Com a aprovação do uso de análogos de GLP-1 para crianças com obesidade e idade superior a 12 anos, as famílias dessas crianças estão começando a considerar o tratamento farmacológico aliado a mudanças do estilo de vida. No entanto, como as famílias visualizam e abordam o tratamento medicamentoso ainda é pouco explorado. Com esse intuito, recentemente foi publicado um estudo qualitativo que visou abordar justamente essa questão. Vamos ver o que temos de dados interessantes.
Introdução:
Em 2023, a Academia Americana de Pediatria aprovou o uso de análogos de GLP-1 como forma de tratamento farmacológico para crianças com obesidade e idade > 12 anos.
Apesar de claros benefícios dessa classe medicamentosa, ainda há muito receio quanto ao seu uso, principalmente por cuidadores de crianças com obesidade.
A insegurança alimentar é um termo utilizado para definir acesso limitado ou inconsistente a alimentos adequados, o que leva má nutrição e, consequentemente, dificuldade em melhorar hábitos de vida.
Sendo assim, o objetivo do presente estudo foi averiguar o que pode interferir na tomada de decisão para uso de análogos de GLP-1 entre cuidadores de crianças com obesidade que vivem em um ambiente com insegurança alimentar.
Metodologia:
O estudo qualitativo recrutou cuidadores com idade > 18 anos que positivaram nos testes para insegurança alimentar como moderada a grave e crianças ( idade < 18 anos) com obesidade e disfunção metabólica associada a esteatose hepática que tentaram mudança de estilo de vida por, pelo menos, dois meses. O recrutamento foi feito no período entre 01 de julho 2022 a 31 de outubro de 2023 em clínicas de gastroenterologia pediátrica de um sistema regional de saúde norte-americano. No período entre 01 de dezembro de 2023 e 01 de abril de 2024, foram realizadas entrevistas via telefone ou vídeo para análise dos dados.
O principal resultado estudado foi a análise de fatores que pudessem influenciar na decisão dos cuidadores sobre o tratamento farmacológico de seus filhos com obesidade. As entrevistas foram analisadas por dois pesquisadores para identificação de tais fatores.
Resultados:
Dos 37 cuidadores elegíveis, 21 completaram as entrevistas e 20 foram incluídas. 95% dos cuidadores eram mães, com idade média de 40 anos, 90% nasceram fora dos EUA, 65% não haviam completado o ensino médio e 75% não falavam a língua inglesa. Das 20 crianças selecionadas, 90% eram do sexo masculino e com idade média de 12,9 anos.
Todos os cuidadores foram orientados pelos pediatras dos seus filhos a incentivar mudanças de estilo de vida para os mesmos e 50% fizeram acompanhamento com nutricionista.
Ao fim, 60% dos cuidadores desejaram a terapia farmacológica para seus filhos. Os principais fatores que interferiram na decisão pelos cuidadores foram: experiência prévia com mudança de estilo de vida, confiança e segurança das medicações análogas de GLP-1 e valores relacionados ao cuidado ideal de seus filhos.
Discussão:
Os resultados do estudo mostram como é complexo para os cuidadores a tomada de decisão sobre o tratamento farmacológico com análogos de GLP-1 para suas crianças com obesidade e disfunção metabólica.
A tomada de decisão foi baseada no equilíbrio de experiências prévias apenas com mudança de estilo de vida, compreensão dos efeitos da medicação e crenças sobre o que é considerado o cuidado ideal para seus filhos. Ao ponderarem o uso da medicação, os cuidadores também levaram em consideração o contexto familiar como um todo.
O estudo revelou alguns fatores difíceis para as crianças permanecerem apenas com mudanças de estilo de vida tais como: preferências alimentares das crianças, costumes das famílias, fatores socioeconômicos que dificultaram adesão a alimentos mais saudáveis, entre outros.
Em contrapartida, também houve relutância quanto ao tratamento farmacológico como a questão financeira para arcar com o tratamento, dúvidas sobre segurança e eficácia da medicação, tempo de uso e adesão pelo paciente.
Como qualquer estudo, esse também apresentou limitações, sendo as principais: ser um estudo qualitativo e de pequena amostra populacional.
Conclusão:
No presente estudo, os cuidadores de crianças com obesidade demonstraram interesse tanto no tratamento não medicamentoso com mudança de estilo de vida quanto no tratamento farmacológico. Os principais fatores que influenciaram na tomada de decisão foram: experiência prévia com mudança de estilo de vida, confiança e segurança das medicações análogas de GLP-1 e valores relacionados ao cuidado ideal de seus filhos.
É importante que haja mais engajamento pelos profissionais de saúde para auxílio na tomada de decisões pelo tratamento farmacológico com apoio e acolhimento desses cuidadores, bem como melhor acesso à tais medicações.
Desse modo, o tratamento da obesidade infantil poderá se tornar mais completo e promissor, com redução de morbimortalidade na vida adulta.
Autoria

Juliane Braziliano
Médica formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE) Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) Editora Médica de Endocrinologia do Portal Afya e Whitebook
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