Logotipo Afya

Produzido por

Anúncio
Endocrinologia28 maio 2025

Novo medicamento no tratamento da obesidade: o glucagon ganha protagonismo

Foi publicado no New England Journal of Medicine (maio de 2025) o estudo GLORY-1, que avaliou a eficácia e a segurança do mazdutide, um agonista dual dos receptores de GLP-1 e glucagon, no tratamento da obesidade e do sobrepeso. Trata-se de um ensaio clínico de fase 3, duplo-cego, placebo-controlado, conduzido exclusivamente na China, com 610 …

Por Ícaro Sampaio

Foi publicado no New England Journal of Medicine (maio de 2025) o estudo GLORY-1, que avaliou a eficácia e a segurança do mazdutide, um agonista dual dos receptores de GLP-1 e glucagon, no tratamento da obesidade e do sobrepeso. Trata-se de um ensaio clínico de fase 3, duplo-cego, placebo-controlado, conduzido exclusivamente na China, com 610 adultos com IMC ≥ 28 kg/m² (obesidade) ou IMC entre 24 e 27,9 kg/m² associado a ao menos uma comorbidade relacionada ao excesso de peso, como dislipidemia, MAFLD, hipertensão, hiperuricemia, apneia obstrutiva do sono ou pré-diabetes.

Os participantes foram randomizados para receber mazdutide 4 mg/semana, mazdutide 6 mg/semana ou placebo, por via subcutânea, durante 48 semanas. A dose foi escalonada progressivamente: o grupo 4 mg iniciou com 2 mg por 4 semanas, subindo para 4 mg; o grupo 6 mg seguiu até 8 semanas com 4 mg, e a partir da semana 9 recebeu 6 mg semanalmente. O estudo teve dois desfechos primários: (1) variação percentual no peso corporal até a semana 32 e (2) proporção de pacientes com perda ≥5% do peso nesse mesmo ponto.

Os resultados mostraram reduções de peso estatisticamente e clinicamente significativas. Na semana 32, a perda ponderal média foi de –10,1% no grupo 4 mg e –12,6% no grupo 6 mg, contra +0,5% no placebo. A proporção de pacientes com redução ≥5% do peso foi de 74% com 4 mg e 82% com 6 mg, versus apenas 10% no placebo (p < 0,001 para todos os comparativos). Aos 48 semanas, 49,5% dos pacientes em uso de mazdutide 6 mg e 35,7% em uso de 4 mg atingiram perda ≥15% do peso corporal, em contraste com apenas 2% no grupo placebo. Além da perda de peso, observaram-se benefícios significativos em múltiplos desfechos cardiometabólicos: menor circunferência abdominal (–9,3 cm com 6 mg vs –1,4 cm no placebo), reduções na pressão arterial sistólica (–8,6 vs –2,1 mmHg), triglicerídeos (–58 vs –14 mg/dL), colesterol total (–11 vs +6 mg/dL), LDL-c (–8 vs +4 mg/dL), ácido úrico (–0,6 vs +0,1 mg/dL) e TGP (–13,9 vs –4,4 U/L).

Eventos adversos foram predominantemente gastrointestinais, como náusea (32–50%), diarreia e vômito, concentrando-se na fase de escalonamento. A taxa de descontinuação por eventos adversos foi baixa: 1,5% com 4 mg e 0,5% com 6 mg. Pequenos aumentos transitórios na frequência cardíaca foram observados, sem eventos cardiovasculares adversos significativos.

Do ponto de vista fisiopatológico, os autores enfatizam o papel do agonismo do receptor de glucagon como diferencial do mazdutide em relação aos agonistas isolados do GLP-1. O estímulo do receptor de glucagon promove lipólise, oxidação de ácidos graxos e redução da gordura hepática, com possível efeito adjuvante na redução de triglicerídeos, TGP e ácido úrico, especialmente relevantes em populações com alta prevalência de MAFLD e dislipidemia. Dados de estudos anteriores com o mazdutide também apontam esse perfil. A possibilidade de redução sustentada de peso e melhora do espectro metabólico hepático/lipídico reforça a relevância clínica dessa abordagem dual.

Embora o estudo tenha sido restrito a pacientes chineses e excluído indivíduos com diabetes tipo 2, novos ensaios estão em andamento, incluindo comparações diretas com semaglutida e uso do mazdutide em dose de 9 mg. Em síntese, os resultados do GLORY-1 posicionam o mazdutide como uma potencial nova opção terapêutica no manejo da obesidade, com efeitos amplos sobre risco cardiometabólico e segurança aceitável, sustentando a investigação futura de agonistas duais GLP-1/glucagon como nova classe farmacológica na área de endocrinologia metabólica.

Autoria

Foto de Ícaro Sampaio

Ícaro Sampaio

Redator em Endopapers. Formado em Medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UFCG).  Residência em Clínica Médica pelo Hospital Regional de Juazeiro - BA. Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital das Clínicas da UFPE. Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Médico Assistente e Preceptor no Serviço de Endocrinologia do Hospital das Clínicas da UFPE.

anuncio endocrinopapers

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Endocrinologia