A maior parte do conhecimento que orienta o diagnóstico e a classificação do diabetes insulinodependente deriva de observações realizadas em países de alta renda, onde a desnutrição crônica é incomum e o diabetes tipo 1 autoimune responde pela quase totalidade dos quadros. Nesse contexto, consolidou-se uma associação direta entre magreza, dependência precoce de insulina e autoimunidade, frequentemente aplicada de forma quase automática na prática clínica.
Entretanto, essa lógica perde poder explicativo quando analisamos populações expostas, ao longo de toda a vida e por gerações sucessivas, a insegurança alimentar, dietas pobres em micronutrientes, saneamento precário e infecções parasitárias recorrentes. Em extensas áreas rurais da África Subsaariana, uma proporção significativa de indivíduos que se apresentam com quadro clínico indistinguível do diabetes tipo 1 clássico não apresenta autoanticorpos associados ao diabetes no momento do diagnóstico. Mesmo entre aqueles em que a autoimunidade é detectável, o perfil imunológico, a idade de início e a distribuição por sexo diferem de forma consistente do padrão observado em países desenvolvidos.
Recentemente foi publicada na Diabetologia, em 2025, uma revisão que visa organizar esse conjunto de observações e propõe maior atenção e uma interpretação fisiopatológica integrada para esse fenótipo, recentemente denominado diabetes tipo 5 e reconhecido pela International Diabetes Federation (IDF). O artigo discute como a desnutrição crônica e intergeracional pode modificar tanto desenvolvimento e função da célula beta quanto a maturação e resposta imune, resultando em um espectro de diabetes insulinodependente que não se encaixa adequadamente nas categorias tradicionais. Pela importância recente dada ao tema, trazemos a revisão para discussão.
FENÓTIPO DO DIABETES “INSULINODEPENDENTE” EM CONTEXTOS DE DESNUTRIÇÃO
A revisão compila dados epidemiológicos e clínicos de diferentes países da África Subsaariana, com destaque para populações rurais da Etiópia, Camarões, Gana e Eritreia. De forma consistente, esses estudos descrevem indivíduos que se apresentam com hiperglicemia sintomática, perda ponderal, baixa reserva de insulina endógena e necessidade imediata de insulinoterapia, configurando um quadro clínico superponível ao diabetes tipo 1.
Apesar disso, entre 40% e 50% desses pacientes são negativos para autoanticorpos associados ao diabetes no momento do diagnóstico. Nos casos autoanticorpo-positivos, observa-se um perfil distinto, com predomínio de anticorpos anti-GAD e baixa frequência de anticorpos contra IA-2 e ZnT8, contrastando com o padrão de múltiplos autoanticorpos comumente observado no diabetes tipo 1 clássico. Outro achado recorrente é o deslocamento do pico de incidência para a terceira década de vida, aproximadamente uma década mais tarde do que o observado em países de alta renda, além de marcada predominância masculina nos casos de início pós-puberal, especialmente em comunidades rurais socialmente mais vulneráveis.
Essas diferenças não parecem ser explicadas apenas por variações genéticas. Um dos argumentos mais fortes apresentados pelos autores vem de estudos em populações migrantes. Em descendentes de africanos que passam a viver em países desenvolvidos, observa-se uma transição progressiva do fenótipo para formas mais precoces, com maior incidência de diabetes tipo 1 na infância e perfil imunológico mais próximo do clássico. A magnitude dessa mudança se correlaciona com o tempo de residência da família no novo ambiente, reforçando o papel central de fatores ambientais.
DESNUTRIÇÃO CRÔNICA COMO EIXO PRINCIPAL
O artigo descreve de forma detalhada o contexto nutricional das áreas rurais da África Subsaariana. Grande parte da população depende de agricultura de subsistência em solos pobres em micronutrientes, o que resulta em dietas repetitivas, com deficiência tanto de proteínas quanto de elementos essenciais como zinco, ferro, selênio, iodo e vitaminas lipossolúveis e do complexo B. Mulheres em idade reprodutiva frequentemente apresentam baixo índice de massa corporal e carências nutricionais importantes, criando um ambiente adverso para o desenvolvimento fetal.
A consequência desse cenário é a elevada prevalência de atraso de crescimento linear desde a infância, fenômeno amplamente documentado nessas populações. Estudos citados na revisão mostram que adultos jovens com diabetes insulinodependente em regiões rurais da Etiópia são, em média, mais baixos e apresentam sinais de desproporção esquelética quando comparados a controles não diabéticos. Esses achados sugerem que a agressão nutricional precoce não apenas antecede, mas se associa diretamente ao fenótipo metabólico observado na vida adulta.
