Ainda há muito preconceito sobre o uso de análogos de GLP-1 acerca dos pacientes que precisam fazer uso da medicação. Muitos acreditam que esse é o caminho mais “curto” ou “fácil” para uma condição que, na realidade, é uma doença e que merece o tratamento medicamentoso adequado.
Recentemente, foi publicado um artigo muito interessante que visou avaliar a percepção social de pacientes mulheres brancas e negras, com obesidade e em uso de análogos de GLP-1 como forma de terapia. Vamos ver o que o estudo nos mostrou de interessante.

Introdução:
Os análogos de GLP-1/GIP são medicações promissoras no tratamento do Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2) e sobrepeso/obesidade com capacidade significativa de gerar perdas ponderais de até 20% do peso corporal total, além de claros benefícios cardiometabólicos.
Apesar das vantagens seram cada vez mais divulgadas, a sociedade ainda vive um grande estigma ao redor do tratamento medicamentoso do sobrepeso/obesidade.
Nesse cenário, o presente artigo visou avaliar algo pouco estudado: a percepção social sobre a perda de peso a nível étnico. Sendo assim, essa percepção foi estudada em mulheres brancas e negras com obesidade e em uso de análogos de GLP-1.
As principais hipóteses foram de que as mulheres negras sofreriam mais estigma do que as brancas quando comparadas ao método usado para perda ponderal e de que elas estariam um usando um atalho para conseguirem perder peso.
Metodologia:
Um amostra de 402 mulheres negras e brancas entre 30 e 49 anos com sobrepeso e obesidade foram selecionadas no período entre 04 de setembro de 10 de outubro de 2024 . Elas foram então randomizadas para ler sobre uma mulher negra ou branca chamada Evette que perdeu 15% do peso corporal com dieta/exercício ou com um análogo de GLP-1.
As participantes relataram atitudes estigmatizantes em relação a Evette como gordofobia, antipatia, desejo de distanciamento social, culpa e crença de que ela usou um atalho para perda ponderal.
Resultados:
Ao contrário do que muitos poderiam pensar, o estigma foi maior quando Evette era retratada como branca e quando necessitou utilizar análogos de GLP-1 como forma de tratamento para perda ponderal.
A perda de peso com uso dos análogos, ativou estereótipos negativos, gerando uma menor percepção de cordialidade em relação à Evette. No entanto, isso não provocou julgamentos negativos suficientemente intensos para justificar a atribuição de culpa ou evitação social da personagem, pelo menos até que se levasse em consideração de que o uso da medicação funcionava como um “atalho” para perda ponderal.
Discussão:
O presente estudo visou mostrar como é a percepção social em torno de mulheres brancas e negras com obesidade que fizeram uso de análogos de GLP-1 para perda ponderal.
O estudo traz luz à novas estratégias de comunicação de uso de análogos de GLP-1 como forma de minimizar a visão de que eles sejam um atalho para perda ponderal. Eles devem sim serem encarados como forma de tratamento de uma doença crônica e de caráter recidivante.
Como qualquer estudo, esse também contou com alguns pontos limitantes sendo o principal o fato de ser uma amostra populacional pequena e bem delimitada ( mulheres brancas e negras, de meia idade e com obesidade), o que pode ter inviabilizado a generalização dos achados.
Conclusão e mensagem prática:
O estudo demonstrou que mulheres brancas com obesidade e que perderam peso em vigência do uso de análogos de GLP-1 foram mais julgadas do que as mulheres negras na mesma condição.
Tal constatação abre precedentes para mais políticas de conscientização de que a obesidade é uma doença crônica e que merece um olhar mais amplo de que a terapia farmacológica vai muito além de um atalho para perda ponderal.
Autoria

Juliane Braziliano
Editora médica na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE). Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atuação na Afya e em consultório particular, além de telemedicina.
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