Os inibidores do cotransportador sódio-glicose tipo 2 (SGLT2) representam uma das classes mais relevantes no tratamento contemporâneo do diabetes mellitus tipo 2, com benefícios que vão além do controle glicêmico. Esses fármacos atuam reduzindo a reabsorção renal de glicose, promovendo glicosúria e, consequentemente, melhora da hiperglicemia de forma independente da insulina. A Endocrine Society publicou uma nova recomendação enfatizando que seu uso deve ser individualizado, considerando perfil clínico, comorbidades e riscos específicos de cada paciente.
Um dos principais diferenciais dos inibidores do SGLT2 é o impacto favorável em desfechos cardiovasculares e renais, especialmente em pacientes com alto risco cardiovascular, insuficiência cardíaca e doença renal crônica. As diversas diretrizes destacam que a escolha dessa classe deve levar em conta essas condições, reforçando o conceito de prescrição orientada por benefícios além da redução da hemoglobina glicada. No entanto, o uso seguro exige conhecimento aprofundado dos potenciais eventos adversos.
Entre os efeitos colaterais mais comuns estão as infecções genitais micóticas e as infecções do trato urinário, decorrentes da glicosúria persistente. O artigo ressalta a importância da orientação adequada ao paciente quanto à higiene genital, reconhecimento precoce de sintomas e necessidade de tratamento oportuno, evitando interrupções desnecessárias da terapia quando os eventos são leves e manejáveis.
Outro ponto crítico abordado é o risco de cetoacidose diabética euglicêmica, uma complicação rara, porém potencialmente grave. Os autores reforçam que esse risco aumenta em situações de jejum prolongado, dietas muito restritivas em carboidratos, consumo excessivo de álcool, doenças agudas e no período perioperatório. Assim, é fundamental educar o paciente e suspender temporariamente o medicamento em contextos de estresse metabólico.
O artigo também discute os cuidados relacionados à depleção volêmica e à hipotensão, especialmente em idosos, pacientes em uso de diuréticos ou com função renal limítrofe. A avaliação do estado de hidratação, da pressão arterial e da função renal antes e após o início do tratamento é destacada como etapa essencial para uma prescrição segura e eficaz, reduzindo riscos de eventos adversos.
Por fim, os autores reforçam que a “arte” da prescrição dos inibidores do SGLT2 reside no equilíbrio entre maximizar benefícios e minimizar riscos. Isso envolve seleção adequada do paciente, educação contínua, monitoramento clínico regular e reavaliação periódica da terapia. Quando utilizados de forma criteriosa, os inibidores do SGLT2 se consolidam como uma ferramenta valiosa no manejo global do diabetes tipo 2, com impacto positivo na qualidade de vida e nos desfechos a longo prazo.
Autoria

Luciano de França Albuquerque
Graduação em medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco • Residência em Clínica Médica pelo Hospital Regional de Juazeiro – BA • Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital das Clínicas da UFPE • Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia • Médico Endocrinologista no Hospital Esperança Recife e Hospital Eduardo Campos da Pessoa Idosa
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.
