transtorno alimentar; e limitação funcional moderada, com impacto na qualidade de vida.

Estágio 3

Doença grave. Inclui diabetes com complicações, doença cardiovascular aterosclerótica, insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida, FIB-4 > 2,67 ou MASH, e síndrome de hipoventilação da obesidade.

Também inclui sintomas graves, como dispneia em repouso, angina e mobilidade reduzida; depressão maior ou ideação suicida; e limitação funcional grave, com incapacidade laboral.

Estágio 4

Doença terminal. Inclui doença renal em estágio terminal, insuficiência cardíaca terminal, cirrose ou insuficiência respiratória. Também inclui dispneia contínua, letargia grave, anedonia total e restrição ao leito.

Pontos críticos da diretriz

Alguns pontos merecem atenção crítica. A baixa sensibilidade do IMC justifica a incorporação das medidas de cintura, mas a circunferência abdominal ainda é aferida de forma inconsistente na prática, e a padronização da técnica é condição para reprodutibilidade no seguimento longitudinal.

A operacionalização do EOSS proposta no documento não foi validada clinicamente, e o estágio 4 apoia-se em consenso de especialistas.

Por fim, a razão cintura-estatura amplia a detecção de adiposidade central na faixa de IMC entre 25 e 30 kg/m², justamente onde o subdiagnóstico é maior, estimado em cerca de 25% dos homens e 48% das mulheres quando se usa apenas o IMC.

Mensagem prática

O valor da diretriz está na consolidação de critérios operacionais e de um fluxo de rastreio, diagnóstico e estadiamento que pode ser reproduzido no consultório.

Para o endocrinologista, o efeito prático mais imediato é apresentar limiares definidos para incorporar a adiposidade central ao diagnóstico e um sistema de estadiamento que muda o seguimento, o que pode reduzir a variabilidade entre serviços.

Autoria

Foto de Ícaro Sampaio

Ícaro Sampaio

Redator em Endopapers. Formado em Medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UFCG).  Residência em Clínica Médica pelo Hospital Regional de Juazeiro - BA. Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital das Clínicas da UFPE. Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Médico Assistente e Preceptor no Serviço de Endocrinologia do Hospital das Clínicas da UFPE.

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