FISIOPATOLOGIA: ESTRESSE DA CÉLULA BETA E FALÊNCIA FUNCIONAL
No plano fisiopatológico, a revisão propõe mecanismos possíveis nos quais a desnutrição crônica comprometa a célula beta por mecanismos predominantemente não imunes. Alterações epigenéticas induzidas por subnutrição precoce podem afetar fatores de transcrição essenciais para o desenvolvimento pancreático, como PDX1, IGF2 e HNF4α, resultando numa redução permanente da massa de células beta. Considerando que, em humanos, a capacidade de expansão da célula beta após a infância é bastante limitada, esse déficit inicial pode acarretar implicações duradouras.
Além da redução quantitativa, a célula beta passa a operar sob condições de estresse contínuo. A deficiência de micronutrientes reduz a capacidade antioxidante celular, tornando a célula beta particularmente vulnerável ao estresse oxidativo gerado pela intensa atividade mitocondrial necessária à síntese de insulina. Em paralelo, o aumento da demanda sobre o retículo endoplasmático para dobramento e processamento da pró insulina ativa a resposta à proteína mal dobrada. Quando o estresse é persistente, os mecanismos adaptativos da UPR tornam-se insuficientes e a via apoptótica é ativada, levando à perda progressiva de células beta e à insulinopenia.
Esse processo também favorece a formação de fragmentos de pró insulina e proteínas pós traducionalmente modificadas, que funcionam como neoantígenos. Essas estruturas não fazem parte do repertório apresentado durante a seleção tímica e podem ser reconhecidas por linfócitos T autorreativos, criando um elo entre estresse metabólico e ativação imune secundária.
MODULAÇÃO IMUNOLÓGICA INDUZIDA PELA DESNUTRIÇÃO E PARASITOSES
A desnutrição intrauterina compromete o desenvolvimento do timo, resultando em atrofia tímica e alterações nos mecanismos de tolerância imunológica. Esse efeito é amplificado em ambientes com saneamento precário, onde infecções parasitárias são altamente prevalentes. Helmintíases, comuns nessas regiões, induzem respostas imunes do tipo Th2, que tendem a antagonizar vias Th1 associadas à autoimunidade mediada por células.
Como consequência, processos autoimunes podem ser retardados, atenuados ou assumir perfis atípicos, o que ajuda a explicar tanto a elevada proporção de diabetes insulinodependente autoanticorpo-negativo quanto a presença de formas autoanticorpo-positivas com assinatura imunológica incompleta. Estudos realizados no noroeste da Etiópia ilustram bem essa heterogeneidade, mostrando coexistência de indivíduos insulinodependentes com e sem autoanticorpos, ambos com baixa reserva de insulina e necessidade precoce de tratamento.
O QUE PODEMOS APRENDER COM ESTE ESTUDO E COMO ELE INFLUENCIA NOSSA PRÁTICA MÉDICA
Esta revisão reforça a necessidade de ampliar o olhar clínico diante do diabetes insulinodependente em populações expostas à desnutrição crônica. A ausência de autoanticorpos no diagnóstico não deve ser interpretada como exclusão de um quadro grave e progressivo, nem justificar automaticamente a classificação como diabetes tipo 2.
O conceito de diabetes tipo 5 surge como uma ferramenta útil para organizar esse espectro fenotípico e lembrar que a história nutricional e social do paciente é parte integrante da fisiopatologia da doença. Em países como o Brasil, onde coexistem avanços tecnológicos e bolsões persistentes de insegurança alimentar, esse modelo ajuda a compreender apresentações insulinodependentes em indivíduos magros, com marcadores imunológicos pouco expressivos e evolução clínica heterogênea.
O diabetes tipo 5 chama atenção para determinantes de longo prazo do risco metabólico, incluindo nutrição materna, qualidade da alimentação ao longo da infância, saneamento e condições de vida. Incorporar essa perspectiva à prática clínica amplia a capacidade de interpretação dos fenótipos observados e reforça a importância de integrar o cuidado individual com estratégias de saúde pública voltadas à redução da desnutrição e da vulnerabilidade social.
Autoria

Luiz Fernando Fonseca Vieira
Endocrinologista pelo HCFMUSP. Telemedicina no Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE). Residência médica em Clínica médica pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Graduação em Medicina pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) - Faculdade de Medicina de Botucatu.
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