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Endocrinologia21 maio 2026

Novo estudo indica possíveis benefícios dos análogos de GLP-1 para câncer de mama

Estudo avalia associação entre agonistas de GLP-1, sobrevida e recorrência em mulheres com câncer de mama.
Por Ícaro Sampaio

A relação entre obesidade e câncer é bastante consolidada. Aproximadamente 40% dos casos de neoplasias malignas apresentam associação com o excesso de peso, e pelo menos 13 tipos tumorais têm risco aumentado em pacientes com obesidade. No câncer de mama especificamente, tanto a obesidade ao diagnóstico quanto o ganho de peso durante o tratamento se associam a maior risco de recorrência e pior sobrevida. Esse contexto faz dos agonistas do receptor de GLP-1 (GLP-1 RA) candidatos ao uso em oncologia.  

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No entanto, as evidências sobre o uso dessas drogas em pacientes com câncer ainda são escassas. Sabe-se que a perda de peso induzida pelos GLP-1 RA parece atenuada nessa população: dados apresentados em reuniões científicas e publicações recentes indicam que mulheres com câncer de mama em uso de terapia endócrina respondem menos ao tratamento com esses agentes em termos de redução ponderal, embora os mecanismos ainda não estejam completamente esclarecidos. Além disso, as recomendações atuais para o manejo do diabetes induzido por terapias oncológicas, como as do Standards of Care 2026 da American Diabetes Association, ainda não incorporam orientações específicas e robustas sobre o uso de AR-GLP-1 nesse contexto. Em suma, o campo carece de estudos desenhados especificamente para esse cenário. 

Nesse panorama, foi publicado recentemente no JAMA Network Open um estudo de coorte retrospectiva que representa uma das primeiras análises dedicadas a avaliar a associação entre uso de GLP-1 RA e desfechos oncológicos em mulheres com câncer de mama. Utilizando dados da rede TriNetX, que agrega prontuários eletrônicos de mais de 68 organizações de saúde nos Estados Unidos, os autores identificaram 841.831 pacientes com câncer de mama em estágios I a III diagnosticadas entre 2006 e 2023. Após aplicação de critérios de inclusão, três coortes foram construídas: GLP-1 RA versus não uso (pacientes com obesidade), GLP-1 RA versus insulina ou metformina (pacientes com diabetes mellitus tipo 2), e GLP-1 RA versus inibidores do SGLT2 (pacientes com diabetes mellitus tipo 2). 

No grupo com obesidade sem diabetes, o uso de GLP-1 RA se associou a menor risco de mortalidade por todas as causas (HR 0,35; IC 95% 0,21-0,58) e de recorrência (HR 0,44; IC 95% 0,30-0,64) ao longo de dez anos, em comparação ao não uso. Entre pacientes com diabetes tipo 2, a comparação com insulina ou metformina mostrou benefício ainda mais pronunciado para mortalidade (HR 0,09; IC 95% 0,06-0,15) e recorrência (HR 0,33; IC 95% 0,21-0,50). Já a comparação com inibidores do SGLT2 não evidenciou diferença significativa nas análises não ajustadas, sugerindo que parte do efeito pode ser mediada por mecanismos metabólicos compartilhados por essas classes, embora os modelos ajustados tenham favorecido o GLP-1 RA também nessa comparação.  

As limitações do estudo são relevantes e devem ser consideradas na interpretação dos dados. O fato de ser retrospectivo impede inferência causal. A definição de recorrência baseada em códigos diagnósticos, por sua vez, indica imprecisão. Os GLP-1 RA foram agrupados sem distinção entre moléculas, o que impede conclusões sobre agentes específicos. Dados individuais de variação de peso não estavam disponíveis, o que impossibilita atribuir os efeitos observados especificamente à perda ponderal ou a mecanismos independentes dela, como os efeitos anti-inflamatórios e imunomoduladores descritos em modelos pré-clínicos. 

Os achados do estudo são biologicamente plausíveis e clinicamente relevantes, mas não suficientes para modificar a prática clínica de forma isolada. Ensaios clínicos randomizados são necessários para estabelecer causalidade, determinar os agentes mais adequados e identificar os subgrupos que mais se beneficiam. Por ora, o estudo reforça a necessidade de investigar o papel dos GLP-1 RA na oncologia.

Autoria

Foto de Ícaro Sampaio

Ícaro Sampaio

  • Graduação em medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco
  • Residência em Clínica Médica pelo Hospital Regional de Juazeiro - BA
  • Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital das Clínicas da UFPE
  • Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia
  • Médico Assistente e Preceptor no Serviço de Endocrinologia do Hospital das Clínicas da UFPE

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