A terapia de reposição hormonal no climatério/menopausa é alvo de muitos estudos, tendo em vista seus inúmeros benefícios quando bem indicada.
Recentemente, foi publicado um artigo que visou avaliar se níveis séricos otimizados de estradiol são capazes de trazer maior benefício em relação à saúde esquelética e cardiovascular em mulheres que realizam reposição tópica ou transdérmica. A seguir, veja as principais informações do estudo.
Apesar de ser um tema muito polêmico, a terapia de reposição hormonal (TRH) no climatério e na menopausa continua sendo o tratamento mais eficaz para os sintomas vasomotores, associados ou não a sintomas geniturinários.
Quando iniciada em mulheres na janela de oportunidade, definida como idade < 60 anos e menos de 10 anos do início da menopausa, a TRH é capaz de trazer vantagens à saúde feminina.
Os atuais guidelines orientam quanto aos riscos, às doses, à duração, à rota de administração, ao momento de início e à necessidade de associação de progesterona ao tratamento, que deve ser sempre individualizado e realizado com as menores doses possíveis para trazer os benefícios esperados.
O objetivo do presente estudo foi incorporar evidências provenientes de ensaios clínicos randomizados (ECRs) para orientar a prática clínica e embasar as diretrizes atuais, baseando-se principalmente no uso de estradiol nas formulações tópica ou transdérmica.
Como o estudo avaliou o estradiol transdérmico?
Os resultados de dois estudos pivotais de segurança e eficácia de fase 3 com gel de estradiol transdérmico (TdL) versus placebo foram comparados com os resultados do estudo clínico KEEPS, de 4 anos, no que diz respeito à prevenção de doenças esqueléticas e cardiovasculares.
No KEEPS, a eficácia clínica de dose baixa de estrogênio oral 0,45 mg ou adesivo transdérmico semanal de estradiol, liberando 50 µg/dia, ambos em combinação com progesterona micronizada cíclica de 200 mg por 12 dias do ciclo, foi comparada com placebo.
No total, 727 mulheres saudáveis com 3 anos de menopausa e idade entre 42 e 58 anos foram randomizadas para receber os tratamentos propostos, e a segurança de cada regime foi avaliada na prevenção da progressão da espessura da íntima média da carótida (EIMC) e do acúmulo de cálcio na coronária (CAC).
No estudo pivotal 1, 221 mulheres na pós-menopausa foram elegíveis se apresentassem amenorreia natural ou cirúrgica há pelo menos 6 meses. Elas foram randomizadas para receber 1,25 g de gel de estradiol TdL 0,06%, contendo 0,75 mg de estradiol, 2,5 g, contendo 1,5 mg de estradiol, ou placebo, todos aplicados uma vez por dia por 12 semanas.
No total, 219 mulheres foram avaliadas no início do estudo e em pelo menos uma avaliação após a consulta basal. O desfecho primário avaliado foi a mudança da frequência e da severidade dos fogachos moderados a severos.
Já o estudo pivotal 2 foi multicêntrico, duplo-cego, randomizado, controlado por comparador ativo e de avaliação de doses. Foram avaliadas 361 pacientes, randomizadas em duplo-cego para receber 3 dosagens de estradiol TdL e, de forma aberta, o mesmo adesivo usado no estudo KEEPS, que serviu de controle positivo.
Uma das 3 dosagens de gel de E2, 0,625 g, 1,25 g ou 2,5 g, contendo 0,06% de estradiol, foi aplicada diariamente. O adesivo de E2 TdL, que liberava 50 µg de estradiol por dia, foi trocado semanalmente por um período de 3 meses.
O desfecho primário analisado foi a eficácia do gel de estradiol versus adesivo no tratamento dos sintomas vasomotores nas semanas 4, 8 e 12. Os desfechos avaliaram a relação concentração-efeito de estradiol sérico, bem como tolerabilidade e eficácia em longo prazo.
Quais foram os resultados sobre sintomas vasomotores?
Um total de 567 pacientes foi incluído na população de eficácia por intenção de tratar.
No estudo 1 (n = 216), as doses diárias de 1,25 g e 2,5 g de gel de E2 TdL reduziram os fogachos moderados a severos de 10,3 para 2,8 ± 3,7 (-73%) e de 10,5 para 2,0 ± 4,2 (-82%), respectivamente.
Já o placebo reduziu os fogachos de 11 para 5,2 ± 6,5 (-53%).
No estudo 2 (n = 351), as doses diárias de 1,25 g e 2,5 g de gel de E2 TdL reduziram os fogachos moderados a severos de 11,7 para 2,9 ± 3,63 e de 11,8 para 2,3 ± 3,8, respectivamente, de maneira similar aos adesivos de E2 TdL, que reduziram os fogachos de 10,9 para 1,3 ± 3,2.
Houve impacto em saúde óssea e cardiovascular?
No estudo KEEPS, a TRH preveniu a perda de densidade mineral óssea (DMO) volumétrica trabecular na coluna torácica, no quadril e na coluna lombar.
No entanto, no mesmo estudo, a TRH não foi capaz de impedir a progressão da aterosclerose, apesar de haver melhora em parâmetros de risco cardiovascular, como perfil lipídico, insulina e PCR.
Existe nível sérico ideal de estradiol?
No presente artigo, foi demonstrado que as doses de 1,25 g e 2,5 g de gel de estradiol são eficazes no alívio dos sintomas vasomotores, bem como na proteção da saúde óssea e cardiovascular.
Ainda não há dados convincentes sobre os níveis séricos adequados de estradiol que garantam melhora sintomática, porém postula-se que níveis > 60 pg/mL sejam adequados.
Como qualquer estudo, este contou com algumas limitações, tais como resultados aplicados a pacientes sintomáticas e assintomáticas, curto período de seguimento e amostra populacional relativamente pequena, o que pode ter inviabilizado a generalização dos achados comparativos.
Mensagem prática
A TRH com gel de estradiol ou adesivo transdérmico em associação com progesterona micronizada oral é um tratamento seguro e eficaz para mulheres sintomáticas na menopausa pelo tempo que for necessário, sendo sugerido que a relação risco-benefício seja reavaliada anualmente.
Os resultados dos dois estudos pivotais de melhora dos sintomas vasomotores com a TRH são compatíveis com os benefícios ósseos e cardiovasculares da TRH comprovados no estudo KEEPS, com níveis séricos de estradiol em torno de 60 pg/mL.
No entanto, vale ressaltar que não são os níveis de estradiol que ditam o sucesso do tratamento, e sim a melhora clínica da paciente.
Ainda são necessários mais estudos que possam avaliar as lacunas existentes em relação à TRH no climatério e na menopausa, dada a heterogeneidade de sintomas que essas fases podem apresentar e a diversidade de resposta clínica das pacientes.
Autoria

Juliane Braziliano
Editora médica na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE). Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atuação na Afya e em consultório particular, além de telemedicina.
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