A osteoporose é uma doença silenciosa caracterizada por um enfraquecimento progressivo da arquitetura óssea com aumento do risco de fraturas. O avançar da idade e a menopausa são os fatores de risco mais conhecidos, porém há diversas condições que podem cursar com o aumento da chance de osteoporose. Uma delas é a insuficiência renal crônica e os transplantados renais.
Recentemente, foi publicado um artigo que visou abordar a eficácia e segurança de diversas terapias anti-osteoporóticas nessa população específica. Vamos ver o que o artigo nos trouxe de informações interessantes.
Introdução:
A osteoporose é bastante prevalente na população de pacientes transplantados renais (PTR), cursando com redução da densidade mineral óssea e aumento do risco de fraturas. As complicações esqueléticas não só afetam a qualidade de vida desses pacientes, como podem comprometer a duração e eficácia do transplante renal.
Nesse cenário, as drogas anti-osteoporóticas desempenham papel importante na prevenção de complicações relacionadas à tal condição.
O presente estudo visou avaliar a eficácia e segurança de diversas medicações anti-osteoporóticas nesse perfil de pacientes de modo a auxiliar clínicos, nefrologistas e endocrinologistas a escolher a melhora opção terapêutica ao se deparar com pacientes transplantados renais e com osteoporose.
Metodologia:
Em base de dados eletrônicas, foram selecionados estudos até 01 de agosto de 2024 que visavam avaliar como desfecho primário: mudanças na densidade mineral óssea de coluna lombar e colo do fêmur, além de efeitos adversos das medicações.
Os critérios de inclusão foram estudos com participantes de qualquer idade, gênero e que eram transplantados renais e sem restrição quanto ao tempo de seguimento. As intervenções foram: bifosfonatos, moduladores seletivos do receptor de estrogênio, hormônio da paratireoide e seus análogos, anticorpos monoclonais anti-RANKL, cálcio, vitamina D e novos agentes anti-osteoporóticos.
As comparações poderiam ser com placebo ou entre as próprias medicações.
Os critérios de exclusão foram: estudos que não envolviam transplantados renais ou com transplantes de mais de um órgão, que não foram publicados na língua inglesa; que não foram ensaios clínicos; estudos observacionais; estudos envolvendo experimentos animais ou in vitro; relatos de caso; editoriais ou resumos de artigos.
Resultados:
Vinte estudos com 1028 participantes reportaram baixa densidade mineral óssea em colo do fêmur com baixo nível de evidência sugerindo melhora após uso de bifosfonatos. Moderado nível de evidência não mostrou diferença entre bifosfonatos x cálcio e calcitonina, calcitonina x cálcio; calcitonina x teriparatide e teriparatide x grupo controle.
Vinte e um estudos com 1066 participantes também reportaram baixa densidade mineral óssea em coluna lombar com baixo nível de evidência demonstrando melhora após tratamento com denosumabe quando comparado ao grupo controle (demais medicações ou placebo).
Quartoze estudos com 822 participantes demonstraram efeitos adversos esperados da medicações, sem diferença significativas entre elas e com nível moderado de evidência.
Discussão:
A osteoporose é bem prevalente dentre os indivíduos transplantados renais e os bifosfonatos, apesar de amplamente utilizados, requerem cuidado nesse perfil de pacientes.
A suplementação de cálcio e vitamina D são parte fundamental do tratamento dada a alta prevalência de deficiência de vitamina D, enquanto que a teriparatide fica reservada para os casos de osteoporose grave, refratariedade aos demais tratamentos medicamentosos ou intolerância aos bifosfonatos.
Para a baixa densidade mineral óssea em coluna lombar o denosumabe se mostrou o mais efetivo, enquanto que no colo do fêmur, ele liderou o ranking ao lado da calcitonina.
O denosumabe demonstrou alta eficácia tendo em vista a sua pouca alteração na função renal e metabolismo essencialmente hepático, permitindo uma estabilidade da droga nos transplantados renais.
Algumas limitações da presente revisão foram: alguns estudos tiveram pouco tempo de seguimento, dificultando a assertividade de tais medicações a longo prazo, bem como os níveis de evidência variaram de baixo a moderado, também comprometendo as conclusões do estudo. Além disso, alguns estudos apresentavam elevada heterogeneidade e também tiveram como desfecho primário apenas a densidade mineral óssea e não os desfechos de fraturas, que são clinicamente bem relevantes.
Conclusão:
O presente artigo mostrou a eficácia e segurança de diversas medicações anti-osteoporóticas com o denosumabe aparecendo como a intervenção mais efetiva para melhorar a densidade mineral óssea enquanto que a suplementação com cálcio oferece a maior segurança.
No entanto, tendo que em vista que as evidências do estudo foram de fracas a moderadas, o tratamento da osteoporose em pacientes transplantados renais requer maior personalização.
Apesar de tudo, o artigo traz uma reflexão para os futuros guidelines incorporarem a real eficácia do denosumabe bem como o alerta de que cada tratamento deve ser único, aliando características individuais de cada paciente, segurança, preferências e custos.
Ainda carecemos de novos estudos em larga escala para definir com maior nível de evidência a melhor escolha terapêutica para osteoporose em transplantados renais.
Autoria

Juliane Braziliano
Editora médica na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE). Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atuação na Afya e em consultório particular, além de telemedicina.
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