De acordo com o posicionamento conjunto da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e da Associação Brasileira para o Estudo da Medicina Sexual e Saúde (ABEMSS) sobre hipogonadismo masculino, a terapia de reposição de testosterona (TRT) está indicada exclusivamente em homens com sintomas persistentes de deficiência androgênica e níveis séricos inequivocamente baixos de testosterona, após exclusão das contraindicações.
Restauração hormonal
O objetivo terapêutico é restaurar concentrações hormonais para a faixa médio-normal (aproximadamente 450–600 ng/dL), promovendo melhora clínica e manutenção de caracteres sexuais secundários. A TRT não deve ser realizada para ganho de performance ou como terapia antienvelhecimento.
Contraindicações
Antes do início da TRT, é mandatória a avaliação sistemática de contraindicações absolutas: câncer de mama masculino; câncer de próstata ativo ou suspeito sem adequada avaliação urológica; e desejo reprodutivo a curto prazo. Entre as contraindicações relativas destacam-se: hematócrito > 48%, apneia obstrutiva do sono grave não tratada, insuficiência cardíaca descompensada (NYHA III–IV), IAM ou AVC nos últimos seis meses.
Os autores, porém, também estabelecem algumas contraindicações relativas em que a TRT pode ser considerada com cautela e monitoramento rigoroso: sintomas graves do trato urinário inferior (IPSS > 19), após avaliação urológica e otimização do tratamento; história de tromboembolismo venoso ou trombofilia conhecida; Câncer de próstata de baixo risco tratado com intenção curativa e sem evidência de doença ativa (após discussão multidisciplinar e consentimento informado.
Opções terapêuticas
Quanto às opções terapêuticas disponíveis no Brasil, o documento recomenda preferencialmente formulações intramusculares de longa ação, como o undecanoato de testosterona 1000 mg, por proporcionarem níveis mais estáveis e menor flutuação sintomática. Formulações de curta ação (ésteres mistos ou cipionato) permanecem amplamente utilizadas, porém associam-se a maiores oscilações séricas.
A testosterona transdérmica em gel constitui alternativa eficaz e segura, especialmente para pacientes que preferem via não invasiva ou necessitam de maior flexibilidade terapêutica. Formulações orais, implantes subcutâneos manipulados e preparações sem farmacocinética validada não são recomendados.
Em homens com desejo de preservação da fertilidade, a TRT é contraindicada, devendo-se considerar terapias que estimulem a produção endógena de testosterona e mantenham a espermatogênese. Nesses casos, moduladores seletivos do receptor de estrogênio (como citrato de clomifeno), gonadotrofinas (hCG isolado ou associado a FSH) e inibidores da aromatase podem ser utilizados em situações selecionadas. Essas abordagens são particularmente relevantes no hipogonadismo secundário e funcional, incluindo o associado à obesidade ou ao uso prévio de esteroides anabolizantes.
Indicações de estilo de vida
O documento enfatiza que modificações do estilo de vida constituem a primeira linha de tratamento no hipogonadismo funcional, especialmente na obesidade (MOSH). Redução ponderal e atividade física regular podem restaurar parcialmente o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal e devem ser fortemente recomendadas antes da introdução de TRT. Não se recomenda o uso de testosterona com a finalidade isolada de controle glicêmico, perda de peso ou redução de risco cardiovascular.
O monitoramento é componente essencial do tratamento. Recomenda-se avaliação clínica e laboratorial aos três, seis e 12 meses após o início da terapia e, posteriormente, a cada seis a 12 meses. Devem ser monitorados testosterona sérica, hematócrito, PSA e perfil metabólico. Eritrocitose (hematócrito >54%) exige suspensão temporária ou ajuste de dose.
Ausência de benefício clínico após seis meses com níveis adequados deve motivar reavaliação diagnóstica e eventual descontinuação. Assim, o posicionamento propõe uma abordagem terapêutica baseada em indicação precisa, escolha individualizada da formulação, vigilância sistemática de segurança e alinhamento ético com as melhores evidências disponíveis.
Autoria

Erik Trovão
Formado em Medicina pela UFCG •Residência em Clínica Médica pelo HBLSUS/PE •Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo HAM-SUS/PE •Titulo de especialista em Endocrinologia e Metabologia pela SBEM •Mestre em neurociências pela UFPE •Preceptor da Residência de Endocrinologia do HC/UFPE
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.
