Recentemente, a Sociedade Brasileira de Diabetes atualizou alguns capítulos das suas diretrizes 2026, com mudanças importantes nas recomendações sobre o monitoramento e tratamento do diabetes mellitus durante a gestação. As novidades incluem recomendações inéditas sobre uso de tecnologias, como os sensores de Monitoramento Contínuo de Glicose (CGM) e os Sistemas Avançados Híbridos em Alça Fechada (AHCL). A seguir, estão listadas as principais mudanças observadas.

Planejamento da gestação
O uso de Sistemas Avançados Híbridos em Alça Fechada passou a ser recomendado para o tratamento de mulheres com diabetes mellitus tipo 1 (DM1) em programação gestacional, que não estejam atingindo as metas preconizadas. Tais sistemas permitem o alcance do controle glicêmico ótimo antes da concepção e podem ser mantidos ao longo do período gestacional, desde que sejam implementados os ajustes necessários para atender às particularidades fisiológicas da gravidez.
Já no caso de pacientes com diabetes mellitus tipo 2 (DM2), deve-se ter atenção ao ajuste da terapia antidiabética antes da concepção. Em mulheres com DM2 que planejam engravidar, a descontinuação dos agonistas do receptor de GLP-1 deve ser realizada antes da concepção, de modo a possibilitar uma transição segura para a insulinoterapia e o alcance da estabilidade glicêmica antes do início da organogênese. Essa orientação é semelhante àquela proposta pelo guideline da Endocrine Society publicado em 2025.
Monitoramento glicêmico na gestação
Enquanto a diretriz anterior trazia recomendações claras sobre uso do CGM apenas para grávidas com DM1, a nova publicação inclui também mulheres com DM2 e diabetes mellitus gestacional (DMG). Deve ser considerado o uso de CGM para gestantes com DM2 que apresentem grande variabilidade glicêmica ou risco de hipoglicemia sem aviso. Também deve ser considerado indicar o uso de CGM em gestantes com DMG em uso de insulina que apresentem grande variabilidade glicêmica ou risco de hipoglicemia sem aviso e fetos grandes para a idade gestacional.
No caso da gestante com DMG, em uso de CGM, orienta-se manter-se acima de 90% dentro do tempo no alvo (TIRg) de 63 a 140 mg/dL, para reduzir o risco de recém-nascido grande para a idade gestacional. Enquanto isso, se gestante com DM2, fazendo uso de CGM, pode ser considerado como meta manter-se acima de 80% do tempo dentro do alvo.
Tratamento do DM na gestação
A diretriz brasileira reforça a indicação da terapia farmacológica na mulher com DMG quando duas ou mais medidas de glicemia, avaliadas após 7 a 14 dias de terapia não farmacológica, estiverem acima da meta. Também pode ser uma opção iniciar a terapia farmacológica quando 30-50% das medidas em 7 dias estiverem alteradas.
A insulina segue como terapia de primeira escolha, sendo agora orientada uma dose total inicial entre 0,3 e 1,0 UI/kg/dia, dependendo da idade gestacional e da gravidade da hiperglicemia. Após o início do tratamento, os ajustes posteriores devem ser individualizados de acordo com os níveis de glicemia medidos pela paciente.
A Metformina, no DMG, continua sendo recomendada apenas como alternativa à insulina (situações de exceção) ou associada à insulina em caso de mulheres já com altas doses e ainda mantendo descontrole glicêmico, ou com ganho de peso excessivo materno e/ou fetal. Já nos casos de pacientes com DM2 na gestação, o uso combinado da Metformina deve ser considerado, principalmente quando existe ganho de peso gestacional excessivo ou risco de RN grande para a idade gestacional.
Por fim, quando a paciente em questão conviver com DM1, a diretriz recomenda o uso de AHCL visando a reduzir a frequência dos episódios de hipoglicemia e melhorar o controle glicêmico.
Autoria

Ícaro Sampaio
Redator em Endopapers. Formado em Medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UFCG). Residência em Clínica Médica pelo Hospital Regional de Juazeiro - BA. Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital das Clínicas da UFPE. Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Médico Assistente e Preceptor no Serviço de Endocrinologia do Hospital das Clínicas da UFPE.
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