Logotipo Afya

Produzido por

Anúncio
Endocrinologia6 março 2026

Posicionamento brasileiro sobre hipogonadismo masculino: diagnóstico

SBEM divulga posicionamento brasileiro sobre o cuidado de pacientes com hipogonadismo masculino. Confira o que é destaque.
Por Erik Trovão

Tivemos, no final de fevereiro de 2026, a publicação do posicionamento brasileiro sobre o cuidado de pacientes com hipogonadismo masculino, um documento conjunto da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e da Associação Brasileira para o Estudo da Medicina Sexual e Saúde (ABEMSS). Neste texto, discutiremos as recomendações referentes ao diagnóstico desta condição. 

Diagnóstico

Segundo os autores e em concordância com outras diretrizes internacionais, o diagnóstico do hipogonadismo masculino deve obrigatoriamente integrar critérios clínicos e bioquímicos. A condição é definida como uma síndrome clínica caracterizada por sinais e sintomas compatíveis associados à comprovação laboratorial inequívoca de deficiência de testosterona. O documento reforça que não se recomenda rastreamento populacional indiscriminado, devendo a investigação ser direcionada a homens com manifestações sugestivas. Porém, recomenda que todos os homens devem ser questionados em consulta sobre sinais e sintomas de deficiência de testosterona. A anamnese estruturada e o exame físico completo — incluindo avaliação de caracteres sexuais secundários, volume testicular e composição corporal — são etapas mandatórias.

A confirmação laboratorial baseia-se na dosagem de testosterona total (TT) em amostras colhidas pela manhã (entre 7h e 10h), em jejum, devido à variação circadiana do hormônio. Valores reduzidos devem ser confirmados por uma segunda dosagem em condições semelhantes, idealmente com intervalo de cerca de quatro semanas. O posicionamento estabelece que níveis de TT < 264 ng/dL sustentam o diagnóstico, enquanto valores > 350 ng/dL tornam o diagnóstico improvável. Resultados na zona intermediária (264–350 ng/dL) exigem investigação adicional, especialmente na presença de alterações da SHBG. 

Nos casos limítrofes ou em situações que reduzem a SHBG (como obesidade, diabetes, hipotireoidismo) ou a elevam (envelhecimento, infecção pelo HIV, hepatopatias), recomenda-se a dosagem de SHBG e albumina para cálculo da testosterona livre (cFT), preferencialmente pela equação de Vermeulen. Considera-se como ponto de corte para cFT o valor de 6,5 ng/dL. O documento reconhece que a espectrometria de massa (LC-MS/MS) representa o padrão-ouro, embora a maioria dos laboratórios utilize imunoensaios automatizados, aceitáveis na prática clínica desde que validados. 

Diferenciação

Uma vez confirmada a deficiência androgênica, a diferenciação etiológica entre hipogonadismo primário e secundário deve ser realizada por meio da dosagem de LH e FSH. Valores elevados sugerem falência testicular primária, enquanto níveis baixos ou inapropriadamente normais indicam comprometimento hipotálamo-hipofisário.

Na suspeita de hipogonadismo secundário, recomenda-se investigação adicional com prolactina, função tireoidiana e saturação de transferrina, além de ressonância magnética de sela túrcica em casos selecionados — particularmente em homens jovens com testosterona ≤150 ng/dL; na concomitância com hiperprolactinemia ou outros déficits hipofisários; ou na presença de sintomas sugestivos de massa hipofisária (cefaleia de início recente ou defeitos do campo visual). 

Hipogonadismo funcional

O documento enfatiza ainda o reconhecimento do hipogonadismo funcional, frequentemente associado à obesidade (MOSH), diabetes mellitus, doenças crônicas, uso de esteroides anabolizantes, opioides ou glicocorticoides. Nesses casos, a identificação e correção da causa subjacente são prioritárias. Em homens com desejo reprodutivo, a análise seminal basal é recomendada antes de qualquer intervenção terapêutica, uma vez que a espermatogênese constitui marcador sensível da integridade do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal e pode estar comprometida mesmo em formas funcionais da doença. 

Exames complementares

Por fim, exames complementares devem ser individualizados. Cariótipo deve ser considerado nos casos de hipogonadismo primário, especialmente na presença de testículos reduzidos. Densitometria óssea (DXA) é recomendada em homens com risco aumentado de fratura, especialmente após os 50 anos de idade. E ultrassonografia testicular não deve ser realizada rotineiramente, sendo reservada para situações específicas: dor ou massa testicular palpável; testículos muito pequenos para melhor acurácia na medição; fatores anatômicos que dificultem o uso do orquidômetro, como hidrocele considerável e testículos em posição inguinal.  

Conclusão e mensagem prática

Assim, o posicionamento propõe uma abordagem diagnóstica sistemática, baseada em critérios laboratoriais padronizados, investigação etiológica direcionada e contextualização clínica individualizada, visando reduzir tanto o subdiagnóstico quanto o sobrediagnóstico da condição. 

 

Autoria

Foto de Erik Trovão

Erik Trovão

Formado em Medicina pela UFCG •Residência em Clínica Médica pelo HBLSUS/PE •Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo HAM-SUS/PE •Titulo de especialista em Endocrinologia e Metabologia pela SBEM •Mestre em neurociências pela UFPE •Preceptor da Residência de Endocrinologia do HC/UFPE

anuncio endocrinopapers

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Endocrinologia