A puberdade precoce central é definida classicamente pelo aparecimento de caracteres sexuais secundários antes dos 8 anos nas meninas e antes dos 9 anos nos meninos, decorrente da ativação prematura do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal. O diagnóstico é cerca de dez vezes mais frequente em meninas, cuja incidência vem aumentando nas últimas décadas. No entanto, estudos populacionais mostram uma tendência de antecipação do início puberal, fato esse que levanta questionamentos sobre a adequação dos limites etários utilizados para definir puberdade precoce.
Atualmente, o diagnóstico baseia-se na avaliação clínica dos caracteres sexuais secundários, velocidade de crescimento, idade óssea e confirmação laboratorial da ativação central do eixo gonadotrófico. O tratamento padrão continua sendo realizado com agonistas do GnRH, capazes de interromper a progressão puberal e preservar o potencial de crescimento. A relevância clínica da PPC decorre principalmente do risco de comprometimento da estatura final, menarca precoce e potenciais repercussões psicossociais. Além disso, a puberdade precoce tem sido associada, em estudos observacionais, a maior risco futuro de obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão, doença cardiovascular e alguns cânceres hormônio-dependentes.
Em junho de 2026, a Endocrine Society publicou a nova diretriz internacional sobre Puberdade Precoce Central (PPC), desenvolvida com participação ativa da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e de diversas sociedades científicas internacionais. O documento representa a primeira grande atualização baseada na metodologia GRADE para responder às principais dúvidas práticas relacionadas ao diagnóstico e tratamento da PPC.
As recomendações a seguir foram contextualizadas com base nos dois algoritmos clínicos propostos: um relacionado ao diagnóstico e outro relacionado ao tratamento.

Diagnóstico
O conceito introduzido é que nem toda criança que preenche os critérios cronológicos de puberdade precoce necessita investigação imediata. Para meninas com estágio M3 antes dos 8 anos e meninos com aumento do volume testicular antes dos 9 anos, a investigação hormonal segue indicada inicialmente. Para estágios iniciais de telarca, o algoritmo diagnóstico passa a priorizar observação clínica estruturada antes da realização de exames complementares.
Meninas com telarca inicial (Tanner M2):
Entre 7 e 8 anos, a diretriz sugere não iniciar imediatamente investigação laboratorial ou radiológica. Em vez disso, recomenda acompanhamento clínico periódico a cada 4-6 meses, com reavaliação do crescimento e do estágio puberal. A justificativa é que uma proporção significativa dessas meninas apresenta evolução lenta, não progressiva ou até regressão espontânea, alcançando estatura adulta normal sem necessidade de tratamento.
Para meninas menores de 7 anos, mesmo nessa faixa etária, considerada de maior risco, a diretriz também propõe um período inicial de observação de 4 a 6 meses para diferenciar os casos de puberdade. A avaliação hormonal imediata permanece indicada quando houver: Tanner M3 ao diagnóstico, progressão rápida para M3 em até 6 meses, aceleração importante da velocidade de crescimento (>6 cm/ano), avanço clínico evidente e presença de sintomas neurológicos.
LH basal passa a ser o exame inicial preferencial
A diretriz recomenda abandonar a prática de realizar teste de estímulo com GnRH ou análogos em todos os pacientes. O teste dinâmico fica reservado para situações em que o LH basal seja baixo ou inconclusivo diante de forte suspeita clínica. Na prática, trata-se de uma estratégia mais simples, menos onerosa e potencialmente mais acessível.
Ressonâncias magnéticas de SNC:
A ressonância de encéfalo era quase mandatória na investigação da PPC. Atualmente, não é recomendado solicitar rotineiramente para meninas entre 6 e 8 anos e meninos entre 8 e 9 anos. A recomendação é baseada na baixa prevalência de lesões intracranianas nessas faixas etárias, o exame de imagem fica indicado nos casos de meninas menores de 6 anos e meninos menores de 8 anos, ou na presença de sintomas neurológicos sugestivos de doença do sistema nervoso central.
