Os agonistas do receptor de GLP-1 (e os agonistas duplos GLP-1/GIP) revolucionaram o manejo farmacológico da obesidade, mas seu mecanismo de ação — retardo do esvaziamento gástrico, redução da motilidade intestinal e supressão do apetite — traz consequências gastrointestinais previsíveis. O consenso EASO–EFAD–ECPO, publicado no Lancet Diabetes & Endocrinology, destaca que os efeitos colaterais mais comuns dessas terapias são justamente gastrointestinais: náusea, refluxo, vômitos, constipação e diarreia. Embora geralmente leves a moderados e dose-dependentes (piorando após escalonamento de dose e melhorando na fase de manutenção), esses sintomas levam à descontinuação do tratamento em aproximadamente 4–7% dos participantes nos estudos pivotais de semaglutida e tirzepatida. A constipação, em particular, é agravada pela redução espontânea da ingestão alimentar e, consequentemente, da fibra dietética — um efeito colateral nutricional frequentemente subestimado na prática clínica, mas que compromete diretamente a adesão ao tratamento.
Diante desse cenário, o documento estabelece uma recomendação prática e objetiva: ingestão de fibras ≥25 g por dia, individualizada por meio de terapia nutricional médica, correspondendo a uma densidade de fibra de aproximadamente 12,6 g por 1000 kcal (ou 3,0 g/MJ). O consenso reconhece, contudo, uma limitação relevante e clinicamente importante — atingir essa meta torna-se particularmente desafiador quando a ingestão calórica cai abaixo de 1500 kcal/dia (6,3 MJ/dia), cenário comum durante o uso de agonistas de GLP-1 devido à supressão intensa do apetite. Essa constatação reforça a necessidade de acompanhamento nutricional estruturado, priorizando estratégias alimentares antes de recorrer à suplementação.
Do ponto de vista fisiológico, as fibras dietéticas dividem-se em duas categorias com funções complementares. As fibras solúveis dissolvem-se em água formando um gel viscoso no trato gastrointestinal, o que retarda o esvaziamento gástrico, modula a absorção de glicose e lipídeos, e serve como substrato fermentável para a microbiota colônica — processo que gera ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) com efeitos benéficos sobre o metabolismo energético e a saciedade. Suas principais fontes incluem aveia, leguminosas (feijões, lentilhas, grão-de-bico), frutas (maçã, pera, frutas cítricas, ameixa seca, kiwi) e psyllium. Já as fibras insolúveis não se dissolvem em água, atuando principalmente como agente de volume fecal (bulking agent): aumentam o peso e o volume das fezes, aceleram o trânsito intestinal e reduzem o tempo de contato do conteúdo luminal com a mucosa. Suas fontes clássicas são grãos integrais, farelo de trigo e vegetais folhosos. No contexto específico das terapias baseadas em incretina, essa distinção é clinicamente relevante: enquanto a fibra insolúvel é a mais diretamente associada ao alívio da constipação por seu efeito de bulking, a fibra solúvel contribui para o controle glicêmico e a saciedade — motivo pelo qual o documento recomenda buscar um equilíbrio entre as duas frações, e não a maximização isolada de uma delas.
Para a implementação prática, o consenso é enfático quanto à necessidade de titulação gradual. A recomendação de primeira linha para constipação prioriza a otimização da fibra alimentar por meio de alimentos (não suplementos), aliada à hidratação adequada, à mobilização regular e a opções alimentares específicas com evidência favorável, como kiwi e ameixa seca. Somente quando a constipação persiste apesar dessas medidas é que se considera um suplemento de fibra com evidência estabelecida, como o psyllium — iniciando com doses baixas (3–5 g/dia) e titulando gradualmente até cerca de 10 g/dia, sempre acompanhado de ingestão hídrica adequada, para minimizar desconforto gastrointestinal (distensão abdominal, flatulência) durante o processo de adaptação. É importante destacar que, para diarreia, a conduta é inversa em alguns aspectos: recomenda-se ajuste individualizado da fibra, priorizando fontes solúveis (frutas, vegetais, aveia, psyllium) e evitando alimentos que agravam sintomas, como álcoois de açúcar (sorbitol, xilitol), cafeína e álcool.
Por fim, o aumento da fibra não deve ser dissociado do manejo hídrico — os dois pilares atuam de forma sinérgica e a negligência de um compromete a eficácia do outro. O documento recomenda ingestão de 2,0–2,5 L de líquidos não calóricos por dia (2,5 L para homens; 2,0 L para mulheres), com ajuste individualizado em climas quentes, atividade física intensa ou condições clínicas que exijam restrição hídrica (insuficiência cardíaca, doença renal crônica). Essa recomendação ganha relevância adicional pelo fato de que os próprios agonistas de GLP-1 podem reduzir a ingestão espontânea de líquidos e a diurese, compondo o risco de desidratação já elevado por eventuais vômitos ou diarreia. Na prática clínica, portanto, a mensagem central para o paciente deve ser clara e sequencial: aumentar fibra sem aumentar líquidos tende a piorar — e não melhorar — a constipação, pois o volume fecal aumentado sem hidratação suficiente resulta em fezes mais endurecidas. A abordagem gradual, monitorada e alimentar-primeiro, complementada por suplementação apenas quando necessário, representa a estratégia mais alinhada às evidências atuais para preservar a tolerabilidade gastrointestinal e sustentar a adesão de longo prazo às terapias baseadas em incretina.
Autoria

Luciano de França Albuquerque
Redator em Endopapers. Mestre em Neurociências UFPE. Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Editor associado do livro Endocrinologia Clínica 7a edição 2020. Preceptor da residência em endocrinologia do HC – UFPE.
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