Testes genéticos deixam de ser rotina:
Apesar dos avanços na identificação de genes associados à PPC, como MKRN3, DLK1 e MECP2, a diretriz não recomenda investigação genética rotineira. O teste deve ser reservado principalmente para casos familiares e após decisão compartilhada com a família.
Tratamento
O algoritmo terapêutico também reforça a necessidade de individualização, ou seja, nem toda PPC deve ser tratada. A recomendação continua favorável ao uso de agonistas de GnRH em muitos pacientes, porém reconhece explicitamente que alguns grupos podem não obter benefício clínico relevante. Entre eles: meninas entre 7 e 8 anos com evolução lenta, pacientes que já ultrapassaram o pico de velocidade de crescimento puberal e casos com potencial limitado de ganho estatural. A diretriz deixa claro que o diagnóstico de PPC não implica automaticamente indicação de tratamento.
Preferência por agonistas de GnRH de longa ação:
Uma das mudanças mais práticas do documento é a recomendação de iniciar diretamente as formulações de longa ação, quando possível. Assim, quando houver indicação do tratamento, a preferência passa a ser pelas apresentações trimestrais, semestrais ou implantes anuais, em vez de iniciar obrigatoriamente com formulações mensais para depois avaliar a transição. Essa recomendação possui evidência um pouco mais robusta que as demais (baixa qualidade, em vez de muito baixa).
Menos exames durante o acompanhamento:
A diretriz se monstra a favor do abandono da monitorização bioquímica rotineira, ao recomenda que o seguimento seja predominantemente clínico, utilizando velocidade de crescimento, estadiamento puberal e idade óssea anual. Dosagens hormonais passam a ser reservadas para suspeita clínica de falha terapêutica, visando ajustes de doses dos medicamentos.
Hormônio de crescimento não deve ser associado rotineiramente:
A associação entre GH e agonista de GnRH não é recomendada de forma rotineira com o objetivo de aumentar a estatura final. Seu uso deve permanecer restrito às indicações tradicionais de GH.
Suspensão do tratamento mais precoce:
A diretriz também sugere evitar prolongar rotineiramente o tratamento além de 10–11 anos nas meninas e 11–12 anos nos meninos (idade cronológica), ou 11-12 anos nas meninas e 12-13 anos nos meninos (idade óssea). A continuidade após esses limites deve ser individualizada conforme crescimento residual, aspectos psicossociais e situações especiais.
Conclusão
A nova diretriz da Endocrine Society tenta reduzir o excesso de diagnóstico e de tratamento observado nos últimos anos em crianças com desenvolvimento puberal precoce. O documento reconhece que muitas meninas com telarca precoce apresentam formas lentamente progressivas ou até autolimitadas, propondo uma abordagem inicial baseada em observação clínica estruturada antes da solicitação de exames ou introdução de tratamento. Da mesma forma, reduz a utilização rotineira de ressonância magnética, testes genéticos e monitorização hormonal seriada, ao mesmo tempo em que reforça o uso de agonistas de GnRH de longa duração quando o tratamento estiver indicado.
Entretanto, é fundamental interpretar essas recomendações dentro de seu contexto metodológico. Praticamente todas as recomendações da diretriz receberam classificação de “recomendação condicional”, sustentadas por evidências de qualidade baixa ou muito baixa. Isso exige cautela na transposição direta para a prática clínica diária.
Em sistemas públicos de saúde como o SUS, nos quais consultas periódicas a cada 4-6 meses nem sempre são factíveis, a estratégia de observação inicial pode representar um desafio. Embora a redução de exames e tratamentos desnecessários seja desejável, também devemos considerar o risco de perder a janela terapêutica ideal em crianças com progressão rápida da puberdade que não consigam manter seguimento adequado. Por fim, a diretriz não tenta restringir o tratamento da puberdade precoce, e sim reforçar a necessidade de selecionar melhor quais pacientes realmente se beneficiam dele.
Autoria

Paulo Melo
Conteudista médico na Afya. Formado pela Universidade Federal do Ceará (UFC) com residências em Endocrinologia pela Santa Casa Belo Horizonte. Atualmente, mestrando em Ciências e Saúde (UFPI) e professor do Afya Centro Universitário.
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